O neurocientista norte-americano Karl Deisseroth afirmou que o desenvolvimento da optogenética permite decifrar circuitos cerebrais e abre caminho direto para tratamentos específicos de doenças psiquiátricas e neurológicas. Laureado com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2026 ao lado dos pesquisadores alemães Peter Hegemann e Georg Nagel, o professor da Universidade de Stanford explicou que a técnica soluciona a histórica barreira médica de não conseguir isolar células doentes no cérebro.
A concessão da honraria ocorreu em Estocolmo pela Assembleia do Nobel no Instituto Karolinska na segunda-feira (5), reconhecendo o trio pela criação de um interruptor molecular acionado por feixes luminosos. O presidente do Comitê Nobel de Fisiologia ou Medicina, Per Svenningsson, declarou, em tradução livre, que a optogenética oferece oportunidades para mapear o cérebro de uma maneira com a qual antes só se podia sonhar.
Karl Deisseroth explica a precisão da optogenética em neurônios
“Este é um objetivo que a neurociência busca há muito tempo, porque o cérebro é muito complicado, com bilhões de células lado a lado fazendo coisas completamente diferentes”, disse Karl Deisseroth. O pesquisador de 54 anos ressaltou que a psiquiatria sofria por não ter parâmetros exatos de disfunção orgânica comparáveis aos da cardiologia, em que a capacidade mecânica de bombeamento cardíaco pode ser medida com clareza nos exames.
O método desenvolvido pelos cientistas recorre a proteínas sensíveis à luz chamadas canalrodopsinas, identificadas no início dos anos 2000 em algas unicelulares conhecidas como Chlamydomonas reinhardtii pelos pesquisadores Peter Hegemann, de 71 anos, e Georg Nagel, de 73 anos. Deisseroth introduziu essas moléculas no material genético de células de mamíferos em 2005 e demonstrou a ativação de neurônios por meio de luz azul, provando a viabilidade do interruptor celular em camundongos vivos dois anos depois.
“Precisávamos de uma forma de distingui-las, de controlar uma sem afetar a outra. E a maneira de fazer isso, ao que parece, é pegar algo a que normalmente elas não respondem de forma alguma, que é a luz, e dar apenas a algumas das células a capacidade de responder à luz”, detalhou o cientista. Dessa maneira, a neurociência passou a ligar ou desligar células cerebrais hiperativas ou hipoativas sem causar interferência nas estruturas celulares vizinhas.
Testes clínicos de fase 3 avançam em remédios para autismo
A identificação exata das redes biológicas permitiu que a indústria farmacêutica desenhasse substâncias direcionadas com base nas revelações da optogenética indireta. Deisseroth revelou que medicamentos que não pertencem à classe dos antipsicóticos concluíram a fase 2 de experimentos e avançam para a fase 3 de ensaios clínicos para amenizar quadros de irritabilidade no autismo e manifestações da esquizofrenia.
Atualmente, as opções médicas prescritas para conter episódios severos de agressividade e descontrole em pacientes autistas dependem de antipsicóticos potentes, que causam sedação intensa, ganho substancial de peso e alterações nos movimentos voluntários. A triagem facilitada pelo controle óptico removeu incertezas nos testes laboratoriais ao apontar com antecedência como os receptores neurais reagem aos novos compostos, o que viabilizou alternativas terapêuticas sem a carga severa de efeitos adversos comuns aos remédios tradicionais.
O princípio também serve de base para tentar refinar intervenções na doença de Parkinson, enfermidade degenerativa que provoca a perda progressiva de neurônios dopaminérgicos. Como essas vias celulares coordenam funções diversas no organismo humano, como planejamento motor, resposta a recompensas, mecanismos de lactação e o reflexo de vômito, os remédios convencionais baseados em reposição ampla de dopamina afetam circuitos saudáveis e produzem reações indesejadas, problema que as pesquisas ópticas pretendem remediar isolando apenas a rota do movimento.
Dados da premiação do Nobel de Medicina de 2026
- Anúncio oficial: segunda-feira, 5 de outubro de 2026, pela Assembleia do Nobel no Instituto Karolinska, na Suécia
- Valor total do prêmio: 12 milhões de coroas suecas, equivalentes a cerca de R$ 6,2 milhões, divididos igualmente em partes de um terço para cada pesquisador
- Laureados da edição: o americano Karl Deisseroth, da Universidade de Stanford e do Howard Hughes Medical Institute, e os alemães Peter Hegemann, da Universidade Humboldt de Berlim, e Georg Nagel, da Universidade de Würzburg
- Etapa de aplicação farmacêutica: fase 3 de ensaios clínicos com medicamentos não antipsicóticos formulados a partir do mapeamento genético celular
Pesquisa aguarda nomes de compostos e mira neurotecnologia
Os nomes comerciais específicos e as formulações químicas exatas dos medicamentos em teste na fase 3 clínica para irritabilidade no autismo e esquizofrenia não foram informados pelo pesquisador na entrevista concedida em Palo Alto, na Califórnia. A validação desses estudos clínicos definirá se as formulações serão aprovadas para uso pelos pacientes nos próximos anos.
Sobre a incorporação da luz a dispositivos de interface cérebro-computador, Deisseroth ponderou que as tecnologias vigentes ainda operam exclusivamente com registros e impulsos elétricos. Segundo o professor, a transição para métodos puramente ópticos dentro da neurotecnologia aplicada a aparelhos é uma possibilidade teórica real, mas sua implementação prática exigirá mais tempo de desenvolvimento laboratorial.
