O cometa interestelar 3I/ATLAS atingiu a marca de 1,77 bilhão de quilômetros de afastamento da Terra enquanto se desloca a 209 mil km/h rumo ao espaço profundo. Medições astronômicas recentes confirmaram que o corpo celeste se formou sob frio extremo de -240 °C nas extremidades de uma estrela com baixa quantidade de elementos metálicos.
A trajetória hiperbólica do objeto confirma que ele não possui ligação gravitacional com o Sol e deixará em definitivo as fronteiras do Sistema Solar. Pesquisadores da Northumbria University detalharam a composição da cauda gasosa do visitante após observações realizadas com instrumentos ópticos de alta sensibilidade instalados nas Ilhas Canárias, na Espanha.
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Espectrógrafo WEAVE detecta cinco tipos de íons no 3I/ATLAS
Pesquisadores liderados pela Northumbria University utilizaram o espectrógrafo WEAVE, acoplado ao Telescópio William Herschel no Observatório de Roque de los Muchachos, em La Palma, para escanear a estrutura gasosa do cometa. O equipamento realizou um registro inédito para corpos de fora do Sistema Solar ao identificar cinco espécies iônicas de forma simultânea na cauda de plasma: nitrogênio molecular, monóxido de carbono, dióxido de carbono, água e íons metilidino.
A presença expressiva de nitrogênio molecular em relação aos níveis de monóxido de carbono permitiu calcular que o cometa se condensou sob temperaturas inferiores a 30 Kelvin, patamar correspondente a 240 graus Celsius negativos. Esse nível térmico demonstra que a matéria-prima do bloco sólido se agrupou a distâncias muito longas da radiação direta de sua estrela originária.
“Esse objeto nos dá uma chance rara de estudar material que se formou em um local completamente diferente do nosso Sistema Solar. Descobrir que ele é tão rico em nitrogênio nos diz que ele provavelmente se formou em condições extremamente frias, longe de sua estrela de origem”, declarou Léa Ferellec, pesquisadora da Escola de Engenharia, Física e Matemática da Northumbria University e líder da análise técnica, em tradução livre.
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Muito Grande Telescópio e a estrela de origem com baixa metalicidade
Análises complementares conduzidas com o Muito Grande Telescópio, conhecido pela sigla em inglês VLT, mantido pelo Observatório Europeu do Sul, concentraram-se na assinatura isotópica da água transportada pelo viajante. A equipe chefiada pela astrônoma Cyrielle Opitom, da Universidade de Edimburgo, identificou proporções atípicas entre deutério e prótio, variantes do elemento hidrogênio que reforçam a tese de formação em ambiente gelado.
O estudo examinou os índices entre carbono-12 e carbono-13 no material volatilizado do cometa interestelar. A taxa detectada pelos aparelhos corresponde à assinatura esperada para sistemas planetários organizados em torno de estrelas de baixa metalicidade, nas quais a presença de elementos mais densos que o hidrogênio e o hélio atinge aproximadamente metade do índice verificado no Sol, levantando a probabilidade de que a estrela geradora seja mais antiga que o centro do nosso sistema.
“Cada um desses objetos que estudamos nos ajuda a entender um pouco mais sobre como os planetas se formam ao redor de outras estrelas”, afirmou Léa Ferellec, em tradução livre, sobre o papel das amostras químicas interestelares na astronomia moderna.
Dimensões do núcleo sólido do 3I/ATLAS e monitoramento espacial
Estimativas calculadas com base em imagens obtidas pelo Telescópio Espacial Hubble indicam que o núcleo sólido do 3I/ATLAS
possui diâmetro compreendido entre 320 metros e 5,6 quilômetros. A dimensão precisa segue dentro dessa faixa devido ao espalhamento contínuo de poeira e gelo aquecido, processo que forma uma nuvem espessa ao redor do corpo sólido e dificulta a delimitação visual direta de sua superfície rochosa.O acompanhamento da trajetória mobilizou observatórios espaciais como o James Webb e sondas interplanetárias em trânsito. A lista de equipamentos dedicados a medir os gases e a órbita incluiu as missões Juice, a caminho de Júpiter, a sonda Mars Express, o satélite ExoMars Trace Gas Orbiter e os veículos robóticos em operação na superfície do planeta Marte, que registraram a aproximação angular do corpo celeste em relação à órbita marciana.
O 3I/ATLAS ocupa o terceiro posto na lista histórica de corpos interestelares confirmados pela astronomia mundial ao atravessar as vizinhanças do Sol. O primeiro registro ocorreu em 2017 com a passagem do objeto 1I/’Oumuamua, seguido pela identificação do cometa 2I/Borisov no segundo semestre de 2019.
Marcos da passagem do cometa 3I/ATLAS pelo Sistema Solar
- 1 de julho de 2025 — O objeto é detectado no Chile pelo telescópio da rede ATLAS em Río Hurtado e comunicado formalmente ao Minor Planet Center da União Astronômica Internacional.
- 29 de outubro de 2025 — O cometa alcança o periélio às 11h45 no Tempo Universal, atingindo seu ponto de máxima aproximação com o Sol a 1,4 unidade astronômica de distância.
- 6 de julho de 2026 — A revista Nature Astronomy e o Observatório Europeu do Sul divulgam estudos sobre a baixa metalicidade estelar e a idade potencialmente pré-solar do corpo celeste.
- 8 de setembro de 2026 — A Real Sociedade Astronômica publica na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society o artigo sobre os cinco íons captados pelo telescópio William Herschel.
- 24 de setembro de 2026 — Pesquisadores apresentam o balanço das medições no momento em que o cometa atinge 1,77 bilhão de quilômetros de afastamento da Terra.
Limitações técnicas e a busca pela estrela desconhecida
Apesar do detalhamento obtido sobre as condições térmicas e químicas do berço cósmico do 3I/ATLAS, os dados astronômicos acumulados ainda não permitiram localizar a estrela original da qual o cometa foi ejetado. A identidade do sistema natal e suas coordenadas precisas na Via Láctea permanecem desconhecidas entre as equipes científicas internacionais.
O registro visual e espectroscópico do objeto tende a se tornar cada vez mais escasso a partir das próximas semanas. Com o distanciamento contínuo a 209 mil km/h em direção à borda exterior do Sistema Solar, o brilho aparente do corpo cai de forma gradual, o que limita novas leituras detalhadas pelos principais telescópios ópticos do planeta.
