A nave espacial Starship alcançou a órbita da Terra pela primeira vez na história durante o 14º voo de teste integrado realizado pela empresa SpaceX. O foguete decolou da base Starbase, situada na região de Boca Chica, no estado americano do Texas, e completou o envio de 26 satélites Starlink de terceira geração (V3) ao espaço antes de iniciar as manobras de reentrada atmosférica.
A missão teve duração de 3 horas e 8 minutos, período menor que o plano inicial de quase dez horas e seis voltas ao redor do planeta previsto pelos engenheiros da companhia. A decisão de encerrar o voo de forma antecipada foi tomada após anomalias técnicas detectadas no funcionamento dos motores Raptor durante a trajetória ascendente. “A equipe decidiu não tentar comprometer a entrada em órbita”, afirmou Dan Huot, porta-voz e comentarista de transmissão da SpaceX.
Starship libera satélites Starlink V3 e testa escudo térmico no espaço
Durante a fase de cruzeiro orbital, o estágio superior Starship atingiu uma altitude aproximada de 275 quilômetros em seu ponto mais afastado da Terra, chamado tecnicamente de apoastro. Na altitude de órbita baixa, o compartimento de carga abriu para liberar 26 satélites Starlink V3, equipamentos desenvolvidos para ampliar a infraestrutura global de conectividade da empresa com um incremento de capacidade de transmissão de 1 terabit por segundo (Tbps) em cada unidade operacional.
Três desses novos satélites foram enviados com câmeras montadas em direções específicas para filmar a fuselagem externa da Starship e documentar o desgaste mecânico do escudo térmico. O teste avaliou o comportamento estrutural dos materiais protetores diante das variações extremas de temperatura no vácuo, além de utilizar pela primeira vez peças de proteção que já haviam voado em missões de testes anteriores. Após a ejeção da nave, os equipamentos iniciaram a abertura de painéis solares para seguir de forma autônoma até as órbitas operacionais definitivas.
Super Heavy Booster 21 executa pouso controlado no Golfo do México
O primeiro estágio do sistema, o propulsor Super Heavy Booster 21, operou com 33 motores Raptor logo após a decolagem para levar o foguete até as camadas superiores da atmosfera. Cerca de sete minutos depois do lançamento no Texas, o componente completou a queima inicial, realizou a manobra de separação física da nave principal e acionou seus motores para direcionar a descida até o oceano.
Veja também: Ali Alobaidly vence concurso de astrofotografia de Greenwich
A etapa do propulsor terminou com uma amerissagem controlada na água, no Golfo do México, registrada às 09h56 pelo horário de Brasília. Ao contrário de testes operacionais que preveem o retorno da estrutura até os braços mecânicos da torre de lançamento em solo, o perfil deste 14º voo dispensou o recolhimento em terra firme para focar no recolhimento de dados hidrodinâmicos e na desaceleração segura na superfície marítima.
Ajustes no plano de voo e pouso da Starship no Oceano Pacífico
Pelo cronograma divulgado antes do lançamento, o estágio Starship deveria permanecer quase 10 horas em ambiente de microgravidade completando seis órbitas ao redor da Terra a 275 quilômetros de altitude. O objetivo dessa etapa prolongada era monitorar a resistência estrutural do aço inoxidável e a estabilidade térmica dos propelentes antes de ligar um dos motores para a manobra de queima de desorbitação.
Com a identificação de irregularidades de empuxo nos motores, o controle em solo reprogramou os computadores para iniciar o retorno logo após a primeira volta no planeta. O veículo espacial mergulhou na atmosfera terrestre em trajetória inclinada e realizou a manobra final de desaceleração sobre as águas do Oceano Pacífico, a oeste do Chile, onde tocou a água às 12h57 pelo horário de Brasília e explodiu logo após a amerissagem.
Cronologia e dados técnicos do 14º voo de teste da Starship
O 14º voo reuniu diferentes marcas temporais e dados técnicos certificados pela equipe da empresa aeroespacial durante as fases de decolagem, separação, liberação de carga e descida:
- Horário da decolagem na base Starbase: segunda-feira, 28 de setembro de 2026, às 09h48 pelo horário de Brasília (07h48 no horário local do Texas).
- Descida do propulsor Super Heavy Booster 21: segunda-feira, 28 de setembro de 2026, às 09h56 pelo horário de Brasília, no Golfo do México.
- Tempo total de operação da nave Starship no espaço: 3 horas e 8 minutos até a queima de reentrada.
- Altitude aproximada de apoastro alcançada: 275 quilômetros da superfície terrestre.
- Amerissagem da Starship no Oceano Pacífico: segunda-feira, 28 de setembro de 2026, às 12h57 pelo horário de Brasília.
- Carga útil liberada com sucesso: 26 satélites Starlink V3, com capacidade de 1 Tbps por equipamento.
- Potência do primeiro estágio: 33 motores Raptor em operação no Super Heavy Booster 21.
Evolução do programa espacial da SpaceX após os testes suborbitais
O alcance da órbita fechada representa uma mudança no desenvolvimento do programa espacial conduzido por Elon Musk, fundador, diretor-executivo e designer-chefe da SpaceX. Nas treze tentativas anteriores realizadas pelo grupo no Texas, a nave cumpriu trajetórias exclusivamente suborbitais, que arremessavam o veículo para o espaço em arcos balísticos programados para cair em zonas marítimas predeterminadas sem a necessidade de velocidade de sustentação orbital completa.
Confira também: GMT avança no Chile com tecnologia e recursos científicos do Brasil
O teste anterior, realizado no voo 13 em 24 de julho de 2026, tinha alcançado a descida intacta da Starship sobre as águas do Oceano Índico. Os parâmetros coletados em julho permitiram validar o isolamento cerâmico contra o calor da reentrada e viabilizaram a tentativa de transporte de carga comercial em escala real adotada no voo 14.
Investigação técnica dos motores Raptor e etapas seguintes do projeto
Apesar da realização do voo orbital e da liberação dos 26 satélites de comunicação, a SpaceX não forneceu um relatório técnico aprofundado imediato sobre a causa raiz exata do desligamento prematuro do motor Raptor Vacuum durante a queima ascendente. A análise detalhada da telemetria de voo e dos sensores de pressão orientará os ajustes necessários nos motores para as próximas missões do programa espacial.
