Recuperação judicial da Casas Bahia é reflexo de juros e concorrência

Casas Bahia

Casas Bahia - Foto: Roberto Resston Fo / Shutterstock.com

O setor varejista enfrenta um período desafiador, com a possibilidade de empresas recorrerem a recuperações extrajudiciais, judiciais ou até mesmo à falência. Essa perspectiva é defendida por Ricardo Meirelles de Faria, pesquisador e doutor em Economia de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), que identifica uma série de fatores interligados criando um ambiente de baixa resiliência para o segmento.

Recentemente, a solicitação de recuperação judicial da Casas Bahia (BHIA3) tornou-se um marco significativo, considerando a história e a dimensão da varejista fundada por Samuel Klein nos anos 1950. A situação da empresa, no entanto, não é um caso isolado, mas sim um exemplo das pressões que o varejo enfrenta atualmente, incluindo juros elevados, transformações no comportamento dos consumidores, o surgimento das apostas online (bets) e uma concorrência acirrada.

Dados do Monitor RGF-BIZDOC, com informações da Receita Federal relativas ao final do primeiro semestre de 2026, indicam que 986 CNPJs do varejo brasileiro estavam em processo de recuperação judicial. Esse total representa um crescimento de 20,4% em comparação com o mesmo período do ano anterior, e uma elevação de 6,6% apenas nos seis primeiros meses de 2026.

Mesmo com o aumento, a pesquisa aponta que a frequência de recuperações judiciais no varejo é de 0,16 a cada mil empresas em atividade, o que se configura como o índice mais baixo entre os principais setores econômicos e cerca de metade da média do país, que é de 0,30 por mil. O segmento varejista é responsável por 12,4% do total de empresas em RJ no Brasil.

Para o pesquisador Ricardo Meirelles de Faria, a recuperação judicial da Casas Bahia serve como um forte indicativo de que a manutenção da taxa básica de juros (Selic) em patamares elevados é “insustentável” para o mercado. Ele recorda que a Selic atingiu 15% em junho de 2025 e atualmente se encontra em 14%. Meirelles explica que, além de reduzir o poder de compra do consumidor, a alta da Selic impacta diretamente o custo de capital das empresas, elevando o financiamento de dívidas, aumentando o risco de crédito e, consequentemente, corroendo as margens operacionais das varejistas.

Conforme a análise de Meirelles de Faria, as empresas chegam a um ponto crítico onde a geração de recursos próprios se mostra insuficiente para cobrir os encargos financeiros de dívidas acumuladas, uma consequência direta de taxas de juros tão elevadas, o que invariavelmente leva ao pedido de recuperação judicial.

O cenário econômico brasileiro nos últimos dois anos apresenta um custo de capital e de financiamento para dívidas, tanto para indivíduos quanto para empresas, considerado impraticável. Este quadro força as companhias a iniciarem processos de recuperação, buscando, em última análise, a renegociação de seus passivos, segundo o pesquisador.

José Carlos de Souza Filho, economista e professor da FIA Business School, também enfatiza o papel da taxa Selic como um dos fatores primordiais para compreender os desafios enfrentados pela Casas Bahia e por boa parte do setor varejista.

O professor aponta que a taxa básica de juros elevou-se de 2% para 15% ao longo de seis anos. Ele explica que o impacto é ainda mais severo porque a Selic não reflete o custo final para o consumidor, mas o varejo sofre duplamente: com o encarecimento do crédito para suas operações e com o crescimento da inadimplência dos clientes.

Para a Casas Bahia, essa problemática ganha relevância adicional, pois a empresa atua no comércio de bens duráveis e produtos de alto valor agregado, como eletrodomésticos, cuja aquisição frequentemente depende de financiamento para o consumidor.

Fatores internos e a transformação digital do varejo

Embora os aspectos macroeconômicos tenham um grande peso, as escolhas estratégicas internas das empresas também influenciam diretamente o desempenho no setor varejista. O especialista da FGV relembra que o segmento viveu uma grande revolução tecnológica nos últimos anos, marcada pela ascensão dos marketplaces, novas expectativas de entrega e mudanças significativas no perfil do consumidor, e a Casas Bahia não conseguiu reagir a tempo a essas transformações.

Apesar dos investimentos em digitalização pela companhia, a entrada de players asiáticos e a consolidação de marketplaces robustos como o Mercado Livre, além do Magazine Luiza, que conseguiu se adaptar bem à nova realidade, alteraram o cenário. Conforme Meirelles, isso fez com que a preferência dos consumidores por outros nomes se solidificasse na hora de comprar produtos.

Segundo a análise do pesquisador da FGV, a Casas Bahia poderia ter reconsiderado o número de suas lojas físicas há mais de dez anos, antecipando a necessidade de uma transformação digital. Embora a administração da empresa sempre tenha destacado o canal físico como essencial para o negócio, a crise atual levou ao fechamento de aproximadamente 300 unidades.

O impacto das plataformas de apostas no consumo

As plataformas de apostas online, conhecidas como “bets”, constituem outro elemento relevante, apontado por Meirelles e Souza. Elas se estabeleceram como uma opção legal para que os consumidores direcionassem sua renda, desviando uma parcela do dinheiro que antes seria utilizada em bens de consumo para as apostas digitais.

O professor da FIA conclui que os desafios do varejo vão além da taxa de juros elevada. Eles incluem também o aumento da inadimplência, o alto custo do crédito e a existência de novas alternativas, como as plataformas de apostas, que redirecionam o poder de compra da população. Para Souza Filho, reverter esse cenário demandará um longo período, sem considerar os impactos de possíveis conjunturas políticas.

Jeronimo Santos: Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing