Fóssil de 168 milhões de anos achado na China explica amamentação

fóssil dinossauro - Frame Stock Footage/Shutterstock.com

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O fóssil do Megacauda sungei, parente extinto dos mamíferos que viveu há cerca de 165 a 168 milhões de anos, revelou a origem anatômica da sucção e da amamentação em estudo publicado na quarta-feira (7) na revista científica Nature. A descoberta ocorreu na região da Mongólia Interior, na China, e preservou estruturas ósseas da garganta e da sustentação do palato mole, partes moles que quase nunca resistem à fossilização.

As análises demonstraram que as adaptações mecânicas para separar a passagem de ar da deglutição e gerar pressão negativa para sugar leite materno já estavam presentes no período Jurássico Médio. Essa configuração corporal surgiu dezenas de milhões de anos antes da diferenciação dos grupos modernos de mamíferos, ampliando a compreensão sobre a transição evolutiva dos animais primitivos.

Como a garganta do Megacauda sungei funcionava durante a sucção?

Foto: Fóssil de sapo – Paula Karu/ Shutterstock.com

O espécime revelou elementos ósseos do aparelho hioide articulados de maneira idêntica aos suportes musculares observados em filhotes de mamíferos que mamam ativamente. Essa estrutura permitia vedar a cavidade bucal para criar vácuo contínuo, possibilitando que o animal ingerisse substâncias líquidas sem interromper a respiração pulmonar pelas vias nasais. Em répteis e ancestrais mais basais, essas duas funções utilizavam trajetos comuns, o que tornava a sucção eficiente inviável.

Para mapear os ossos escurificados no xisto sem destruir a rocha circundante, os cientistas recorreram a tecnologias de microtomografia computadorizada e espectroscopia de fluorescência de raios X. O exame digital tridimensional reconstituiu o assoalho da boca e a faringe do animal com precisão milimétrica, comprovando a existência física do suporte ósseo do palato mole em um organismo do Jurássico.

O paleontólogo Thomas Martin, professor da Universidade de Bonn e coautor da pesquisa, explicou a importância evolutiva dessas estruturas da cabeça para a linhagem biológica: “Foi essa adaptação que tornou possível o desenvolvimento do cérebro, levando eventualmente aos seres humanos. O palato mole e a formação da cavidade oral e da faringe estão diretamente ligados à evolução dos mamíferos”, afirmou, em tradução livre.

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Características biológicas do animal identificado na Mongólia Interior

  • Nome científico da espécie: Megacauda sungei, com homenagem ao paleontólogo chinês Sun Ge
  • Datação geológica: entre 163 e 168 milhões de anos atrás, durante o Jurássico Médio
  • Local do achado geológico: depósitos de rocha de xisto na Mongólia Interior, China
  • Classificação filogenética: clado Docodonta, integrado ao grupo dos Mammaliaformes
  • Massa corporal estimada: entre 1 e 2 quilogramas na fase adulta
  • Comprimento total estimado: cerca de 50 centímetros do focinho até o fim da cauda
  • Alimentação reconstituída: peixes, salamandras e invertebrados de água doce

Megacauda sungei apresentava corpo com cauda achatada e dentes cortantes

O Megacauda sungei fazia parte do clado Docodonta, grupo de mammaliaformes que viveu durante os períodos Jurássico e Cretáceo Inferior caracterizado por molares com cristas complexas de trituração. No caso da espécie chinesa, a dentição apresentava cúspides cortantes voltadas para agarrar e fatiar presas aquáticas escorregadias, indicando hábitos predatórios em rios e lagos da época.

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Com peso corporal estimado entre 1 e 2 quilogramas, porte comparável ao de um cão chihuahua, o Megacauda sungei media cerca de 50 centímetros de extensão e contava com uma cauda ampla e achatada. Essa conformação física sinaliza uma locomoção semiaquática altamente adaptada ao nado, comportamento raro entre os registros conhecidos para o Jurássico.

O paleontólogo Zhe-Xi Luo, professor da Universidade de Chicago e também coautor do estudo, detalhou a mistura de traços anatômicos do fóssil: “A metade traseira do Megacauda é mais semelhante à do ornitorrinco, entre todos os mamíferos. Mas o crânio e os dentes são análogos aos das lontras fluviais”, disse Luo, em tradução livre. O especialista lembrou ainda a raridade do material: “Os primeiros fósseis de mamíferos — de fato, eles são extremamente raros”, completou o professor, em tradução livre.

Preservação de ossos da faringe e a cooperação científica internacional

A recuperação de esqueletos jurássicos com a integridade morfológica da garganta é considerada excepcional pela comunidade acadêmica internacional. Enquanto dentes e mandíbulas endurecidas costumam suportar a fossilização em sedimentos finos, cartilagens e pequenos ossos suspensos da região cervical quase invariavelmente se desintegram ou se dispersam após a morte biológica, criando lacunas no estudo da deglutição antiga.

A investigação descrita na revista Nature foi conduzida por uma rede científica que reuniu especialistas da Universidade de Chicago, da Universidade de Bonn, da Universidade de Ohio, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Shandong e da Universidade Normal de Shenyang. Entre os autores principais estão os pesquisadores Zhe-Xi Luo, Thomas Martin, Peishu Li e Chang-Fu Zhou. A designação específica sungei foi atribuída em memória do paleontólogo chinês Sun Ge.

O ano exato em que os restos minerais foram recolhidos em campo por agricultores locais diverge entre os registros da pesquisa, que situam a coleta entre o fim de 2015 e o decorrer de 2016. As equipes laboratoriais mantêm em aberto a confirmação direta da existência de tecido glandular mamário no espécime, visto que glândulas não se fossilizam na rocha. A amamentação é inferida exclusivamente pela biomecânica craniocervical do animal, e novas escavações estratigráficas estão programadas para aprofundar os dados ambientais da formação geológica chinesa.