MEC e Inep estudam mudar formato da redação do Enem a partir de 2028

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Prova redação - Foto: wutwhanfoto/istock

O Ministério da Educação e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira planejam alterar o formato da redação do Exame Nacional do Ensino Médio a partir de 2028. A reestruturação em estudo analisa a substituição da dissertação tradicional em texto único de 30 linhas por múltiplos gêneros textuais ou pela inserção de perguntas dissertativas ligadas às áreas do conhecimento escolar.

A criação do grupo técnico responsável pela reformulação foi confirmada pelo ministro da Educação, Leonardo Barchini, em São Paulo. O ministro declarou que a comissão técnica analisa experiências nacionais e internacionais para apresentar uma proposta oficial até o final de 2026, com foco direto na medição da capacidade de interpretação e escrita dos estudantes concluintes da educação básica.

Leonardo Barchini detalha estudos do Inep para o Enem 2028

“Com os resultados recentes internacionais sobre leitura, há uma inclinação do Inep de que a forma de você cobrar leitura, por exemplo, e escrita, ela mude”, afirmou o ministro Leonardo Barchini durante sabatina no 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, realizada em 23 de setembro de 2026. Segundo o ministro, a intenção governamental é elaborar um exame mais eficiente para o ciclo educacional de 2028, mantendo cautela operacional diante da complexidade logística da aplicação.

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O titular da pasta da Educação apontou que perguntas discursivas auxiliam no desenvolvimento escolar, mas demandam planejamento prévio de correção. “Fazer perguntas abertas para fomentar leitura e escrita é muito importante. A própria redação tende a ser alterada, mas toda vez que mexe com Enem tem de ter cuidado”, disse o ministro. Em um dos modelos avaliados internamente pela equipe técnica, o exame passaria a ter quatro perguntas abertas distribuídas por área de conhecimento, dialogando com os itinerários do Novo Ensino Médio.

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Gêneros textuais da Fuvest e Unicamp servem de base para o Enem

A avaliação de diferentes gêneros discursivos já ocorre em vestibulares das universidades públicas do estado de São Paulo. No processo seletivo da Fundação Universitária para o Vestibular, instituição responsável por selecionar estudantes para 70% das vagas da Universidade de São Paulo, o exame ofereceu duas alternativas de escrita aos vestibulandos, cabendo ao candidato optar entre a clássica estrutura dissertativo-argumentativa e a redação de uma carta endereçada a um personagem hipotético delimitado pela banca.

A necessidade de renovação metodológica ganhou força após os dados da avaliação internacional divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico na terça-feira, 8 de setembro de 2026. No Pisa 2025, que mediu o rendimento de jovens de 15 anos em 91 nações e economias parceiras, 51% dos participantes brasileiros ficaram abaixo do patamar básico em leitura, nível que afere a capacidade individual de localizar itens informativos explícitos e interpretar intenções textuais.

Na Universidade Estadual de Campinas, a seleção adota a pluralidade textual de maneira regular desde o vestibular realizado em 2020. A instituição campineira costuma exigir que os inscritos produzam peças como abaixo-assinados, notas de esclarecimento, cartas de denúncia, transcrições de discursos políticos, depoimentos ou minutas de projetos de lei, avaliando o domínio da norma-padrão da língua portuguesa e a capacidade de adaptação às circunstâncias reais de comunicação propostas no enunciado.

Para a linguista Silvia Maria Brandão, doutora pela Universidade Estadual Paulista e especialista em soluções educacionais, a diversificação das tarefas escritas estimula o repertório dos jovens. “Essa flexibilidade cognitiva inclui, por exemplo, a capacidade de caminhar por diferentes situações e desenvolver argumentos. No Enem atual, os vestibulandos ficam presos a um modelo mais engessado e específico de gênero textual, inclusive fora de circulação na esfera social do estudante, e isso banaliza a escrita”, afirmou a pesquisadora.

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O coordenador de linguagens do Colégio pH, Thiago Braga, ressalta que critérios objetivos de correção asseguram a validade de provas desse tipo sem margem para impressões subjetivas dos avaliadores. De acordo com o professor, os parâmetros de correção medem se o candidato articula raciocínio estruturado, emprega vocabulário amplo, utiliza conectivos adequados e mobiliza repertório sociocultural, competências plenamente verificáveis em composições menores ou gêneros sem treino prévio intensivo.

Modelos internacionais de escrita observados pelo Inep

Além das bancas de vestibulares brasileiros, o comitê do Inep acompanha o desenho de avaliações nacionais de final de ensino médio aplicadas por outros países para construir as matrizes de referência previstas para 2028. Os formatos estrangeiros combinam desde produções direcionadas até análises argumentativas de textos fornecidos no caderno de prova:

  • África do Sul: a avaliação de conclusão do ensino médio exige a produção de três peças textuais e já cobrou dos estudantes a elaboração de e-mails, guias de instruções, resenhas e mensagens simuladas de WhatsApp;
  • China: o exame nacional Gaokao estipula a redação de um texto no formato dissertativo-argumentativo com extensão delimitada em 800 palavras, baseado nas referências conceituais do caderno de questões;
  • Estados Unidos: o teste padronizado SAT apresenta um texto de apoio para que o candidato redija uma análise identificando as técnicas de persuasão e a coerência dos argumentos empregados pelo autor da obra;
  • França: o exame de conclusão Baccalauréat oferece opções distintas para ingresso no ensino superior, divididas entre comentário analítico de texto literário, reflexão temática pessoal ou produção dissertativa opinativa.

Cronograma do Enem nos próximos anos e definições pendentes

O Ministério da Educação mantém o modelo vigente do exame inalterado para as provas do ciclo atual. O Enem 2026 foi incorporado ao Sistema de Avaliação da Educação Básica para calcular os índices de proficiência do 3º ano do ensino médio em todo o país, mas preserva a folha de redação dissertativa de até 30 linhas e a divisão das 180 questões objetivas de múltipla escolha.

O calendário de aplicação das provas do Enem 2026 tem início marcado para o domingo, 8 de novembro de 2026, com os cadernos de Linguagens, Ciências Humanas e a proposta de redação regular, seguido pelo segundo dia de aplicação no domingo, 15 de novembro de 2026, com Ciências da Natureza e Matemática. O novo modelo estruturado pelo grupo de trabalho do Inep está agendado para vigorar de maneira oficial a partir de 1 de janeiro de 2028.

O governo federal ainda não definiu se adotará a escolha aberta de gêneros inspirada nos vestibulares paulistas, a subdivisão da prova em cadernos específicos por áreas temáticas curriculares ou a junção de produção textual e respostas dissertativas obrigatórias. As diretrizes definitivas das competências de escrita e das matrizes do exame serão divulgadas pelo Inep na apresentação das conclusões do grupo de trabalho técnico.