O calor acumulado nos oceanos atingiu o patamar mais alto já registrado no planeta em 2025, de acordo com a 10ª edição do Relatório sobre o Estado do Oceano do programa europeu Copernicus. O levantamento oficial, publicado nesta quarta-feira (30), aponta que as águas marítimas globais absorveram 23 zettajoules adicionais de energia térmica ao longo do último ano.
Esse montante de energia extra retido pelo mar representa cerca de 40 vezes todo o consumo energético da humanidade no mesmo período, confirmando o nono ano consecutivo de quebra de recorde térmico nas bacias marítimas globais. A elaboração do documento foi coordenada pela Mercator Ocean International a pedido da Comissão Europeia e reuniu 125 cientistas de diferentes países para consolidar as medições por satélite e sensores subaquáticos.
Confira também: Supercélula de tempestade atinge São Luiz Gonzaga no Rio Grande do Sul
Principais dados do 10º Relatório sobre o Estado do Oceano
- Data de divulgação: quarta-feira, 30 de setembro de 2026
- Sedes de publicação: Toulouse, na França, e Bruxelas, na Bélgica
- Calor adicional retido em 2025: 23 zettajoules (equivalente a 10²¹ joules por unidade)
- Consumo humano comparado: energia retida equivale a 40 vezes o gasto global anual
- Acidez marinha: alta de 17% registrada no período de 1985 a 2025
- Ritmo de elevação recente do nível do mar: 4,2 milímetros ao ano entre 2012 e 2025
Aquecimento acelera elevação do nível do mar e perda de gelo
As medições reunidas no estudo revelam que a taxa média de elevação global do nível do mar acelerou de 3,8 milímetros por ano, média apurada entre 1999 e 2025, para 4,2 milímetros anuais no intervalo mais recente, de 2012 a 2025. Esse avanço contínuo resulta da expansão térmica das águas aquecidas combinada ao degelo continental. Em paralelo, a acidez dos oceanos aumentou cerca de 17% entre 1985 e 2025, consequência direta da absorção ininterrupta de dióxido de carbono presente na atmosfera terrestre.
No Ártico, o recuo do gelo marinho atingiu uma perda média de 490 mil quilômetros quadrados por década no período de 1979 a 2025, extensão territorial comparável à área da Espanha eliminada a cada dez anos. O estresse térmico prolongado também desregulou os ecossistemas microscópicos, provocando alterações persistentes nos ciclos sazonais do fitoplâncton em cerca de 5% de todo o oceano global ao longo das últimas três décadas.
Cientistas alertam para impacto duradouro nos ecossistemas marinhos
O diretor-geral da Mercator Ocean International, Pierre Bahurel, afirmou que o oceano passa por mudanças profundas que exigem monitoramento contínuo. “O oceano está a transformar-se diante dos nossos olhos: o aquecimento, a subida do nível do mar e a degradação dos ecossistemas são sinais interligados de mudanças significativas e de longo prazo. É nossa responsabilidade construir a capacidade permanente de antecipar esta transformação”, declarou Bahurel.
Acompanhe: Ciclone traz rajadas de 100 km/h e põe estados em alerta para temporais
O comissário europeu das Pescas e dos Oceanos, Costas Kadis, ressaltou que as conclusões técnicas exigem respostas institucionais coordenadas para mitigar danos ambientais e socioeconômicos. Kadis apontou que os resultados “mostram que as alterações climáticas já estão a transformar os ecossistemas marinhos, as comunidades costeiras e os meios de subsistência que deles dependem. Para a Europa, este é um apelo ao reforço da ação para proteger a biodiversidade marinha, apoiar pescas e zonas costeiras resilientes e aprofundar o nosso conhecimento sobre o oceano”.
Ritmo de aquecimento dobrou desde as ultimas decadas do seculo 20
O aquecimento oceânico apresenta aceleração contínua desde 1960, com a taxa de acúmulo de energia térmica dobrando nas últimas duas décadas em relação aos registros históricos anteriores. Como os oceanos cobrem mais de 70% da superfície terrestre, eles funcionam como o principal regulador térmico do sistema climático, sendo responsáveis por absorver cerca de 90% de todo o excesso de calor retido pelos gases de efeito estufa e um terço do dióxido de carbono antropogênico gerado por atividades humanas.
Leia também: Inmet prevê chuvas acima da média no Sul e calor em outubro
Os efeitos extremos desse processo ganharam intensidade recente em mares semifechados. Em 2024, bacias regionais como o Mar Mediterrâneo e o Mar Negro registraram ondas de calor marinhas severas, que atingiram picos de temperatura de até 4,6 °C acima das médias históricas observadas para a região.
Monitoramento cientifico projeta novos passos para a gestao costeira
Os pesquisadores do programa Copernicus continuam a atualizar as leituras hidrográficas com apoio da secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, Celeste Saulo, visando consolidar previsões para as próximas temporadas climáticas. As séries temporais e os mapas de calor marinho servirão de base para que governos costeiros planejem defesas contra ressacas e organizem os limites de captura na atividade pesqueira comercial.
