Menopausa altera proteínas no sangue e eleva risco relativo de Alzheimer, aponta estudo

Mulher com calor, Menopausa - Highwaystarz-Photography/ istockphoto.comMulher com calor, Menopausa - Highwaystarz-Photography/ istockphoto.com

Mulher com calor, Menopausa - Highwaystarz-Photography/ istockphoto.com

A transição da menopausa altera 16 proteínas no sangue associadas ao envelhecimento cerebral acelerado e a um aumento de 15% no risco relativo de Alzheimer na velhice. A conclusão faz parte de um estudo publicado na revista científica Nature Medicine por pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá, e da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), nos Estados Unidos.

O levantamento aponta que essas alterações no perfil proteico decorrem das oscilações hormonais típicas da fase reprodutiva feminina, superando a influência da idade cronológica. “Não acreditamos que a menopausa esteja causando demência diretamente. Mas é possível que possamos prever o risco de demência de uma mulher décadas depois pelos níveis dessas moléculas por volta da menopausa”, afirmou Kaitlin Casaletto, neuropsicóloga, professora associada do Centro de Memória e Envelhecimento Fein da UCSF e coautora sênior do estudo, em tradução livre.

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Quando os sintomas da menopausa começam e como afetam o corpo?

A transição para a menopausa costuma ocorrer na meia-idade, período compreendido entre os 43 e os 58 anos, quando os ovários reduzem progressivamente a produção de hormônios como o estradiol. Esse processo abrange a pré-menopausa, a perimenopausa e a pós-menopausa. Durante esse intervalo, as mulheres costumam relatar sintomas vasomotores, como suores noturnos intensos e ondas de calor repentinas, além de episódios recorrentes de insônia e oscilações de humor. Na análise laboratorial das voluntárias, os sintomas vasomotores mais severos apresentaram forte correlação com a elevação de marcadores inflamatórios no sangue, com destaque para a quimiocina CCL2, molécula associada a respostas do sistema imunológico que se mantiveram elevadas mesmo décadas após o término dos ciclos menstruais.

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Helder Picarelli, neurocirurgião do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), explica que ondas de calor e suor noturno são comuns na população feminina e não funcionam como diagnóstico de demência. Segundo o médico, queixas leves de memória ou distúrbios de sono são frequentes na transição hormonal, e a investigação médica especializada só se justifica quando a perda cognitiva se torna persistente, progressiva ou começa a interferir nas atividades cotidianas da mulher.

Alterações hormonais no sangue superam a idade cronológica

Na etapa inicial de descoberta da pesquisa clínica, os cientistas mediram 118 proteínas no sangue de 80 mulheres em diferentes fases hormonais e compararam os parâmetros com amostras de 36 homens da mesma faixa etária. Ao isolar os fatores biológicos, os pesquisadores observaram que a assinatura composta por 16 proteínas se elevou de forma contínua da pré para a pós-menopausa. As mudanças foram impulsionadas diretamente pela queda acentuada do estradiol e pelo aumento do hormônio folículo-estimulante (FSH), que sobe quando os ovários encerram as funções reprodutivas normais. Quando o estágio reprodutivo foi inserido nos modelos estatísticos, o impacto exclusivo dos anos de vida desapareceu, demonstrando que as flutuações hormonais exercem influência própria sobre os tecidos corporais.

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Para comprovar o impacto sistêmico em larga escala, os pesquisadores recorreram aos dados do UK Biobank, onde avaliaram 2.814 mulheres com idades entre 45 e 60 anos pareadas rigorosamente por idade. Nesse grupo ampliado, 44% de quase 3 mil proteínas analisadas divergiram entre mulheres pré e pós-menopausa, revelando sinais de envelhecimento biológico acelerado em 11 de 13 órgãos examinados, incluindo o intestino, as artérias e o cérebro. Entre os marcadores clássicos de degeneração, apenas a proteína p-tau231 variou entre os períodos da transição.

Dados da pesquisa clínica sobre a menopausa e o cérebro

  • Instituições participantes: Universidade de Toronto e Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF)
  • Publicação oficial: revista científica Nature Medicine, em terça-feira, 22 de setembro de 2026
  • Grupos analisados: 80 mulheres e 36 homens na descoberta inicial, 2.814 participantes no pareamento e 11.059 mulheres no acompanhamento longitudinal
  • Resultado central: aumento relativo de 15% no risco de Alzheimer em mulheres com maiores escores das 16 proteínas

Por que dois terços dos diagnósticos de Alzheimer atingem mulheres

Quebra-cabeça, pessoa idosa, Alzheimer – GabrielPevide/ Istockphoto.com

Dois terços de todos os diagnósticos de Alzheimer no mundo correspondem a pacientes do sexo feminino. Durante décadas, essa diferença epidemiológica foi explicada unicamente pelo fato de as mulheres apresentarem maior expectativa média de vida em comparação com os homens. As alterações cerebrais e o acúmulo patológico das lesões da demência iniciam-se silenciosamente até duas ou três décadas antes do surgimento dos sintomas clínicos de perda de memória, coincidindo temporalmente com a janela da menopausa.

“A menopausa é um processo fisiológico normal pelo qual passará qualquer pessoa com ovários que viva o suficiente. Não queremos que ela seja vista como algo ruim, mas como uma oportunidade para entender melhor e talvez modificar a biologia do envelhecimento cerebral nas mulheres”, declarou Madeline Wood Alexander, pesquisadora da Universidade de Toronto e primeira autora do artigo científico, em tradução livre.

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Marcos da investigação sobre proteínas e demência feminina

  • terça-feira, 22 de setembro de 2026 — Publicação da descoberta da assinatura de 16 proteínas no sangue na revista Nature Medicine.
  • quarta-feira, 30 de setembro de 2026 — Divulgação de análises clínicas sobre a correlação de dados do UK Biobank e acompanhamento de demência.
  • 2026 em diante — Monitoramento de voluntárias por neuroimagem e coletas periódicas dentro do projeto Longitudinal Menopause Project.

Limitações clínicas e o que a ciência ainda investiga

Renato Anghinah, professor titular de neurologia da FMABC e livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), destaca que o estudo tem caráter observacional e não demonstra uma relação direta de causa e efeito. As descobertas atuais não justificam a prescrição de terapia de reposição hormonal com a finalidade de prevenir o Alzheimer, uma vez que as evidências consolidadas do tratamento hormonal se limitam ao alívio dos sintomas vasomotores e à proteção cardiovascular em perfis específicos de pacientes.

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A equipe de pesquisadores busca viabilizar a utilização das 16 proteínas como um exame preventivo de rotina na meia-idade. Para aprofundar as evidências, os cientistas iniciaram o estudo Longitudinal Menopause Project, projeto desenhado para acompanhar voluntárias ao longo de vários anos com exames contínuos de neuroimagem e coletas de sangue.

Ainda não se sabe se as 16 proteínas identificadas no sangue funcionam como agentes causadores ativos do dano cerebral ou se atuam apenas como biomarcadores das alterações provocadas pela privação hormonal, questão que dependerá da conclusão dos novos exames laboratoriais em andamento.