Tempo de tela excessivo afeta rendimento e linguagem de crianças

Menino com celular, excesso de telas - ljubaphoto/ istockphoto.comMenino com celular, excesso de telas - ljubaphoto/ istockphoto.com

Menino com celular, excesso de telas - ljubaphoto/ istockphoto.com

O tempo de tela excessivo está associado a notas gerais mais baixas e a atrasos no desenvolvimento da linguagem em crianças e adolescentes, segundo uma ampla revisão científica coordenada pela Universidade de Calgary, no Canadá. O levantamento reuniu registros de 2.817.252 participantes em 64 países e foi publicado na segunda-feira, 28 de setembro de 2026, na revista JAMA Pediatrics.

Além do reflexo no rendimento escolar, os dados associam a permanência prolongada em frente a dispositivos a dificuldades socioemocionais. O trabalho observou maior incidência de comportamentos internalizantes, como ansiedade e sintomas depressivos, e de manifestações externalizantes, a exemplo de agressividade e traços de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Dados consolidados da pesquisa com 2,8 milhões de crianças

  • Total de crianças e adolescentes avaliados: 2.817.252 participantes
  • Abrangência territorial: 64 países
  • Volume de pesquisas sintetizadas: 23 meta-análises independentes reunidas em revisão guarda-chuva
  • Instituição responsável pela liderança: Universidade de Calgary, no Canadá
  • Data da divulgação original: segunda-feira, 28 de setembro de 2026, às 17h (horário da Europa Central)
  • Publicação científica: JAMA Pediatrics

Universidade de Calgary mapeia impacto acadêmico e na linguagem

Grupo de crianças pequenas com celular nas mãos – SeventyFour/ Istockphoto.com

A pesquisa foi estruturada como uma revisão guarda-chuva, formato metodológico que consolida conclusões de múltiplas meta-análises para mensurar o impacto cumulativo da tecnologia no desenvolvimento infanto-juvenil. O material reuniu 23 meta-análises distintas, confirmando que a exposição digital prolongada incide de modo desfavorável na aquisição de vocabulário e na comunicação interpessoal. Pesquisadores da Universidade de Calgary, entre eles Elizabeth Al-Jbouri, Marissa D. Nivison e Ross D. Neville, pontuaram que doses elevadas de tela coincidem com um desempenho geral enfraquecido na escola e prejuízos no convívio entre colegas de mesma faixa etária.

“Nossa revisão revelou que doses mais altas de exposição a telas estão associadas a menor desempenho acadêmico geral e desenvolvimento de linguagem mais limitado, além de mais comportamentos internalizantes e externalizantes, problemas emocionais e problemas com colegas”, afirmaram Elizabeth Al-Jbouri e os coautores no artigo da JAMA Pediatrics, em tradução livre.

Rendimento em matemática e ciências não apresentou queda consistente

Embora o rendimento escolar médio caia entre jovens com alta exposição a telas, o levantamento não encontrou evidências estatisticamente consistentes de prejuízos diretos em matérias escolares isoladas. A análise indicou que áreas específicas de aprendizagem formal, como matemática, ciências e capacidade de leitura, mantiveram índices sem perda mensurável uniforme provocada unicamente pelo tempo diante dos aparelhos.

Os autores defenderam no relatório que o uso diário de telas configura uma variável que a família e as instituições podem gerenciar para tentar conter prejuízos múltiplos no bem-estar infantojuvenil.

Associação estatística difere de relação de causa e efeito direta

Cientistas independentes ponderam que a literatura sintetizada pelo estudo trabalha com dados observacionais transversais, o que demonstra correlação numérica, mas não comprova relação de causa e efeito direta. Na avaliação de analistas externos, a magnitude estimada dessa ligação gira em torno de 1% da variação nos desfechos emocionais e acadêmicos. Fatores socioeconômicos consolidados, tais como dinâmica familiar, renda e histórico de prematuridade, continuam exercendo influência substancial no desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes.

A professora de sociologia e vice-reitora da Faculdade de Educação da Universidade de Saragoça, Tatiana Íñiguez Berrozpe, chamou a atenção para o risco de simplificações. “Isso não é um achado insignificante, mas de forma alguma sustenta o mantra de que as telas são a principal causa do sofrimento emocional de adolescentes. O uso de telas sozinho não explica por que um adolescente está emocionalmente angustiado ou tem um desempenho acadêmico pior”, disse a pesquisadora, em tradução livre.

Falta de dados impede distinção entre redes sociais e jogos eletrônicos

A investigação acadêmica não conseguiu isolar o peso específico de cada modalidade de tela no comportamento infantil. Por limitações nos bancos de dados originais das 23 meta-análises, ainda não foi possível quantificar separadamente os efeitos gerados por plataformas de redes sociais, jogos eletrônicos interativos, videochamadas ou consumo passivo de vídeos.

A professora de epidemiologia comportamental da Universidade de Loughborough, Esther van Sluijs, recomendou cautela ao relacionar as conclusões com a rotina digital contemporânea. “Não é possível tirar conclusões robustas sobre tipos específicos de uso de tela, como uso de redes sociais ou jogos, porque não havia dados suficientes para estudar isso. Por isso, devemos ser cautelosos ao interpretar esses resultados no contexto dos hábitos atuais de uso de tela dos jovens”, declarou a epidemiologista, em tradução livre.

Criança com celular – Foto: KOKTARO / Shutterstock.com

Discussões sobre restrições de celulares avançam no Reino Unido

O debate em torno do impacto dos aparelhos digitais na infância ocorre no momento em que governos internacionais buscam medidas institucionais. Autoridades do Reino Unido discutem regulamentações voltadas a proibir ou limitar o uso de celulares por estudantes menores de 16 anos dentro do ambiente escolar, enquanto tramitam propostas legislativas para impor restrições de idade em plataformas digitais.