Cachorros utilizam o padrão sonoro das consoantes para identificar e segmentar palavras dentro da fala humana contínua, segundo estudo publicado na revista Science em 24 de setembro de 2026. A pesquisa da Universidade Eötvös Loránd, sediada em Budapeste, na Hungria, comprovou por medições neurológicas que os caninos compartilham com bebês humanos o mesmo mecanismo cerebral de reconhecimento linguístico.
Pesquisadores do Laboratório de Neuroetologia da Comunicação registraram as ondas cerebrais de cães e humanos durante a audição de sequências sem pausas. Os dados revelaram que o cérebro dos animais sincroniza a atividade elétrica com maior força quando as consoantes constroem a estrutura repetitiva dos vocábulos de três sílabas.
Como o cérebro dos cães identifica palavras humanas?
Durante os testes, adultos e caninos ouviram sequências sonoras contínuas, sem intervalos entre os termos, formadas por palavras inventadas de três sílabas. As respostas elétricas cerebrais ocorreram entre 350 e 550 milissegundos após o começo de cada palavra estruturada por consoantes, com pico médio registrado em 400 milissegundos. Nos humanos, a reação de eletroencefalografia aos padrões consonantais foi 25% superior à observada diante de fluxos baseados em vogais e superou em 77% o registro obtido em transmissões com sons totalmente aleatórios.
“Em fluxos de fala estruturados por consoantes, os cérebros dos cães, assim como os dos humanos, sincronizaram com sucesso com o ritmo das palavras”, afirmou a psicóloga Kinga G. Tóth, coautora do estudo na Universidade Eötvös Loránd, em tradução livre.
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- 40 participantes compuseram a amostra total analisada, divididos entre 20 cães de companhia e 20 adultos;
- 350 a 550 milissegundos delimitam a janela temporal da alteração elétrica neural após o início das palavras;
- 11 animais foram criados em lares desde filhotes e outros nove foram adotados após resgates de ruas e abrigos;
- 24 de setembro de 2026 marcou a publicação do artigo científico na revista Science.
Cães de abrigo e de família apresentam o mesmo padrão neural
A investigação avaliou 11 cães que ingressaram em famílias antes das 12 semanas de vida e nove animais acolhidos após passagens prolongadas por abrigos ou pelas ruas. O viés consonantal permaneceu idêntico nos dois grupos, o que afasta a necessidade de convivência humana intensa na fase inicial de desenvolvimento. Contudo, enquanto as pessoas sincronizaram com os fonemas velozes, os cães acompanharam somente o ritmo das sílabas, processando as palavras em blocos estruturais mínimos de sílabas.
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“Reunidos, esses achados sugerem que a sintonia do cérebro com a fala — e especificamente o surgimento do viés consonantal — não requer um cérebro pré-configurado e habilidades linguísticas semelhantes às humanas”, afirmou o neurocientista cognitivo Attila Andics, chefe do laboratório e autor sênior, em tradução livre. A primeira autora do trabalho é Boglárka Morvai, do Departamento de Etologia.
Pesquisa de 2021 na ELTE antecedeu descoberta sobre a fala
Em 2021, o mesmo grupo da instituição húngara publicou na revista Current Biology que cães utilizam aprendizagem estatística complexa para computar probabilidades de transição entre sílabas. Em bebês humanos, o viés consonantal consolida-se em torno do primeiro ano de vida, permitindo discernir vocábulos na fala contínua, apesar de as vogais apresentarem maior volume sonoro.
A equipe científica ressalta que o estudo atual não determina se o viés consonantal canino é resultado direto da domesticação ao longo de milênios ou se decorre de uma capacidade cognitiva e auditiva geral dos mamíferos, desenvolvida antes da convivência com seres humanos.
