Células ativas de Bacillus subtilis suportam condições da superfície de Marte

Mars Rover, Perseverance robô, missão planeta Marte Foto: Mars Rover, Perseverance robô, missão planeta Marte - Triff/ Shutterstock.com

Células metabolicamente ativas da bactéria Bacillus subtilis conseguem sobreviver por cinco dias sob as condições atmosféricas e térmicas da superfície de Marte. O resultado foi obtido por pesquisadores espanhóis em testes de laboratório realizados no campus de Torrejón de Ardoz, na Comunidade de Madri, na Espanha, com a comprovação de que os microrganismos geraram calor interno para suportar o frio extremo.

O experimento utilizou a câmara de simulação MARTE para reproduzir a rotina climática do planeta vizinho. Ao término do período, entre 11% e 12% da população bacteriana permaneceu viva sem recorrer à dormência biológica, utilizando vias metabólicas alternativas para gerar energia e manter a estrutura celular funcional.

Parâmetros ambientais da câmara MARTE na Espanha

  • Local do experimento: Centro de Astrobiologia (CAB, CSIC-INTA) e Instituto Nacional de Técnica Aeroespacial (INTA), em Torrejón de Ardoz, Espanha
  • Duração do ensaio: 5 sóis, correspondentes a cinco dias marcianos consecutivos
  • Variação térmica diária: 6 horas a 10 °C no período diurno e 18 horas a -15 °C no período noturno
  • Pressão atmosférica: 20 milibares
  • Composição dos gases: 100% de dióxido de carbono
  • Sobrevivência final observada: 11% a 12% da população celular ativa
  • Calor gerado por termogênese: 4 °C acima da temperatura ambiente interna
Marte
Foto: Marte -Alones/shutterstock.com

Bacillus subtilis ativa fermentação e calor interno contra o frio

A investigação liderada pela pesquisadora Andrea Hidalgo-Arias, primeira autora do estudo, e pela pesquisadora sênior Cristina Cid, ambas do Centro de Astrobiologia, analisou o comportamento de células vegetativas da bactéria. Diferentemente dos esporos, que funcionam como estruturas protetoras paralisadas até o retorno de condições favoráveis, as formas vegetativas mantêm atividade bioquímica contínua e demandam reações constantes para não morrer.

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Durante a passagem dos cinco sóis na câmara criada com a participação do pesquisador Jesús Manuel Sobrado, do Instituto Nacional de Técnica Aeroespacial, as culturas apresentaram uma temperatura cerca de 4 °C mais alta do que a média do compartimento. Esse diferencial térmico comprovou a existência de termogênese microbiana adaptativa provocada pela queima residual de energia no interior das células.

A equipe identificou também uma elevação acentuada na produção de proteínas ligadas à rota de fermentação. Por meio desse mecanismo, o microrganismo continua a gerar energia química mesmo diante de uma atmosfera composta inteiramente por dióxido de carbono, na ausência de oxigênio. As análises realizadas por microscopia eletrônica de varredura revelaram que os espécimes sobreviventes reduziram de volume e adquiriram uma parede celular mais rugosa, ajustes físicos que auxiliam na contenção de danos mecânicos causados pela baixa pressão de 20 milibares.

Descoberta científica sobre Bacillus subtilis e proteção espacial

O estudo, intitulado Adaptive thermogenesis and fermentation as survival strategies of vegetative cells of Bacillus subtilis under simulated Martian stressors, foi divulgado na revista Scientific Reports em 17 de agosto de 2026. A apresentação institucional detalhada pelo Instituto Nacional de Técnica Aeroespacial ocorreu na sexta-feira, 2 de outubro de 2026, com posterior difusão científica pela Agência SINC em 6 de outubro de 2026.

Testes anteriores já haviam indicado que esporos dormentes da espécie podiam suportar um ciclo diário marciano único, mas o comportamento de bactérias ativas mantidas por períodos prolongados sob baixa pressão e frio contínuo era desconhecido. A constatação de viabilidade celular por múltiplos dias consecutivos altera as avaliações sobre a capacidade de adaptação da vida microscópica terrestre em outros corpos celestes.

Os dados obtidos influenciam diretamente as regras internacionais estabelecidas pelo Comitê de Pesquisa Espacial, conhecido pela sigla COSPAR. O órgão formula normas de esterilização para equipamentos aeroespaciais com a finalidade de evitar a contaminação biológica cruzada de outros planetas e prevenir registros falsos de assinaturas biológicas em missões exploratórias conduzidas por sondas e veículos de pouso.

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Limitações da simulação e próximos passos da pesquisa

Os autores ressaltam que o ensaio em câmara não reproduziu o conjunto completo de barreiras encontradas na superfície de Marte. A resistência simultânea do microrganismo a outros agentes agressivos, como o impacto combinado da radiação ultravioleta diurna intensa e a ação química de sais oxidantes de perclorato presentes no solo marciano, ainda não foi avaliada de maneira conjunta com os ciclos de temperatura e pressão atmosférica testados.

A continuidade das investigações prevê a inserção gradual desses estressores químicos e radioativos adicionais para verificar se as células de Bacillus subtilis continuam capazes de sustentar o metabolismo fermentativo diante de todas as adversidades do regolito marciano.

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