As florestas tropicais do planeta enfrentaram calor e estiagem sem precedentes durante o El Niño de 2023-2024, em um padrão que deve se consolidar como média climática rotineira a partir de 2043 se o ritmo global de emissões de gases de efeito estufa for mantido. O diagnóstico integra uma pesquisa internacional publicada na quarta-feira (7) na revista científica Earth’s Future, elaborada com base na análise de 16 milhões de quilômetros quadrados de cobertura vegetal e projeções de 24 modelos climáticos globais.
Durante o evento climático recente, cerca de 75% de toda a área florestal tropical do mundo registrou pelo menos seis meses simultâneos de temperaturas recordes e escassez severa de chuvas. Conforme o levantamento, a Amazônia desponta como a região mais exposta a essa transformação estrutural: em cenários de alta concentração de poluentes atmosféricos, a probabilidade de o bioma vivenciar secas tão severas quanto as de 2023 e 2024 aumentará em até nove vezes até 2100, atingindo a floresta inclusive em anos sem a presença do El Niño.
Quando o clima extremo vira o novo normal nas florestas tropicais?
Os modelos climáticos examinados no estudo apontam que o regime térmico e hídrico atípico observado no biênio recente se transformará no clima comum de todas as regiões tropicais em aproximadamente duas décadas. Sob cenários intermediários de liberação de gases poluentes, o ano de 2043 marca a virada na qual o estresse térmico antes visto como anômalo passa a ditar a média anual dos ecossistemas equatoriais.
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A ecologista Johanna Van Passel, pesquisadora da Universidade Ghent, na Bélgica, e visitante no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas, avaliou o peso dessas constatações sobre a dinâmica do planeta. “Durante o El Niño de 2023-2024, a área e a duração dos eventos de seca e de ondas de calor foram as maiores e mais extensas dos últimos 25 anos. Quando usamos os mesmos modelos para o futuro, podemos ver que a temperatura está aumentando. Estamos preocupados porque agora pode ser ainda pior, infelizmente”, afirmou a autora principal da pesquisa.
Mesmo na hipótese de cumprimento de metas rigorosas de neutralidade de carbono, em que o mundo alcance emissões líquidas zero de dióxido de carbono por volta de 2075, as temperaturas médias elevadas serão pelo menos seis vezes mais frequentes em todos os trópicos até o final do século. A estabilização dessas oscilações depende da velocidade com que governos e setores econômicos reduzirem o consumo de combustíveis fósseis e o desmatamento ao longo dos próximos anos.
Impacto da estiagem e colapso no estoque de carbono na Amazônia
O aquecimento contínuo altera diretamente o papel ecológico exercido pela vegetação tropical. Sob estresse hídrico e térmico prolongado, as matas sofrem colapso funcional e deixam de absorver gases estufa, passando temporariamente a emitir dióxido de carbono para o ar. Em vez de atuarem como sumidouros naturais que freiam o aquecimento da Terra, as árvores debilitadas liberam carbono acumulado pela biomassa por meio da decomposição acelerada e da perda de folhagem.
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Além da retenção de gases, a pesquisa identificou que cerca de 80% dos períodos de calor fora do padrão ocorreram exatamente durante a estação chuvosa. Esse descompasso estacional reduz a capacidade de transpiração das folhas e prejudica o balanço hídrico interno das espécies vegetais, potencializando os danos fisiológicos mesmo quando há alguma precipitação no solo regional.
O professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas Peter Groenendijk, especialista em dendroecologia e coautor do artigo, enfatizou a importância de mensurar esses fatores. “O El Niño é um dos grandes moduladores do clima global. Ao procurarmos entender seus impactos, podemos ter diversos outros desdobramentos para as florestas, como compreender mecanismos que levam à mortalidade das árvores”, explicou o docente.
Prazos e referências temporais analisados na projeção climática
- 2000 a 2024: período histórico de monitoramento observacional e de satélites usado como referência no estudo
- 7 de outubro de 2026: data de publicação formal do levantamento na revista Earth’s Future
- 2043: ano estimado pelos modelos para que as condições extremas virem a média anual de regiões tropicais
- 2075: prazo projetado no cenário otimista para o mundo atingir a emissão líquida zero de dióxido de carbono
- 2100: horizonte temporal limite avaliado pelas simulações globais de impacto ambiental
Registros numéricos confirmados nas florestas e rios brasileiros
- 75%: proporção global de florestas tropicais sob seca e calor simultâneos por ao menos seis meses em 2023-2024
- 9 vezes: aumento na probabilidade de secas severas na Amazônia até 2100 em cenários de alta emissão
- 16 milhões de km²: extensão territorial total de matas tropicais monitorada na base de dados
- 24: total de modelos climáticos globais empregados para projetar os cenários de emissões
- 38%: índice de ocupações humanas amazônicas com alta exposição à seca entre setembro e novembro de 2024
- Mais de 300: mortes confirmadas de botos em lagos aquecidos no estado do Amazonas durante a estiagem
Diferenças históricas do El Niño e danos nos ecossistemas
Os registros da Organização Meteorológica Mundial mostram que o ano de 2024 foi o mais quente já medido na história instrumental, superando a temperatura média da era pré-industrial em 1,55 °C, superando o patamar de 2023, que havia ficado 1,45 °C acima dessa marca histórica. Esse contexto térmico potencializou as consequências do El Niño recente sobre os biomas sul-americanos.
Nos últimos cem anos, eventos classificados tecnicamente como super El Niño ocorreram nos intervalos de 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016. Embora o episódio de 2023-2024 não tenha entrado formalmente nessa categoria de intensidade máxima do aquecimento marítimo superficial, os efeitos registrados na América do Sul foram mais profundos em decorrência do aquecimento basal da atmosfera.
Dados reunidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) comprovam que a Amazônia brasileira já enfrenta mudanças práticas condizentes com as projeções científicas: a estação seca habitual aumentou de quatro para até seis meses, o déficit hídrico ultrapassou o volume de 150 milímetros e os alertas de degradação da floresta cresceram 19% durante o biênio analisado.
Apesar dos diagnósticos severos sobre a mortalidade arbórea, os detalhes moleculares e fisiológicos específicos que explicam como a conjunção de calor e estiagem na estação chuvosa interrompe a circulação hídrica nos vasos do xilema continuam sob investigação científica em laboratórios no Brasil e no exterior.
