Estudo com cuecas enterradas revela atividade do solo suíço

Cueca branca - Elena Babanova / shutterstock.com

Cueca branca - Elena Babanova / shutterstock.com

Um estudo com cuecas de algodão conduzido na Suíça revelou que o tipo de uso da terra determina a velocidade de degradação da matéria orgânica no solo. A análise apontou que jardins e hortas residenciais consumiram cerca de 58% do tecido em dois meses, enquanto os gramados registraram o menor índice de atividade biológica, com aproximadamente 40% de perda material.

O trabalho científico do projeto de ciência cidadã Beweisstück Unterhose, traduzido como Prova pela Cueca, foi conduzido pela Universidade de Zurique em conjunto com o instituto federal de pesquisas Agroscope e publicado na revista acadêmica Plants, People, Planet em 26 de agosto de 2026. A pesquisa mobilizou cerca de 1.000 voluntários que sepultaram vestimentas e recipientes de controle em aproximadamente 1.000 pontos do país europeu para mapear a vida microbiana invisível.

Resultados do projeto Beweisstück Unterhose em diferentes solos

A decomposição acelerada observada nas peças decorre da ação direta de fungos e microrganismos subterrâneos que se alimentam da celulose que compõe a fibra têxtil vegetal. Em ambientes agrícolas cultivados, a taxa média de decomposição do tecido atingiu aproximadamente 51%, ao passo que áreas de pastagens permanentes e prados registraram degradação próxima de 47% após o mesmo intervalo de soterramento.

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A degradação das peças ocorre porque microrganismos, bactérias e fungos presentes na terra consomem a celulose natural que compõe a fibra do algodão. Solos com maior quantidade de matéria orgânica, compostagem e umidade equilibrada aceleram a proliferação desses decompositores, justificando a taxa superior encontrada nas hortas domésticas. Em contrapartida, gramados compactados ou áreas com menor diversidade biológica registram uma atividade subterrânea reduzida, o que retarda o processo natural de reciclagem de nutrientes e a quebra de compostos orgânicos.

Os índices consolidados pelo levantamento em território suíço apontam os seguintes percentuais médios de degradação do algodão após 60 dias:

  • Jardins residenciais e hortas particulares: 58% do tecido decomposto
  • Campos agrícolas cultivados: 51% do tecido decomposto
  • Pastagens permanentes e prados: 47% do tecido decomposto
  • Gramados urbanos e residenciais: 40% do tecido decomposto

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Ciência cidadã na Suíça mobilizou voluntários e controle com chá

A coleta de informações em larga escala começou em 7 de abril de 2021, quando os pesquisadores distribuíram kits contendo mais de 2.000 peças íntimas padronizadas feitas integralmente de algodão e 12.000 saquinhos de chá. O material permaneceu enterrado durante o primeiro semestre de 2021, servindo os saquinhos de chá como parâmetro comparativo padronizado para checagem laboratorial.

Após o período de dois meses sob a terra, os participantes desenterraram os itens, registraram imagens fotográficas do estado das peças e enviaram o material residual acompanhado de amostras de terra aos laboratórios oficiais. A dimensão comunitária do estudo levou 240 cidadãos participantes a figurarem formalmente como coautores da publicação científica internacional assinada pelas instituições acadêmicas.

O professor titular de agroecologia na Universidade de Zurique e líder de grupo na Agroscope, Marcel van der Heijden, destacou as conclusões da amostragem em larga escala: “Nossos resultados mostram que o manejo do solo pode ter uma grande influência na vida e na qualidade do solo”, afirmou, em tradução livre.

Pesquisadores da Agroscope alertam sobre limites da decomposição do solo

Apesar de o desaparecimento do algodão sinalizar um ecossistema subterrâneo dinâmico, os pesquisadores alertam que a alta decomposição não deve ser interpretada como sinônimo isolado de solo perfeito. A presença excessiva de certos nutrientes químicos ou perturbações no habitat podem provocar acelerações atípicas que afetam o equilíbrio ecológico natural.

O pesquisador da Agroscope, colíder do projeto e primeiro autor do estudo, Franz Bender, ressaltou essa distinção biológica: “Uma decomposição máxima, no entanto, não é desejável em todos os ecossistemas”, declarou, em tradução livre. A iniciativa contou ainda com a coinvestigação de Pia Viviani, diretora da agência catta GmbH, e a coidealização do jornalista científico Atlant Bieri.

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Inspirado no projeto canadense Soil Your Undies criado por agricultores, o experimento foi adaptado cientificamente com rigorosas padronizações têxteis e análises químicas de laboratório para cada amostra enviada pela população. A relevância e a originalidade da abordagem renderam aos pesquisadores o Prêmio Ig Nobel de Ciência do Solo em 3 de setembro de 2026, durante uma cerimônia realizada no Kongresshaus Zürich, após a transferência excepcional do evento dos Estados Unidos por restrições de visto.

Os pesquisadores concluíram que o enterro de itens têxteis funciona como uma ferramenta pedagógica e comparativa para visualizar a atividade biológica, sem substituir as medições laboratoriais complexas de densidade e composição química do solo.