Estudo detecta vírus antigo da varíola em livros medievais

Pergaminho

Pergaminho - gustiawan sing/ Shutterstock.com

Pesquisadores identificaram fragmentos genéticos do vírus da varíola ovina preservados nas páginas de couro de livros medievais durante uma investigação publicada no periódico científico Science Advances. O estudo analisou documentos históricos e reconstruiu 21 genomas completos do agente infeccioso a partir do material biológico presente nos pergaminhos fabricados com peles de animais.

O microrganismo atingia rebanhos europeus.

A análise técnica revelou que a linhagem viral acompanhou criações agrícolas durante séculos e ampliou a linha temporal da enfermidade. Os cientistas recuaram a trajetória biológica dessa ameaça para 3.700 anos atrás, período anterior aos primeiros registros escritos sobre a patologia. Os dados confirmam a presença contínua do vírus entre comunidades pastoris do continente.

O material examinado pertence a coleções britânicas renomadas como os Evangelhos de York e o Corpus Glossary. O couro processado reteve o DNA original dos animais abatidos e conservou as partículas virais que circulavam nos rebanhos no momento do abate.

Documentos históricos serviram de base para a extração do vírus

O processo de fabricação dos pergaminhos utilizava pele de carneiro limpa e esticada para receber os textos religiosos e acadêmicos da Idade Média. Essa técnica artesanal secava os tecidos sem cozimento prévio, o que garantiu a fixação das moléculas celulares nas folhas dos volumes encadernados. A equipe recolheu pequenas raspagens superficiais dos livros sem danificar a integridade das encadernações raras mantidas em arquivos protegidos.

O método preservou o código genético.

Os testes laboratoriais mapearam sequências de nucleotídeos em diferentes seções dos manuscritos e isolaram os 21 genomas do vírus da varíola ovina com alta precisão técnica. A leitura comparativa com amostras contemporâneas demonstrou como o genoma acumulou mutações estruturais ao longo dos séculos de transmissão ativa entre rebanhos produtores de carne e lã.

Obras analisadas guardam registros biológicos raros

  • Os Evangelhos de York reúnem textos sagrados escritos sobre folhas de pele animal que abrigavam linhagens antigas do patógeno.
  • O Corpus Glossary serviu como dicionário de termos latinos e preservou frações genômicas virais em suas margens encadernadas.
  • Outros documentos ingleses completaram a base amostral que totalizou 21 genomas sequenciados integralmente pelo grupo de pesquisadores.

Os pergaminhos funcionam como depósitos de informação biológica que ultrapassam o conteúdo textual redigido pelos monges copistas. As amostras analisadas no projeto vieram exclusivamente de arquivos históricos mantidos em território inglês sob condições controladas de temperatura e umidade relativa do ar. Os cientistas processaram as raspagens em salas limpas dedicadas a materiais antigos para impedir contaminações externas durante o procedimento de extração molecular.

A varíola ovina causava mortalidade severa entre rebanhos nas propriedades rurais da época medieval. Quando uma ovelha infectada era sacrificada para virar suporte de escrita, o vírus entrava na estrutura do livro sem que os escribas soubessem da contaminação.

Perigo de contaminação atual é descartado pela pesquisa

O material não transmite doenças.

A equipe científica informou na Science Advances que os restos virais encontrados nas folhas medievais consistem em fragmentos degradados de material genético, incapazes de iniciar replicação celular. O processo de dessecação prolongada, a passagem dos séculos e o desgaste natural dos manuscritos inviabilizaram qualquer atividade biológica infecciosa nas páginas encadernadas.

Os pesquisadores confirmaram que o manuseio direto desses manuscritos históricos em bibliotecas ou arquivos não gera nenhum perigo de contaminação para profissionais e visitantes, visto que as partículas virais sofreram degradação química completa ao longo dos séculos e perderam a capacidade biológica de provocar infecções em humanos ou em rebanhos atuais. O patógeno perdeu a viabilidade patogênica devido à quebra espontânea das pontes moleculares que sustentam as estruturas ativas de transmissão. Não existem partículas ativas dentro dos volumes analisados. O trabalho acadêmico focou apenas na reconstrução filogenética e descartou qualquer chance de reativação do agente.

Reconstrução amplia linha do tempo do patógeno

Os 21 genomas recuperados permitiram calcular a taxa evolutiva do vírus da varíola ovina e determinar sua raiz temporal ancestral. Os modelos computacionais indicam que o agente infeccioso já infectava animais domésticos há 3.700 anos, durante a Idade do Bronze europeia.

A descoberta reescreve a cronologia.

As informações obtidas a partir dos Evangelhos de York e do Corpus Glossary fornecem um panorama sobre a velocidade de transformação dos poxvírus em animais de corte. Os cientistas observaram que certas variantes antigas continham genes específicos que sumiram das linhagens modernas do microrganismo. Essa perda genética ilustra a adaptação contínua do invasor diante da imunidade desenvolvida pelos animais ao longo de sucessivas gerações de pastoreio.

O rastreamento genético em peças antigas abre uma frente de apuração para doenças infecciosas sem exigir novas escavações em sítios arqueológicos. O registro contido no couro documenta a circulação de agentes patogênicos que a literatura medieval não descreveu.

A análise química dos resíduos identificou traços de cálcio utilizados no processo medieval de curtimento das peles animais.