Lêmures indri ampliam abertura da boca para emitir som a até 3 km

Lêmures/ photomaster - shutterstock.comLêmures/ photomaster - shutterstock.com

Lêmures/ photomaster - shutterstock.com

O lêmure indri sincroniza a abertura vertical da mandíbula com a frequência sonora para emitir notas agudas e projetar chamados pela copa florestal de Madagascar. O mecanismo físico, idêntico à técnica de ajuste de ressonância empregada por cantores líricos profissionais, permite que os animais atinjam volumes de até 100 decibéis e alcancem distâncias de cerca de 3 quilômetros em meio à densa vegetação tropical.

A descoberta integra uma pesquisa internacional publicada na revista científica PLOS Computational Biology em 21 de setembro de 2026. Conduzido por cientistas da Universidade de Turim, na Itália, e da Universidade de Warwick, na Inglaterra, o levantamento comprova que esses primatas utilizam o ajuste de formantes, alinhando as ressonâncias do trato vocal às frequências geradas na laringe para maximizar a potência auditiva sem demandar esforço físico excessivo.

Como a inteligência artificial rastreou o canto dos indris?

Para decifrar o comportamento anatômico dos primatas durante a vocalização, os pesquisadores recorreram à ferramenta de inteligência artificial DeepLabCut, programada para rastrear pontos anatômicos sem o uso de marcadores físicos invasivos. A tecnologia permitiu acompanhar quadro a quadro o deslocamento labial e mandibular em 83 gravações em vídeo de 19 indivíduos selvagens, monitorados nas matas da floresta de Maromizaha e da reserva de Mitsinjo, no leste malgaxe.

Saiba mais: Cientistas descobrem sete novas espécies de rã-diamante em Madagascar após resolverem enigma de 12 anos

De acordo com o pesquisador Filippo Carugati, do Departamento de Ciências da Vida e Biologia de Sistemas da Universidade de Turim e autor principal do estudo, a aplicação da estimativa de postura sem marcadores às filmagens na natureza permitiu analisar não apenas os sons dos indris, mas os movimentos físicos por trás deles, acompanhando quadro a quadro o deslocamento do rosto e da boca durante o canto para conectar a mecânica corporal diretamente às mudanças de tom.

Os registros demonstraram que a largura da abertura bucal aumenta de modo contínuo conforme a frequência fundamental das notas sobe, atingindo intervalos que variam entre 573 Hertz e 1.238 Hertz. Ao alterar a geometria do trato vocal, o animal transforma a garganta e a boca em um tubo acústico modulável, fenômeno similar à dinâmica de ressonância dos instrumentos de sopro.

Chiara De Gregorio, pesquisadora associada de primatologia da Universidade de Warwick e coautora correspondente do trabalho, explicou que a boca do indri se abria mais amplamente a cada elevação no tom do canto, revelando uma coordenação refinada entre voz e corpo normalmente associada a cantores humanos treinados, e não a um lêmure cantando na copa da floresta.

Duetos territoriais entre machos e fêmeas na floresta de Madagascar

As canções dos grupos familiares de indris misturam frases ascendentes e descendentes em duetos rigorosamente coordenados entre machos e fêmeas, desempenhando um papel crucial na demarcação territorial à distância. Como a vegetação espessa reduz a visibilidade a curtos intervalos espaciais, as vocalizações funcionam como um anúncio contínuo de ocupação espacial, diminuindo drasticamente confrontos físicos perigosos e disputas violentas entre bandos adjacentes por fontes de alimento.

Além da defesa do espaço habitado, os integrantes dos grupos utilizam variações musicais com andamento mais lento e pausas prolongadas para restabelecer a coesão social quando indivíduos acabam dispersos pela vegetação, mantendo contato auditivo constante sem a necessidade de deslocamentos arriscados.

Métricas acústicas e biológicas registradas no estudo com indris

  • 573 Hz a 1.238 Hz: intervalo da frequência fundamental registrada nas canções dos lêmures.
  • Até 100 dB: pressão sonora máxima alcançada pelas vocalizações no dossel das árvores.
  • Cerca de 3 km: raio de alcance da propagação sonora das notas através da floresta úmida.
  • Cerca de 9 kg e mais de 70 cm: peso e comprimento corporal médios atingidos por espécimes adultos de Indri indri.
  • 74 milhões de anos: período aproximado transcorrido desde a existência do último ancestral comum entre seres humanos e lêmures.

Evolução convergente afasta hipótese de herança direta com a voz humana

A presença da modulação precisa do trato vocal em humanos e em indris representa um exemplo clássico de evolução convergente, processo no qual espécies distintas desenvolvem respostas fisiológicas idênticas sob pressões ambientais semelhantes. O último ancestral comum compartilhado entre a linhagem humana e os lêmures viveu há 74 milhões de anos, indicando que a habilidade de coordenar mandíbula e frequência acústica surgiu de forma totalmente independente em cada linhagem taxonômica para contornar os desafios de transmissão de sinais pelo ar.

Entre os primatas, o canto estruturado em duetos configura uma característica extremamente restrita, tendo se desenvolvido autonomamente em apenas quatro agrupamentos que não compartilham laços de parentesco próximo recentes. Na natureza mais ampla, estratégias bioacústicas de ajuste de formantes para amplificar o volume já foram catalogadas por cientistas em outros animais:

  • Gibões: primatas que projetam canções complexas nas copas das florestas do sudeste asiático.
  • Lobos-cinzentos: carnívoros que ajustam a cavidade bucal durante uivos coletivos de localização.
  • Camundongos-gafanhoto: pequenos roedores que modulam o trato vocal para produzir chamados em campo aberto.

Ameaça de extinção e barreiras na preservação do lêmure indri

Considerado a maior espécie viva entre todos os lêmures existentes no planeta, o indri é também o único integrante dessa ordem de primatas capaz de cantar de maneira articulada. Atualmente, a espécie encontra-se classificada como criticamente ameaçada de extinção em decorrência da fragmentação contínua de seu habitat natural provocada pelo desmatamento ilegal, pelo avanço da agricultura e pela caça predatória no território insular africano.

Diferentemente de outros primatas de menor porte que conseguem sobreviver em santuários e zoológicos, o indri possui histórico estrito de incapacidade de reprodução em cativeiro, morrendo rapidamente fora do ecossistema florestal de Madagascar. Essa restrição biológica faz com que a preservação integral das reservas florestais remanescentes de Maromizaha e Mitsinjo represente a única medida viável para impedir o desaparecimento definitivo dessas populações selvagens.

“Embora possamos pensar em nós mesmos como os únicos sopranos capazes de produzir cantos tão complexos, há outro cantor extraordinário na floresta, que canta, se comunica e simplesmente tenta sobreviver”, afirmou De Gregorio, em tradução livre, ao ressaltar a urgência da aplicação de políticas de fiscalização ambiental no leste de Madagascar.