Roque Santeiro nasceu de peça teatral censurada pela ditadura

José Wilker e Regina Duarte em Roque Santeiro - Reprodução/Globo

José Wilker e Regina Duarte em Roque Santeiro - Reprodução/Globo

O dramaturgo Dias Gomes adaptou a peça teatral O Berço do Herói para criar Roque Santeiro, substituindo a trajetória de um militar desertor pela história de um artesão de santos de barro na tentativa de escapar da censura da ditadura militar. O projeto original, barrado pelas autoridades federais em 1975, sustentava uma crítica direta às Forças Armadas antes de se transformar em uma sátira sobre a mercantilização da fé popular na fictícia cidade de Asa Branca.

A estrutura dramática que consolidou o sucesso da TV Globo em 1985 foi escrita originalmente em 1963. Na obra para o teatro, um soldado brasileiro considerado morto durante a Segunda Guerra Mundial abandonava o front na Itália e retornava secretamente ao seu município de origem, onde os habitantes lucravam politicamente com o mito de sua bravura. Na transposição para o formato de telenovela, a trama manteve a farsa da morte forjada, mas transferiu o foco da crítica do ambiente militar para o coronelismo e o comércio religioso.

A interceptação do SNI e o veto a Roque Santeiro em 1975

Foto: Roque Santeiro – Foto: reprodução TV Globo

A manobra textual planejada pelo autor foi descoberta pela ditadura poucas horas antes da data marcada para a estreia da primeira versão da novela, em 27 de agosto de 1975. O Serviço Nacional de Informações interceptou um telefonema entre Dias Gomes e o historiador Nelson Werneck Sodré no qual o dramaturgo detalhava que a narrativa televisiva era uma versão disfarçada do espetáculo proibido nos palcos uma década antes. O governo militar determinou o cancelamento imediato da transmissão, inutilizando todo o material já produzido pelos estúdios.

Para contornar o buraco repentino na grade noturna após o veto governamental, a emissora carioca precisou adotar medidas emergenciais. O canal exibiu um compacto de Selva de Pedra e encomendou às pressas o texto de Pecado Capital, escrito por Janete Clair, que reaproveitou cenários e os atores já contratados para a produção cancelada. Na ocasião, Dias Gomes explicou anos mais tarde, em depoimento à imprensa em 1996, o sentido das alterações feitas na trama: “O protagonista deixava de ser um ex-pracinha para ser um santeiro.”

Datas marcantes da trajetória de Roque Santeiro

  • 22 de julho de 1965: A peça O Berço do Herói é censurada horas antes da estreia no Teatro Princesa Isabel, no Rio de Janeiro.
  • 27 de agosto de 1975: A primeira versão da novela Roque Santeiro é proibida pela Censura Federal no dia previsto para ir ao ar.
  • 24 de junho de 1985: A versão definitiva da novela estreia no horário nobre da TV Globo, escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva.
  • 5 de outubro de 2026: A TV Globo reestreia Roque Santeiro na faixa vespertina Edição Especial, sucedendo Além do Tempo.

Mudanças de elenco e exibição definitiva de Roque Santeiro

Entre o veto de 1975 e a liberação formal da obra decorreram dez anos. A gravação inicial descartada pela Censura Federal contava com Francisco Cuoco no papel de Roque, Betty Faria como a Viúva Porcina e Lima Duarte como o fazendeiro Sinhozinho Malta. Com a reabertura política em 1985, a TV Globo retomou o projeto com modificações no elenco principal, escalando José Wilker como o falso mártir e Regina Duarte na pele de Porcina, mantendo apenas Lima Duarte no papel que desempenhara no material censurado.

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A peça de teatro original só chegou a ser encenada onze anos após sua interdição no Brasil, em uma montagem universitária realizada nos Estados Unidos em 1976. Na televisão aberta, a obra definitiva de 1985 passou por reprises em 1991 e entre 2000 e 2001. A reapresentação programada para 2026 marca a terceira exibição da história na emissora, estruturada em edição compacta com previsão de cerca de 150 capítulos e média inicial de 11 pontos na Grande São Paulo.

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