Agência espacial japonesa adota circuito híbrido na sonda Hayabusa2

Representação artística da espaçonave Hayabusa2 passando perto da Terra - Reprodução/JAXA

Representação artística da espaçonave Hayabusa2 passando perto da Terra - Reprodução/JAXA

A sonda espacial Hayabusa2 terá componentes de dois motores danificados interligados para tentar restabelecer sua capacidade de propulsão no espaço profundo. A Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA) confirmou que o motor B, o único propulsor iônico que permanecia em pleno funcionamento, quebrou em meados de agosto de 2026 e não pôde ser reiniciado de forma direta.

O plano técnico prevê ativar uma operação cruzada a partir da segunda quinzena de outubro de 2026. A manobra emergencial busca garantir que o veículo espacial continue sua trajetória programada rumo ao asteroide 1998 KY26, cujo encontro está previsto para o ano de 2031.

Falha no motor B da Hayabusa2 e a estratégia de conexão cruzada

Para se locomover pelo Sistema Solar, a Hayabusa2 depende de quatro motores de íons por descarga de micro-ondas movidos a gás xenônio, identificados pelas letras A, B, C e D. Ao longo de sua trajetória de mais de uma década, três desses propulsores já haviam apresentado degradação severa ou defeitos graves. O motor B vinha sendo poupado durante as primeiras etapas de voo e serviu como o propulsor principal durante a missão estendida, operando de forma contínua em correções de órbita entre abril e julho de 2026 antes de parar totalmente.

Foto: Planeta e Japao no espaço – JAXA/NASA

Cada propulsor iônico da espaçonave necessita de dois elementos essenciais trabalhando em conjunto para gerar empuxo contínuo: uma fonte de íons e um neutralizador de carga. De acordo com a análise detalhada realizada pela agência espacial em Tóquio, a falha ocorrida em agosto de 2026 inutilizou a fonte de íons do motor B, mas o seu neutralizador permaneceu intacto. Nos motores C e D ocorre a situação inversa, já que os neutralizadores estão inoperantes, enquanto as fontes de íons continuam disponíveis para uso técnico.

Acompanhe: Hayabusa2 faz história ao atingir asteroide com laser a 18.000 km/h

Diante desse quadro, os engenheiros decidiram alternar os circuitos elétricos internos da espaçonave para acoplar o neutralizador do motor B diretamente à fonte de íons do motor D. Esse arranjo técnico cria um conjunto híbrido funcional no espaço, dispensando a necessidade de consertos físicos diretos no hardware e restabelecendo uma linha de empuxo para a sonda continuar sua navegação orbital.

Arquitetura de contingência herdada da primeira missão Hayabusa

A técnica de conexão cruzada entre propulsores iônicos conta com um precedente histórico na exploração espacial do Japão. A estratégia foi originalmente desenvolvida durante a primeira missão Hayabusa pelo professor emérito da JAXA Hitoshi Kuninaka. Naquela ocasião, falhas múltiplas nos propulsores quase inviabilizaram a viagem, mas o arranjo cruzado de emergência permitiu que a sonda pioneira retornasse com sucesso à Terra em 2010, trazendo partículas capturadas na superfície do asteroide Itokawa.

Diferentemente da missão predecessora, na qual a junção dos sistemas exigiu uma modificação emergencial de software e circuitos concebida sob pressão direta, a Hayabusa2 já incorporou essa funcionalidade em sua fase inicial de desenvolvimento. A equipe de engenharia utilizou a experiência adquirida com o primeiro veículo para integrar a fiação de comutação cruzada como uma contingência oficial na própria arquitetura elétrica do projeto antes do lançamento.

A presença desse sistema de reserva pré-instalado permite que a equipe em solo realize o redirecionamento de comandos por meio de telecomandos seguros enviados a partir de antenas na Terra. Os testes práticos programados para o fim de outubro de 2026 devem confirmar se a corrente elétrica e o fluxo de gás xenônio respondem conforme o esperado nos circuitos comutados.

Cronograma e dados técnicos da missão estendida da Hayabusa2

A Hayabusa2 alcançou marcas operacionais expressivas ao longo de sua trajetória no espaço profundo desde o lançamento no território japonês:

  • Lançamento espacial: 3 de dezembro de 2014, a partir do Centro Espacial de Tanegashima
  • Amostras recolhidas: 5,4 gramas de poeira e rochas entregues na Austrália em 6 de dezembro de 2020 após visitação ao asteroide Ryugu
  • Sobrevoo recente: aproximação bem-sucedida do asteroide Torifune (2001 CC21) completada em 5 de julho de 2026
  • Divulgação da falha no motor B: quinta-feira (1), em Tóquio
  • Manobra de assistência gravitacional na Terra: previsão para 1 de dezembro de 2027
  • Encontro científico com o asteroide 1998 KY26: chegada prevista para 1 de julho de 2031

Desgaste de 12 anos no espaço traz incertezas para 2031

A espaçonave completou cerca de 12 anos de operação contínua no ambiente espacial, tempo muito superior à sua vida útil nominal de projeto, originalmente calculada em seis anos para a viagem de ida e volta ao asteroide Ryugu. A prorrogação da jornada impôs um desgaste severo aos componentes eletrônicos, baterias e isolamentos térmicos da estrutura.

A JAXA ressalta que, mesmo que a operação cruzada restabeleça a propulsão iônica a partir do fim de outubro de 2026, ainda não há garantia de que a espaçonave conseguirá atingir o asteroide 1998 KY26 em 2031. Essa incerteza decorre da deterioração acumulada em outros sistemas de bordo do equipamento após mais de uma década exposto à radiação cósmica e a variações extremas de temperatura no vácuo.

O próximo passo prático da equipe japonesa consiste no envio das instruções de reconfiguração de telemetria e no acionamento de ignição do conjunto híbrido dos motores B e D na segunda quinzena de outubro de 2026.