Ciência

Expedição The Gap inicia exploração no fundo do Atlântico

Fantástico entra no navio que vai acessar região remota do mar profundo do Atlântico Sul - Reprodução/TV Globo
Fantástico entra no navio que vai acessar região remota do mar profundo do Atlântico Sul - Reprodução/TV Globo

Pesquisadores a bordo do navio oceanográfico R/V Falkor (too) iniciaram nesta sexta-feira (25) as primeiras operações de mergulho profundo na Zona de Fratura Romanche, fenda submarina localizada no Oceano Atlântico Equatorial entre o litoral nordeste do Brasil e a costa ocidental da África. A missão científica The Gap utiliza o robô submarino operado remotamente ROV SuBastian para descer até 4,5 mil metros de profundidade em busca de espécies marinhas e formações geológicas desconhecidas pela ciência.

O trabalho de campo é coordenado pelo cientista-chefe brasileiro José Angel Alvarez Perez, professor da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), ao lado da professora Kerry Howell, do Laboratório Marinho de Plymouth, no Reino Unido. Segundo Perez, o SuBastian é um equipamento de alta performance projetado para minimizar o impacto ambiental, capaz de registrar imagens em alta definição e coletar amostras físicas da fauna, sedimentos e rochas que serão disponibilizadas de forma gratuita para toda a comunidade científica internacional.

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Tecnologia avançada para enfrentar a escuridão do mar profundo

O robô submarino SuBastian realiza incursões com duração de até 16 horas contínuas por dia de trabalho, controladas a partir de uma sala de comando instalada na embarcação pelo piloto brasileiro Leonardo e pela equipe técnica do Schmidt Ocean Institute. Equipado com braços articulados, recipientes para armazenamento hermético e câmeras de alta resolução, o veículo operado remotamente coleta amostras biológicas e geológicas sem perturbar o leito marinho, onde a ausência total de luz solar impõe condições extremas de pressão e temperatura.

A investigação tem como meta preencher lacunas sobre ecossistemas abissais, uma vez que apenas cerca de um quarto do fundo dos oceanos de todo o planeta foi mapeado diretamente até o momento. Nas profundezas da Zona de Fratura Romanche, que se estende por aproximadamente 1 mil quilômetros ao longo da Dorsal Mesoatlântica, os biólogos esperam registrar animais adaptados à escuridão por meio da bioluminescência, processo químico que permite a produção de luz própria para atrair presas, afastar predadores e estabelecer comunicação com outros indivíduos da mesma espécie.

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A equipe técnica também pretende localizar e catalogar fontes hidrotermais, aberturas na crosta oceânica por onde fluidos aquecidos pelo magma terrestre são expelidos na água fria. Esses pontos sustentam comunidades biológicas que prescindem da fotossíntese, formadas por colônias de bactérias quimiossintetizantes que utilizam compostos de enxofre e minerais dissolvidos como matriz primária de energia para sustentar vermes tubulares, crustáceos e peixes adaptados a esse microambiente.

Origem geológica e objetivos científicos da missão internacional

A Zona de Fratura Romanche começou a se estruturar no processo geológico de separação continental entre a América do Sul e a África, ocorrido há dezenas de milhões de anos. A região divide bacias oceânicas profundas e atua como uma barreira ou corredor hidrodinâmico entre o Atlântico Norte e o Atlântico Sul, influenciando o transporte de massas de água antárticas geladas e ricas em nutrientes em direção às zonas equatoriais.

Além do coordenador José Angel Alvarez Perez, a delegação brasileira conta com a oceanógrafa Flávia Masumoto e o pesquisador de doutorado Lucas Gavazzoni, ambos vinculados à Univali. A expedição integra o Programa de Mar Profundo do Instituto Nacional de Pesquisa Oceânica (INPO) e foi selecionada por edital internacional promovido pelo Schmidt Ocean Institute, fundação oceanográfica proprietária do navio e de todo o aparato de suporte de alta tecnologia empregado na travessia.

Perez afirmou que o foco primordial do estudo é correlacionar a dinâmica das correntes oceânicas e a morfologia das elevações com a distribuição da vida marinha. Os cientistas buscam avaliar como a ressurgência de nutrientes nas camadas superiores do oceano sustenta as comunidades bentônicas que vivem milhares de metros abaixo, fornecendo dados essenciais para medir a vulnerabilidade desses ecossistemas diante da poluição marinha, das mudanças climáticas e do impacto da atividade pesqueira industrial de arrasto.

Cronograma e etapas da travessia pelo oceano Atlântico

  • 20 de setembro de 2026 — Partida do navio de pesquisas R/V Falkor (too) do porto de Fortaleza rumo ao Atlântico equatorial.
  • 25 de setembro de 2026 — Posicionamento da embarcação sobre a Zona de Fratura Romanche e início dos mergulhos do robô SuBastian.
  • 29 de outubro de 2026 — Previsão de chegada da comitiva de 25 cientistas ao porto de Tema, no litoral de Gana, para o encerramento da jornada de 42 dias.

Acesso público aos mergulhos e dados em aberto

Todas as operações de descida do robô submarino ao fundo da fenda marinha contam com transmissão ao vivo pela internet por meio dos canais do Schmidt Ocean Institute. As imagens contam com narração em português e em inglês feita pelos pesquisadores em tempo real, permitindo que estudantes e especialistas de qualquer localidade acompanhem a descoberta dos organismos do fundo do mar e enviem dúvidas para a equipe a bordo.

A instituição científica e as universidades parceiras ainda mantêm pendente a confirmação do porto definitivo para o desembarque em Gana, com comunicados preliminares divididos entre as cidades de Takoradi e Tema, assim como a data exata de atracação entre 26 e 29 de outubro de 2026. Todos os relatórios batimétricos, espécimes catalogados e gravações em vídeo capturados durante a missão serão transferidos para repositórios de acesso aberto para subsidiar pesquisas futuras sobre a conservação do mar profundo.

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