Pesquisadores das universidades de Sydney e de Queensland, na Austrália, constataram que pessoas dedicadas ao cuidado informal de parentes com doenças crônicas costumam negligenciar a própria saúde mental e enfrentam dificuldades para buscar atendimento psicológico. O levantamento, que analisou a produção científica acumulada entre 2005 e 2025, foi publicado na revista científica Psychology & Health em 16 de setembro de 2026.
A investigação reuniu dados de 29 estudos com um contingente de 81.167 cuidadores informais distribuídos por Austrália, Reino Unido, outros países da Europa, Estados Unidos e Canadá. O perfil predominante identificado na análise é de mulheres que prestam assistência aos maridos ou parceiros diagnosticados com câncer, cardiopatias, doença de Parkinson ou sequelas causadas por acidente vascular cerebral.
Os dados revelaram uma contradição frequente na rotina dessas famílias: os cuidadores responsáveis pelos pacientes em condições clínicas mais graves são justamente os que menos procuram ou conseguem acessar suporte emocional. Embora relatem necessidade de assistência para lidar com sentimentos de culpa, luto antecipatório e incertezas sobre o quadro de saúde do familiar, poucos chegam a ingressar em terapias ou grupos de apoio psicológico.
Sobrecarga impede procura por ajuda profissional
A adesão a tratamentos ou a intenção declarada de procurar ajuda mostrou-se superior apenas entre os cuidadores mais jovens, do sexo feminino, com diploma de ensino superior ou nas situações em que médicos e equipes hospitalares ofereceram o serviço de maneira ativa durante as consultas de rotina do paciente atendido.
“Os cuidadores têm uma tendência de colocar as necessidades da pessoa de quem cuidam antes das suas próprias”, afirmou a pesquisadora assistente Hannah Isaac, autora principal do trabalho e doutoranda do Grupo de Pesquisa Cooperativa em Psico-Oncologia da Universidade de Sydney, em declaração traduzida do inglês.
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Entre os principais entraves práticos relatados pelos voluntários dos estudos examinados estão limitações financeiras e a absoluta falta de tempo para comparecer a consultas individuais. Muitos não encontram outro adulto disponível para assumir a administração de remédios, a alimentação e a higiene do enfermo enquanto se ausentam para cuidar da própria saúde emocional.
Falta de identificação com o papel de cuidador
“Os sistemas de saúde dependem de que os cuidadores assumam uma carga incrível em casa, mas raramente oferecem apoio quando essa função de cuidar afeta negativamente o bem-estar deles”, declarou a professora sênior Rebekah Laidsaar-Powell, coautora da pesquisa e líder do grupo de interesse em cuidadores na Universidade de Sydney, também em traduzido do inglês.
Outro obstáculo documentado pelos pesquisadores reside na percepção equivocada que muitos parentes têm sobre a atividade que desempenham dentro de casa. Uma parcela expressiva dos responsáveis não se enxerga formalmente como cuidadora por presumir que essa função envolve exclusivamente a internação domiciliar contínua, durante 24 horas por dia, ignorando que o auxílio em transportes, rotinas médicas diárias, suporte emocional e gerenciamento financeiro já caracteriza uma sobrecarga típica da atividade.
Impacto no mercado de trabalho e na renda familiar
A dedicação integral à saúde de familiares também provoca reflexos no emprego e na renda dos lares. Um relatório divulgado pela organização Carers UK, elaborado a partir de sondagem com a consultoria Opinium e apresentado em 16 de setembro de 2026, apontou que 1,1 milhão de trabalhadores deixaram seus empregos no Reino Unido nos últimos dois anos para prestar assistência a parentes doentes, idosos ou com alguma deficiência física.
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O volume médio diário de desistências trabalhistas decorrentes da sobrecarga familiar chega a 1.500 postos de trabalho abandonados no território britânico, gerando prejuízos econômicos e desestabilização da seguridade pessoal dos trabalhadores envolvidos.
“Esses números representam pessoas reais que tiveram de tomar decisões difíceis sobre suas carreiras, sua segurança financeira e seus futuros devido às pressões para equilibrar trabalho e cuidado”, afirmou Emily Holzhausen, diretora de políticas e assuntos públicos da instituição Carers UK, em tradução livre do inglês.
Números do cuidado não remunerado no Reino Unido
- 1,1 milhão de pessoas abandonaram empregos formais nos últimos dois anos para cuidar de parentes dependentes.
- 3,33 milhões de cidadãos britânicos compõem o total histórico acumulado de desistências do mercado de trabalho por esse motivo.
- £ 37 bilhões por ano é o custo econômico total estimado decorrente da saída precoce desses profissionais da força produtiva.
- 20% dos empregados do país, o correspondente a 6,7 milhões de trabalhadores, conciliam a profissão com deveres de cuidador informal.
- 22% dos cuidadores em atividade laboral precisaram diminuir voluntariamente a jornada de trabalho.
- 34% dos profissionais que reduziram a carga semanal passaram a cumprir jornadas inferiores a oito horas de expediente.
Salto de 150% nas demissões em relação a 2019
O quadro atual britânico revela uma piora em comparação com os dados aferidos em 2019 pela organização Carers UK. Naquele ano, um levantamento similar constatou que quase 500 mil trabalhadores haviam abandonado o mercado de trabalho formal em um intervalo de dois anos, o que equivalia a um ritmo diário de cerca de 600 desistências profissionais.
A comparação entre os dois períodos mostra um crescimento de 150% no volume de profissionais que optaram por deixar o emprego remunerado para exercer funções de assistência em ambiente doméstico. O estudo das universidades australianas aponta que os serviços públicos de saúde precisam reestruturar suas abordagens para identificar precocemente os sinais de esgotamento e integrar os responsáveis familiares no plano regular de atendimento clínico.
