Artesão reaproveita árvores danificadas por ursos na confecção de pranchas e móveis

Takuya Tsutsumi transforma árvores danificadas por ursos - Reprodução/InstagramTakuya Tsutsumi transforma árvores danificadas por ursos - Reprodução/Instagram

Takuya Tsutsumi transforma árvores danificadas por ursos - Reprodução/Instagram

O artesão japonês Takuya Tsutsumi reaproveita árvores danificadas por ursos em Keihoku, ao norte de Kyoto, para fabricar pranchas de surfe, skates e peças de mobiliário com a tradicional laca urushi. A iniciativa foi detalhada no domingo (27), apresentando uma destinação funcional para toras que costumam ser descartadas pela indústria florestal local.

Em vez de encaminhar a madeira deformada para queima ou trituradores de biomassa, a manufatura preserva os relevos deixados pelas garras dos animais silvestres. “O urushi transforma as ‘imperfeições’ da madeira danificada pelo processo kumahagi em algo belo e valioso. Em vez de esconder a superfície irregular ou os veios distorcidos, a aplicação de camadas de urushi realça essas características únicas”, afirmou Tsutsumi.

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Bears Wood Project e dados da iniciativa em Kyoto

  • Início do projeto: 1 de fevereiro de 2022
  • Local de produção: Tsutsumi Asakichi Urushi Inc., em Kyoto, no Japão
  • Fundação da empresa familiar: ano de 1909
  • Perda comercial direta: no mínimo 25% do valor da tora padrão de cedro
  • Espécies arbóreas aproveitadas: cedros e ciprestes com idade entre 60 e 80 anos

Processo do kumahagi e desvalorização na indústria madeireira

Os ursos descascam os troncos logo após saírem do período de hibernação para alcançar a seiva nutritiva que corre sob a casca, em um comportamento conhecido no país como kumahagi. Quando o tronco sobrevive ao ataque, o crescimento vegetal ao redor da área lesionada gera cicatrizes desiguais, tornando a madeira incompatível com os cortes retos e padronizados exigidos pelas serrarias comerciais.

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A perda financeira para os silvicultores se acumula ao longo do desdobro do material. “Uma árvore de cedro japonês padrão perde no mínimo 25% do seu valor se for danificada por ursos. Mas mesmo quando essas partes são serradas, podem ser descobertos posteriormente mais danos internos, distorções ou descolorações, deixando o fabricante com metade do que pagou, às vezes até menos”, declarou Tsutsumi.

O impacto atinge árvores maduras cultivadas por gerações, que levam de 60 a 80 anos de manejo contínuo para atingir o ponto de colheita. Os ataques ocorrem com maior frequência justamente nesses exemplares robustos e bem cuidados, gerando frustração em um setor já pressionado pela falta de trabalhadores rurais.

A manufatura Tsutsumi Asakichi Urushi Inc., fundada em 1909 e administrada pela quarta geração da família de Tsutsumi, aplica a seiva purificada da árvore Toxicodendron vernicifluum sobre as peças. Esse acabamento, empregado no arquipélago há mais de 9 mil anos, atua como um impermeabilizante natural com ação antibacteriana e alta resistência física.

Aplicação da técnica milenar da laca urushi por Rodrigo Matsuda e Tsutsumi

Na produção de pranchas de surfe da marca Urushi Board siita, Tsutsumi atua em parceria com o artesão e shaper Rodrigo Matsuda, da oficina Lasca Woodworks. O processo produtivo mantém expostas as linhas de cicatrização deixadas pelos animais em pranchas, skates, suportes moldados para paredes de escalada e tampos de mesas.

A oficina também sedia workshops formativos na sede em Kyoto, onde participantes recebem explicações práticas sobre o manejo das florestas e os desafios de convivência com a fauna local.

Ataques de ursos e conservação ambiental no Japão

O avanço dos animais sobre áreas de cultivo coincide com medidas mais rígidas adotadas por autoridades públicas. O governo japonês classificou os ursos como séria ameaça à segurança pública após registrar 13 mortes e mais de 220 pessoas feridas em investidas ocorridas entre abril de 2025 e março de 2026 em diferentes províncias.

O despovoamento das comunidades do interior e as alterações climáticas aceleram o problema, reduzindo a disponibilidade de castanhas, nozes e bolotas silvestres nos topos de morro. Sem barreiras humanas constantes e com carência alimentar nas matas, os animais descem para áreas de plantio e perímetros povoados.

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Apesar dos prejuízos econômicos, a ação dos ursos cumpre funções ecológicas específicas. “Árvores mortas e em decomposição são uma parte importante dos ecossistemas florestais, fornecendo habitat e alimento para insetos, fungos e outros organismos, além de contribuírem para a estrutura do solo da floresta à medida que caem e se decompõem”, declarou Liam Adcock, pesquisador do Centro de Pesquisa da Vida Selvagem de Picchio.

Os ocos gerados pela cicatrização do kumahagi abrigam ninhos de aves raras, como a coruja-pescadora-de-Blakiston, espécie que conta com apenas cerca de 150 indivíduos no Japão.

Dados comerciais pendentes de confirmação pública

O faturamento total obtido pela oficina desde o lançamento do Bears Wood Project, em fevereiro de 2022, não foi divulgado pelos organizadores. A empresa também não tornou pública uma tabela oficial consolidada com os preços de venda das pranchas de surfe e dos móveis fabricados sob encomenda.

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Os idealizadores planejam manter o cronograma de oficinas educativas em Kyoto nos próximos meses para atender a demanda de visitantes interessados em técnicas tradicionais de marcenaria.