Descoberta de molécula complexa com enxofre no espaço reforça pistas sobre a origem da vida

Espaço, estrelas

Espaço, estrelas - janush/shutterstock.com

Cientistas identificaram a maior molécula orgânica que contém enxofre já encontrada no espaço interestelar, um componente crucial para o desenvolvimento da vida. A pesquisa é vista como um “elo perdido” na compreensão da química cósmica fundamental para a existência de vida. O enxofre é o décimo elemento mais abundante no Universo e é vital na Terra, presente em aminoácidos, proteínas e enzimas.

Uma nova peça no quebra-cabeça da vida

A molécula recém-descoberta é composta por 13 átomos, sendo a maior do tipo já identificada no espaço interestelar. Ela é conhecida como 2,5-cicloexadieno-1-tiona e contém carbono e hidrogênio, adicionando-se a um catálogo com mais de 300 moléculas observadas até o momento fora da Terra. Mitsunori Araki, cientista do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre, na Alemanha, e principal autor do estudo, explicou que a presença de moléculas maiores é fundamental para preencher a lacuna entre a química espacial mais simples e os elementos complexos da vida encontrados em cometas e meteoritos. Anteriormente, a maior molécula contendo enxofre tinha apenas nove átomos, e a maioria possuía entre três e cinco.

Por que o enxofre é vital para a formação da vida

Apesar de sua abundância cósmica, o enxofre tem se mostrado raro em grandes moléculas no espaço, um mistério que intrigava os pesquisadores. Uma teoria anterior sugeria que o elemento poderia estar aprisionado em gelo cósmico, dificultando sua detecção. Araki pontuou que encontrar uma quantidade tão limitada dessas moléculas no espaço era estranho, pois elas deveriam existir em grande volume. A nova descoberta, portanto, oferece uma perspectiva importante ao indicar que outras moléculas complexas de enxofre podem estar presentes, mas ainda não foram identificadas.

O berçário estelar da Via Láctea

A molécula foi localizada na nuvem molecular G+0,693–0,027, a aproximadamente 27.000 anos-luz da Terra, nas proximidades do centro da nossa galáxia. Nuvens moleculares são ambientes gelados e densos de poeira e gás, ideais para a formação de moléculas e para o surgimento de novas estrelas. Valerio Lattanzi, coautor do estudo e também cientista do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre, frisou que essas nuvens dão origem a sistemas planetários, como o nosso Sistema Solar. Ele acrescentou que os elementos presentes nessas nuvens são transferidos para os planetas, contribuindo para a formação da vida.

A metodologia por trás da identificação inovadora

Os pesquisadores desenvolveram a molécula em laboratório ao aplicar uma descarga elétrica no tiofenol, uma substância com cheiro forte que também contém enxofre, carbono e hidrogênio. Em seguida, eles obtiveram uma “impressão digital de rádio” precisa da molécula. Essa impressão foi então comparada com os dados coletados pelos radiotelescópios IRAM-30m e Yebes, na Espanha, durante observações da nuvem G+0,693–0,027. Lattanzi destacou que observações anteriores já indicavam a abundância de moléculas de enxofre na nuvem, o que a tornou um alvo de pesquisa interessante.

Cientistas reavaliam potencial de vida além da Terra

A descoberta tem implicações significativas para a astrobiologia, conforme especialistas externos ao estudo. Veja os principais pontos:

  • Conexão com meteoritos: Kate Freeman, professora de Geociências da Universidade Estadual da Pensilvânia, classificou o estudo como uma “emocionante história de detetive”. Ela afirmou que meteoritos contêm compostos de enxofre grandes e complexos, que provavelmente chegaram à Terra, auxiliando no desenvolvimento da química da vida. Agora, há uma forte possibilidade de que alguns desses compostos tenham origem fora do sistema solar.
  • Vida disseminada: Sara Russell, professora de ciências planetárias no Museu de História Natural de Londres, disse que a presença de moléculas orgânicas complexas no centro da Via Láctea sugere que materiais biologicamente importantes podem estar espalhados por todo o espaço. Ela observou que processos semelhantes podem ocorrer em outros lugares, tornando a existência de vida em outros planetas mais provável.
  • Resistência das moléculas: Ryan Fortenberry, professor associado de química da Universidade do Mississippi, expressou entusiasmo pela descoberta. Ele explicou que o enxofre possui uma química única, permitindo que as moléculas façam mais do que apenas oxigênio, nitrogênio e carbono. Fortenberry afirmou que as moléculas são mais resistentes do que se imaginava, e os telescópios revelaram uma química espacial muito mais rica, levando à convicção de que aminoácidos serão encontrados fora do sistema solar.
Janderson Luiz: Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol