A saúde do pai antes da concepção e seus hábitos cotidianos alteram marcas epigenéticas nos espermatozoides, com impacto direto no desenvolvimento embrionário e na saúde futura dos filhos. O alerta integra uma revisão científica internacional liderada por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), que associa o estilo de vida masculino a riscos elevados de doenças crônicas na vida adulta da prole.
O trabalho foi coordenado pelo médico urologista e andrologista Jorge Hallak, professor da FMUSP, em colaboração com os pesquisadores Thiago Afonso Teixeira, também da FMUSP, Sandro C. Esteves, diretor médico do Centro de Reprodução Androfert, e Robert John Aitken. A pesquisa detalha como os mecanismos epigenéticos — processos que controlam a ativação ou o silenciamento de genes sem modificar a sequência do DNA — transmitem consequências do ambiente paterno para a geração seguinte.
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Jorge Hallak alerta para atalhos na reprodução assistida
“A reprodução assistida é uma conquista fantástica, mas não deve ser usada como um atalho que ignora a saúde do homem. Tratar a causa da infertilidade masculina, ajustar o estilo de vida e reduzir o estresse oxidativo antes de tentar a gravidez melhora a taxa de sucesso e protege a saúde da criança a longo prazo”, afirmou Jorge Hallak.
Segundo os autores, a abordagem médica predominante costuma encaminhar casais com dificuldades reprodutivas diretamente para procedimentos de alta complexidade. Essa prática contorna barreiras mecânicas, mas transporta gametas com danos moleculares para o laboratório sem a correção das causas subjacentes.
Alterações epigenéticas no espermatozoide e riscos para os filhos
O consumo de álcool, o tabagismo, o excesso de peso corporal, o estresse crônico, a exposição a poluentes e a idade paterna avançada figuram entre os principais fatores capazes de desregular o perfil molecular dos gametas masculinos. Quando a fecundação ocorre a partir de espermatozoides com essas alterações epigenéticas, o embrião recebe um programa celular vulnerável. Filhos concebidos sob essas condições registram maior probabilidade de apresentar obesidade, diabetes, enfermidades cardiovasculares, transtornos neuropsiquiátricos e neoplasias ao longo da vida adulta.
Historicamente, a atenção pré-concepcional concentrou-se de maneira quase exclusiva no organismo feminino. A revisão aponta que a qualidade do sêmen serve como termômetro da condição física global do homem, interferindo ativamente na formação da placenta e na diferenciação celular logo após a fertilização.
Estresse biológico em laboratório durante a fertilização in vitro
A publicação chama a atenção para o emprego da injeção intracitoplasmática de espermatozoides sem que o paciente realize previamente a investigação andrológica. Etapas técnicas rotineiras dos tratamentos laboratoriais, como o congelamento e descongelamento de gametas, o cultivo prolongado do embrião em placas e a manipulação de níveis de oxigênio ambiental, submetem as células reprodutivas a um estresse biológico adicional durante janelas epigenéticas de alta sensibilidade.
Diferentemente das mutações estruturais permanentes no DNA, as marcas epigenéticas nos espermatozoides apresentam caráter reversível. A adoção de dietas equilibradas, a redução do índice de massa corporal, a suspensão do tabaco e do álcool e o tratamento clínico ou cirúrgico de condições urológicas, a exemplo da varicocele e de infecções ativas, conseguem reestruturar os parâmetros seminais antes da concepção.
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Dados técnicos da publicação científica da FMUSP
- Título original da revisão: Assessing the epigenetic consequences of ART in male infertility: what risks to embryo and offspring health?
- Periódico internacional: Epigenomics, volume 18, fascículo 2, páginas 255-267
- Data de divulgação inicial (Epub): 2 de março de 2026
- Instituições participantes: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e Centro de Reprodução Androfert
- Difusão pública das conclusões: segunda-feira, 28 de setembro de 2026
A revisão científica ressalva que a literatura médica ainda demanda o acompanhamento contínuo de grupos populacionais humanos no longo prazo. Esse monitoramento futuro é necessário para mensurar a extensão quantitativa precisa do risco de cada patologia em crianças geradas por métodos assistidos sem tratamento prévio do pai, visto que os fatores epigenéticos atuam de forma combinada e multifatorial.
