Na terça-feira, 3 de setembro de 2026, o ator Angel Ferreira, antes conhecido como Igor Angelkorte, reflete sobre a jornada de sua vida e carreira, marcadas pela busca por autenticidade e autoconhecimento. Em meio ao sucesso de seu monólogo “Sidarta”, em cartaz em São Paulo com ingressos esgotados e temporada prorrogada, Ferreira compartilha detalhes sobre a decisão de morar em um ônibus na Chapada dos Veadeiros, sua mudança de nome e o impacto de ser constantemente associado ao seu relacionamento passado com a atriz Camila Pitanga.
O espetáculo ‘Sidarta’ e a jornada do autoconhecimento
O monólogo “Sidarta”, criado por Angel Ferreira a partir do livro de Hermann Hesse, tornou-se um fenômeno de público. O ator, de 38 anos, conta que a peça tem sido um refúgio para as pessoas, oferecendo uma mensagem de introspecção e reconexão com a natureza em um mundo cada vez mais acelerado. O protagonista da obra deixa a casa dos pais para buscar a si mesmo, percebendo que a verdadeira sabedoria vem da vivência, e não apenas de conselhos ou mestres.
Angel Ferreira ressalta que o sucesso da montagem reflete a necessidade das pessoas de olharem para dentro. Segundo ele, as estratégias de divulgação mudaram muito e a inclusão das redes sociais foi crucial, mas o boca a boca e a temática profunda da peça foram determinantes. Para levar a complexa história do livro ao palco, o ator optou por um processo criativo diferenciado, contando a narrativa de memória, como quem viveu a experiência.
A escolha por uma vida longe da agitação e na Chapada dos Veadeiros
Após anos de reconhecimento em novelas como “Babilônia” (2015) e “O Outro Lado do Paraíso” (2017-2018), Angel Ferreira optou por uma fase de afastamento da televisão. Ele afirma que a fama é um desafio para o qual ninguém prepara os artistas, especialmente os mais jovens, que muitas vezes têm sua existência atrelada ao trabalho. O ator se viu cansado da dinâmica invasiva do reconhecimento público e desejou o anonimato novamente.
Em busca de se reencontrar, Ferreira aproximou-se da natureza e estabeleceu residência em um ônibus transformado em casa na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Ele esclarece que, ao contrário de algumas especulações, vive com conforto, contando com placa solar para energia e um biodigestor ligado a uma fossa de bananeira para saneamento. Esse estilo de vida é um ato político e uma afirmação de sua arte. Na Chapada, ele também cuida da Casa Candeia de Cultura, onde oferece aulas de teatro e recebe espetáculos, contribuindo para a comunidade local.
Mudança de nome: Angel Ferreira e a reinvenção da identidade
Em 2024, Igor Angelkorte passou a se apresentar como Angel Ferreira. O ator explica que a decisão foi um “ritual” para firmar seus valores e a fase atual de sua vida, não tendo relação com identificação não-binária. Ele observa que, no passado, muitos artistas adotavam nomes artísticos como uma forma de separar a persona profissional do eu físico, uma prática que sua geração, com raras exceções, acabou perdendo.
Ferreira vê a mudança como uma necessidade de se expressar de outra maneira, de recordar que é possível “morrer e renascer em vida”. Embora ainda use o nome Igor para documentos e contratos, o nome Angel representa sua identidade atual e a transformação pela qual passou.
Desconforto com o rótulo de ‘ex-namorado’ de Camila Pitanga
Um dos aspectos que constantemente voltam à tona na vida de Angel Ferreira é o rótulo de “ex-namorado de Camila Pitanga”. Apesar de se orgulhar da amizade e da admiração por Camila, ele expressa um certo desconforto com a persistência dessa referência, especialmente porque o relacionamento terminou há quase dez anos.
Ele reconhece a necessidade do jornalismo em situar o leitor, mas se frustra quando a informação se torna um clickbait. Ferreira enfatiza que, embora mantenha carinho e amizade com Camila e seu atual companheiro, Patrick Pessoa, há uma necessidade de seguir em frente e de ser reconhecido por sua própria trajetória.
Preparação física e a nudez como expressão no palco
A peça “Sidarta” exige uma intensa preparação física de Angel Ferreira, que descreve o monólogo como “um grande bailado”. Próximo dos 40 anos, o ator compreende a importância da responsabilidade e do cuidado com o corpo. Ele mantém uma rotina diária de alongamento, meditação e aquecimento para conseguir executar as posições da peça sem se machucar.
A nudez em cena é um elemento presente no espetáculo e, para Angel, é um aspecto natural e tranquilo. Ele a vê como um símbolo de desapego do que representa a vida anterior do personagem. Citando Zé Celso, o ator afirma que “a nudez no teatro é uma desintoxicação cultural”, que lembra que somos todos “bichos, todos gente e que todo mundo tem um corpo”, mas que “não somos esse corpo”.
Felicidade além da fama: reflexões sobre dinheiro e propósito
Angel Ferreira se identifica com a premissa de que o dinheiro não é o que traz a verdadeira felicidade. Ele cita uma frase de Jim Carrey que expressa o desejo de que todos um dia fossem ricos e famosos para descobrir que isso não garante um estado de fruição na vida. Para o ator, embora o conforto e o básico social sejam importantes, a verdadeira questão é estar em paz consigo mesmo.
Ele destaca a importância de silenciar, de se conhecer e de olhar para dentro. Após um período de afastamento da fama, Ferreira percebeu que a arte é um sacerdócio e que o trabalho envolve servir, aceitando as abordagens que podem surgir a qualquer momento. No entanto, ele almeja retomar sua carreira artística, seja no teatro, na televisão ou no cinema, em um “outro grau”, com mais humildade e a compreensão de que seu trabalho é maior do que ele mesmo.
- A possibilidade de se relacionar com o breu (escuridão total) da noite, algo raro nas cidades.
- A chance de escutar os sons da mata e dos animais, o que auxilia na regulação do corpo.
- A integração com a comunidade local e o desenvolvimento de projetos culturais.
- A contribuição para a cultura por meio da Casa Candeia de Cultura.
