Fezes rosas de pinguins revelam mudanças climáticas na Antártica

Pinguins - Gail Johnson/shutterstock.comPinguins - Gail Johnson/shutterstock.com

Pinguins - Gail Johnson/shutterstock.com

Pesquisadores utilizam a coloração rosa das fezes dos pinguins-de-adélia para monitorar transformações ambientais no continente antártico. As manchas extensas formadas pelo guano nas colônias são captadas por sensores de satélites em órbita, servindo como ferramenta para acompanhar a disponibilidade de alimento e as variações climáticas locais sem necessidade de intervenção presencial contínua.

O tom característico decorre da alimentação das aves marinhas. O consumo predominante de krill antártico e de krill do gelo confere uma pigmentação avermelhada ou rosa tanto aos excrementos quanto ao material regurgitado. Quando a dieta passa a ser composta principalmente por peixes, os resíduos biológicos adquirem uma coloração esbranquiçada ou acinzentada.

Satélites Landsat mapeiam colônias a 705 km de altitude

As fezes acumuladas nas áreas de reprodução criam contrastes visíveis contra o solo e a neve. Equipamentos do programa Landsat, operado pela Nasa em conjunto com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, registram os sinais espectrais dessas colônias a uma altitude de aproximadamente 705 quilômetros, por meio de sensores a bordo do satélite Landsat 8.

Cientistas analisaram uma série histórica de 30 anos de imagens orbitais para associar a cor do solo colonizado com a retração das plataformas de gelo e a substituição das presas marinhas. O método permite mapear colônias inteiras em áreas de difícil acesso geográfico, além de registrar alterações de longo prazo na cadeia alimentar marinha.

Em tradução livre, o professor assistente da Clemson University e pesquisador de ecologia antártica

Casey Youngflesh afirmou: “O gelo marinho é um fator extremamente importante no ambiente marinho antártico. A estrutura da teia alimentar da região está mudando em resposta a isso”.

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Pinguins-de-adélia atuam como bioindicadores no oceano polar

Por ocuparem níveis superiores na cadeia biológica, os pinguins funcionam como espécies sentinelas para os oceanógrafos. Amostras da composição química do guano e das penas revelam oscilações nas populações de crustáceos e peixes ao longo dos anos, refletindo o equilíbrio de todo o ecossistema marinho.

Pesquisadores como o biólogo marinho e oceanógrafo Michael Polito, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, e a ecologista Heather Lynch, da Universidade Stony Brook, acompanham a dinâmica populacional dessas aves para avaliar o impacto da atividade biológica no polo sul. Em campo, o biólogo Colin Southwell, da Divisão Antártica Australiana, também atua na coleta de dados biológicos complementares.

Foto: pinguim-de-adélia deslizando sobre o gelo da Antártida – Instagram/joyoflivingphoto/Nadia Haq

Para complementar os dados orbitais em levantamentos locais, equipes científicas combinam diferentes métodos de fiscalização:

  • Fotografias aéreas captadas por sobrevoos de helicóptero para contagem individual de ninhos
  • Transmissores via satélite fixados temporariamente nos animais para rastrear rotas de navegação no oceano
  • Imagens orbitais para mensuração de manchas fecais e verificação de alterações de cor nas colônias
  • Análise laboratorial de tecidos de penas recolhidos durante o período reprodutivo

Identificação de colônias nas Ilhas Danger

A aplicação de técnicas de sensoriamento remoto com base no guano já permitiu descobertas geográficas expressivas no continente polar. Em 27 de julho de 2026, o observatório terrestre da Nasa destacou registros históricos obtidos pelo satélite Landsat 8 que identificaram colônias de pinguins-de-adélia nas Ilhas Danger a partir das manchas rosas impressas na rocha nua.

O arquivo de dados do Landsat possibilitou demonstrar que centenas de milhares de aves ocupavam o arquipélago sem que expedições em solo tivessem mapeado as populações em sua totalidade. O mapeamento histórico confirmou a permanência das aves nessas ilhas durante décadas com base exclusiva na assinatura espectral de seus excrementos.

CCAMLR usa dados da dieta na regulação da pesca comercial

A dependência em relação ao krill expõe os pinguins a variações na oferta de alimento geradas pela perda sazonal do gelo polar e pelo avanço das embarcações pesqueiras comerciais na Península Antártica. Filhotes alimentados com proporções maiores de peixes costumam registrar desenvolvimento e índices de sobrevivência superiores aos que consomem apenas krill, o que eleva a relevância de registrar o tipo de presa ingerida em cada temporada reprodutiva.

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Os levantamentos colaboram com a governança marinha exercida pela Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos da Antártica e pelo Programa Antártico Australiano. Os dados orientam a definição de cotas de captura e delimitam áreas protegidas onde a pesca industrial sofre restrições para assegurar o equilíbrio das colônias nativas.