Guerra na SAF do Vasco: BAP, Leila, Pedrinho e Textor trocam farpas por venda milionária

Pedrinho, do Vasco — Dikran Sahagian/VascoPedrinho, do Vasco — Dikran Sahagian/Vasco

Pedrinho, do Vasco — Dikran Sahagian/Vasco

A alienação judicial de 90% das ações da SAF do Vasco da Gama alcançou etapa decisiva nesta sexta-feira (25) com a abertura de envelopes na 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro. A audiência fechada reuniu a proposta da Almirante Participações e Empreendimentos S.A., empresa liderada pelo empresário Marcos Faria Lamacchia, que figurou como proponente de referência no processo. A operação estruturada no âmbito da recuperação judicial vascaína prevê um pacote que alcança até R$ 3 bilhões, considerando passivos assumidos, garantias e investimentos esportivos.

O avanço das tratativas deflagrou uma sequência de atritos públicos entre presidentes de clubes do futebol brasileiro nos últimos meses de 2026. A principal controvérsia envolve o parentesco de Marcos Lamacchia, filho do empresário José Roberto Lamacchia, fundador da Crefisa e marido da presidente da Sociedade Esportiva Palmeiras, Leila Pereira. O mandatário do Clube de Regatas do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, conhecido como Bap, manifestou oposição aberta ao modelo de transferência societária e prometeu medidas judiciais caso a transação seja homologada.

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Contestações regulatórias e ameaça de processo

Em declarações concedidas ao longo do ano, Luiz Eduardo Baptista sustentou que a relação familiar configura multipropriedade velada e viola normas disciplinares da Fifa e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Em entrevista ao jornalista Venê Casagrande, realizada em 9 de julho de 2026, o presidente flamenguista detalhou sua interpretação jurídica a respeito do vínculo societário.

“Isso é ilegal pela Fifa e pelo código brasileiro. ‘Ah, mas eu sou madrasta dele’. Mas está claro no código da Fifa e da CBF: não pode. Qual é a parte do ‘não’ que eles não entenderam? As pessoas dizem que eu sou contra o Vasco. Aliás, eu sou filho de vascaíno, meu pai é vascaíno, eu não tenho nada contra o Vasco. Não é o Bap que é contra isso, é a lei”, afirmou Luiz Eduardo Baptista.

A postura do dirigente flamenguista provocou reação de Leila Pereira, que negou qualquer envolvimento institucional ou pessoal nas negociações conduzidas pelo enteado. Em 14 de junho de 2026, após declarações de Bap em um programa de transmissão na internet, a presidente palmeirense advertiu que processaria o mandatário rival na Justiça caso novas acusações de infração fossem direcionadas a ela. A diretoria vascaína também reiterou que a dirigente não integra o plano de aquisição.

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Empréstimo da Crefisa e troca de declarações

Os questionamentos de Bap alcançaram ainda um empréstimo de R$ 80 milhões tomado pelo Vasco junto à Crefisa no final de 2025. O presidente do Flamengo apontou suposto conflito de interesses na operação financeira, associando a divulgação da operação a uma derrota vascaína por 3 a 0 diante da equipe paulista. Em resposta, o presidente do Club de Regatas Vasco da Gama, Pedrinho, concedeu entrevista na sede da CBF em 6 de abril de 2026 e repudiou as ilações levantadas pelo rival.

“Quando eu pego um empréstimo com a Crefisa, e o empréstimo é feito porque o CDI era mais baixo e eu pago menos, a preocupação dele não era o empréstimo, mas sim, de uma forma indireta, ele insinuou que eu pego o empréstimo no dia que eu perco de 3 a 0 para o Palmeiras”, declarou Pedrinho, que acusou o dirigente de ofender a idoneidade da comissão técnica e do elenco cruz-maltino.

Na mesma ocasião, Pedrinho rebateu comentários de John Textor, proprietário e acionista controlador da SAF do Botafogo. Em março de 2026, ao explicar movimentações de fluxo de caixa em sua própria agremiação, Textor havia declarado que sua gestão não quebrava acordos e comparou o cenário botafoguense às dificuldades financeiras do Vasco. Pedrinho classificou as menções de Textor como bravatas desrespeitosas em relação à história do clube de São Januário.

Valores da transação e apuração de órgãos de regulação

O desenho econômico submetido à Justiça fluminense detalha a divisão dos recursos propostos para reorganizar o futebol vascaíno após a retomada do controle que pertencia à antiga compradora 777 Partners:

  • R$ 500 milhões em aporte obrigatório e exclusivo direcionado ao departamento de futebol profissional, parcelado em cinco repasses anuais de R$ 100 milhões;
  • R$ 150 milhões de linha de crédito emergencial na modalidade DIP colocada à disposição da gestão esportiva pelo grupo de Marcos Lamacchia;
  • R$ 3 bilhões calculados como estimativa global da operação, englobando investimentos desportivos, cumprimento das obrigações do plano de recuperação judicial e garantias contratuais.

Paralelamente aos trâmites da 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf) abriu procedimento formal para analisar a venda societária e verificar possíveis incompatibilidades ligadas ao controle de entidades esportivas no país.