Usina de Furnas transformou vales rochosos nos cânions de Capitólio

Lago de Furnas - Divulgação/mar de minas

Lago de Furnas - Divulgação/mar de minas

Os cânions de Capitólio tornaram-se acessíveis a embarcações turísticas graças ao enchimento do reservatório da Usina Hidrelétrica de Furnas, que inundou antigos vales no sudoeste de Minas Gerais. O barramento erguido sobre o Rio Grande elevou a lâmina d’água entre paredões milenares de pedra, transformando gargantas terrestres em corredores navegáveis para lanchas e chalanas.

A imensidão hídrica que banha a região alcançou a alcunha de Mar de Minas por cobrir uma área de cerca de 1.440 km² no nível operacional máximo. “Furnas funciona como uma grande bateria hidráulica. Ela guarda água no período chuvoso e libera ao longo do ano. Cada metro cúbico que sai daqui gera energia em várias usinas em sequência”, afirmou o professor e especialista Carlos Barreira Martinez sobre o papel regulador desempenhado pelo reservatório.

Origem geológica e o projeto de Furnas sob Juscelino Kubitschek

As fendas rochosas do relevo de Capitólio não foram abertas pela represa, mas sim expostas e preenchidas por ela. O terreno é composto predominantemente por quartzito, uma rocha metamórfica resistente formada essencialmente por quartzo, cortada e entalhada pela erosão fluvial ao longo de eras geológicas. As paredes empinadas chegam a atingir 80 metros de altura em trechos isolados, com desfiladeiros que antes abrigavam apenas leitos estreitos de rios e cachoeiras distantes do alcance de barcos.

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A alteração definitiva dessa geografia ocorreu por decisão governamental durante a presidência de Juscelino Kubitschek, com o objetivo de conter o déficit crônico de eletricidade que ameaçava o parque fabril instalado no eixo Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. A empresa Central Elétrica de Furnas foi constituída em 28 de fevereiro de 1957 para executar a obra, sob a liderança do engenheiro John Reginald Cotrim, que assumiu a primeira presidência da estatal e coordenou os estudos técnicos para instalar o barramento no Rio Grande.

As obras civis começaram em 1 de junho de 1958, exigindo a construção de um maciço com 127 metros de altura e 550 metros de extensão entre os municípios de São José da Barra e São João Batista do Glória. A primeira unidade geradora iniciou operação comercial em 4 de setembro de 1963. Com a conclusão de oito turbinas, a usina alcançou 1.216 MW de capacidade instalada e uma represa com volume útil de 17,21 bilhões de m³, represando a água que submergiu os vales vizinhos e alcançou as fendas rochosas de Capitólio, município cuja população atingiu 10.380 habitantes no Censo Demográfico de 2022 do IBGE.

Datas que marcaram o represamento da Usina Hidrelétrica de Furnas

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  • 28 de fevereiro de 1957: fundação da empresa Central Elétrica de Furnas
  • 1 de junho de 1958: início efetivo das obras de engenharia da barragem no Rio Grande
  • 4 de setembro de 1963: entrada em operação comercial da primeira unidade geradora
  • 8 de janeiro de 2022: desprendimento de bloco de quartzito nos cânions turísticos
Capitólio, em Minas Gerais – Sidney de Almeida/istockphoto.com

Zoneamento geológico e restrições de segurança em Capitólio

A estrutura de quartzito que molda os cânions apresenta fraturas verticais naturais, característica que a deixa vulnerável a processos de intemperismo decorrentes de infiltração hídrica constante e chuvas torrenciais. Essa dinâmica geológica provocou uma tragédia em 8 de janeiro de 2022, quando uma placa de rocha se desprendeu do paredão, atingiu embarcações que realizavam passeios na fenda alagada e matou 10 pessoas.

Após o desabamento, a Prefeitura de Capitólio, sob a gestão do prefeito Cristiano Geraldo da Silva, implementou normas de zoneamento geológico, controle de fluxo e monitoramento nos pontos críticos do circuito navegável. As regras municipais limitam a aproximação em áreas suscetíveis a quedas de fragmentos rochosos e estabelecem restrições preventivas de circulação de lanchas durante períodos de precipitações intensas.

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A rotina turística também é diretamente influenciada pela sazonalidade meteorológica da região mineira. Os índices pluviométricos atingem médias de 280 milímetros em dezembro, no auge do verão, com temperaturas que variam de 19°C a 28°C. Já o inverno, de junho a agosto, é marcado por tempo estável e seco, registrando média de 11 milímetros de chuva em julho e temperaturas entre 13°C e 25°C, condições que favorecem passeios com menor interferência de enxurradas.

Ainda não há confirmação sobre a aplicação integral e definitiva da exigência de coletes salva-vidas e capacetes para todos os ocupantes em cada trecho de aproximação dos paredões, uma vez que medidas de flexibilização começaram a ser editadas pelo município com base em laudos geológicos pontuais.