Medo ou profecia? Entenda a origem do debate que associa a IA ao Anticristo

Mãos de humano e robô, inteligência artificialMãos de humano e robô, inteligência artificial

Mãos de humano e robô, inteligência artificial - Summit Art Creations/shutterstock.com

Líderes religiosos dos Estados Unidos debatem se a inteligência artificial pode atuar como um catalisador do fim do mundo ou cumprir o papel do Anticristo bíblico. A discussão entre pregadores e congregações evangélicas ganha força nesta quarta-feira (30), impulsionada por manifestações em cultos, redes sociais e livros, em um momento no qual especialistas da própria indústria de tecnologia alertam para riscos existenciais decorrentes de sistemas autônomos.

O pastor Philip Anthony Mitchell, sediado na cidade de Atlanta, declarou publicamente que “a IA terá papel central nos tempos finais”. As manifestações religiosas convergem com temores levantados após pedidos de demissão de pesquisadores em grandes laboratórios de inteligência artificial, movimento que levou o debate das telas e púlpitos para o centro das atenções públicas norte-americanas.

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Profecias e interpretações da inteligência artificial no cristianismo

Foto: Inteligência Artificial – Just_Super/ istockphoto.com

A correlação entre tecnologia e profecias bíblicas é defendida por diferentes pregadores de destaque no cenário protestante norte-americano. O pastor Greg Laurie afirmou que o avanço tecnológico se encaixa nas descrições apocalípticas: “A IA pode fazer parte de um cenário de fim dos tempos? É muito possível.” Na mesma linha, o pastor evangélico Mike Signorelli declarou que o sistema “é parte integrante de como você chega ao Anticristo”. As pregações utilizam como base passagens do livro do Apocalipse sobre o engano de multidões e a atuação de falsos profetas associados a um poder global antagônico ao cristianismo.

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A professora Noreen Herzfeld, docente de Teologia e Ciência da Computação na Escola de Teologia e Seminário de São João, analisa que essa reação repete padrões históricos diante de rupturas sociais intensas. “A discussão do fim dos tempos floresce em épocas de grandes mudanças”, explicou a pesquisadora. De acordo com a teóloga, a velocidade de transformação do mercado de trabalho e o risco de desestruturação socioeconômica geram estresse coletivo, fazendo com que narrativas apocalípticas forneçam um quadro explicativo para indivíduos que buscam propósito diante de transições que fogem ao controle individual.

Pesquisas e dados sobre crenças escatológicas e tecnologia

O debate teológico encontra eco em uma fatia representativa da sociedade americana, conforme apontam levantamentos demográficos e estimativas de risco calculadas pelo setor tecnológico:

  • 39% dos adultos nos Estados Unidos afirmam crer que a humanidade está vivendo no fim dos tempos;
  • 47% dos cristãos norte-americanos acreditam que a sociedade atravessa os tempos finais da história;
  • 49% dos cristãos nos Estados Unidos discordam da interpretação de que o período atual seja o Apocalipse;
  • 10% a 15% é a taxa estimada por especialistas do Vale do Silício para o risco de destruição ou extinção da humanidade provocada pela tecnologia;
  • 153 milhões de visualizações foram registradas nas primeiras 36 horas após a publicação da carta de alerta do pesquisador Jacob Coxon.

Alertas na indústria de inteligência artificial e a saída de Jacob Coxon

Os receios de líderes religiosos foram alimentados por episódios recentes no Vale do Silício. Na terça-feira, 8 de setembro de 2026, o pesquisador britânico Jacob Coxon publicou uma carta aberta confirmando seu desligamento da Anthropic e da OpenAI. O especialista acusou as lideranças das duas empresas de negligenciarem normas básicas de segurança em uma disputa desenfreada para lançar modelos autorreplicantes no mercado internacional.

“Nenhuma das duas empresas está agindo com responsabilidade. Elas estão correndo direto para a superinteligência autorreplicante e apostando com as nossas vidas”, afirmou Jacob Coxon em sua carta de demissão, em tradução livre. A repercussão do documento reacendeu debates institucionais no Congresso dos Estados Unidos, onde parlamentares passaram a exigir maior rigor nos testes de modelos computacionais avançados antes de sua liberação pública, conectando os temores de segurança civil aos dilemas éticos abordados pelas comunidades de fé.

Histórico de crises e projeções escatológicas nos Estados Unidos

Estudiosos lembram que a atribuição de traços do Anticristo a novas tecnologias ou lideranças políticas é uma constante na história americana. O professor emérito de Estudos Religiosos da Universidade de Elon, Jeffrey C. Pugh, lembra que sua própria avó acreditava que o presidente Franklin D. Roosevelt personificava o Anticristo na década de 1930 devido à crise da Grande Depressão e às profundas reformas do New Deal. O fenômeno se repetiu na Guerra Fria com a União Soviética e, posteriormente, em relação ao Islã após os atentados de setembro de 2001.

O movimento atual ecoa o impacto cultural provocado na década de 1970 pelo escritor e televangelista Hal Lindsey, autor da obra A Agonia do Grande Planeta Terra, que morreu em 25 de novembro de 2024, aos 95 anos. A publicação vendeu dezenas de milhões de cópias ao correlacionar tensões geopolíticas com o Apocalipse bíblico. Para o pastor australiano Stephen Driscoll, autor do livro Made in Our Image: God, Artificial Intelligence and You, a tentativa de usar textos sagrados como mapa preditivo direto desvia o foco do papel da fé. Driscoll observa que a tecnologia sempre esteve presente nas escrituras como instrumento sujeito à sabedoria humana e divina, cabendo às congregações manter a ética sem ceder ao pânico.

Comunidades científicas e teológicas mantêm leituras divergentes sobre a extensão dessa transformação técnica. Cientistas da computação e autoridades reguladoras apontam que não há consenso empírico comprovado sobre a viabilidade de hipóteses de extinção da humanidade por inteligência artificial em curto prazo.