O Ministério de Minas e Energia oficializou o plano de ensaios técnicos para avaliar a viabilidade da gasolina E35 na frota nacional de veículos, em Brasília. A medida busca verificar o comportamento de motores e peças com a mistura de 35% de etanol anidro ao combustível fóssil, com cronograma de pesquisas previsto para se estender até 31 de dezembro de 2027.
A iniciativa do governo federal afeta a dinâmica de compra de veículos usados e seminovos projetados para queimar exclusivamente gasolina, segmento que tende a registrar perda de valor de revenda diante do receio com custos de oficina. Modelos antigos e importados não flexíveis apresentam menor tolerância química e mecânica ao aumento sucessivo do teor alcoólico no combustível comercializado nos postos do país.
Riscos mecânicos para motores projetados apenas para gasolina
Automóveis antigos ou modelos que rodam unicamente com gasolina possuem características estruturais incapazes de se adaptar a taxas elevadas de biocombustível. Os sistemas de injeção mais antigos e os carburadores sofrem com o poder corrosivo do álcool anidro, acelerando o ressecamento de tubulações, retentores e vedações de borracha, além de provocar ferrugem no tanque de combustível metálico e entupimento de bicos injetores. Sem ajuste eletrônico automático, o motor perde eficiência termodinâmica e exige trocas de componentes mecânicos antes do prazo regular estipulado pelas montadoras.
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O técnico e professor de mecânica automotiva Tenório Júnior explicou as limitações dos propulsores desenvolvidos no padrão convencional: “Quanto mais etanol for adicionado à gasolina, maior a dificuldade de queima ideal do combustível, porque a compressão do motor não é o bastante para o melhor aproveitamento do combustível e a temperatura de trabalho dos carros a gasolina, são inferiores aos carros flex ou a álcool”.
Segundo o especialista, a consequência direta do descompasso termodinâmico atinge a condução rotineira do veículo. “Isso gera falhas, perda de potência e dificuldade nas partidas a frio”, declarou Tenório Júnior.
Diferenças de impacto entre modelos flex e monocombustível
Enquanto os motores monocombustível sofrem degradação física nos componentes em contato com o fluido, os automóveis com tecnologia bicombustível contam com parâmetros eletrônicos de correção. As centrais de injeção dos modelos flex alteram automaticamente o ponto de ignição e o débito de combustível conforme identificam a densidade da mistura na câmara.
Nos carros flex, o impacto não gera avarias estruturais nos componentes, mas atinge a economia de combustível. A presença de 35% de etanol anidro reduz a densidade energética do litro abastecido, o que resulta em perda de autonomia e maior consumo na comparação com combustíveis com menor proporção de aditivo renovável.
Patamares de mistura previstos e em vigor no mercado brasileiro
- Gasolina comum atual: 32% de etanol anidro (E32), índice implementado temporariamente pelo Conselho Nacional de Política Energética por 180 dias;
- Gasolina premium: 25% de teor de etanol anidro preservado na formulação nos postos;
- Mistura E35 em teste: 35% de etanol, teto máximo permitido pela legislação para a frota nacional;
- Margem legal autorizada: intervalo entre 22% e 35% de mistura fixado pela Lei do Combustível do Futuro;
- Prazo das análises técnicas: vigência das pesquisas laboratoriais e de campo até 31 de dezembro de 2027.
Histórico da legislação e escalada do teor de álcool no combustível
A Lei nº 14.993/2024, denominada Lei do Combustível do Futuro, determinou que qualquer elevação na proporção de etanol anidro acima de 27% deve passar por comprovação prévia de viabilidade técnica. A gasolina vendida no país começou a operar como E30 em agosto de 2025 e subiu para E32 no sábado, 1 de agosto de 2026. O Ministério Público Federal chegou a contestar a mistura E32 perante o Poder Judiciário sob a alegação de falta de testes em motores convencionais a gasolina, mas a Justiça julgou a ação improcedente.
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Prazos de ensaios e indefinições regulatórias
A portaria com as diretrizes e o plano de ensaios da mistura E35, formalizada pelo Ministério de Minas e Energia no Diário Oficial da União na sexta-feira (18), marca o início das apurações científicas no âmbito da Rede de Pesquisa Combustível do Futuro. Nenhum veículo precisa rodar com a proporção de 35% de imediato, já que o produto ainda passa por etapas laboratoriais.
Não está confirmado se o Conselho Nacional de Política Energética autorizará a comercialização definitiva da gasolina E35 ao final dos estudos, nem se haverá prorrogação do cronograma de testes além de 2027.
