Tartaruga Jonathan tem 272 regiões genéticas jovens aos 194 anos

Jonathan The Tortoise - Instagram Foto: Jonathan The Tortoise - Instagram

O sequenciamento genético e epigenético da tartaruga Jonathan, estimada em 194 anos e considerada o animal terrestre vivo mais velho do planeta, revelou que 272 regiões promotoras do seu DNA conservam um nível de organização molecular idêntico ao de répteis jovens. O trabalho científico, conduzido por equipes de instituições dos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Dinamarca e Santa Helena, saiu na revista Science Advances na quarta-feira (7).

A pesquisa constatou que essas 272 áreas regulatórias controlam diretamente funções mitocondriais de geração de energia celular, mantendo índices mínimos de desordem química semelhantes aos observados em indivíduos de 5 e 12 anos da mesma espécie. Ao mesmo tempo, a maior parte do epigenoma de Jonathan exibe marcas avançadas de idade, o que comprova que o organismo do réptil sofreu a ação do tempo, mas preservou blindagens operacionais específicas.

Tartaruga Jonathan e a organização das marcas no epigenoma

A investigação focou no epigenoma, o sistema de marcas químicas que modula a ativação ou o silenciamento dos genes sem alterar a sequência estrutural de bases do DNA. Uma dessas principais marcas é a metilação, cuja distribuição tende a se desorganizar de forma progressiva conforme os tecidos envelhecem, fenômeno classificado pela ciência como entropia de metilação.

Stephen Clark, neuro-oncologista do Centro de Câncer Vanderbilt-Ingram, presidente da Fundação Kallel e autor sênior do artigo, explicou a dinâmica observada nos testes laboratoriais. “Entropia significa desordem. A metilação é uma marca química adicionada ao DNA que ajuda a regular como os genes são ligados e desligados”, declarou Stephen Clark. Ele completou sobre o quadro geral do animal: “Jonathan, nesse aspecto, parece muito velho”.

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Apesar do envelhecimento generalizado dos tecidos, a integridade das regiões que sustentam as mitocôndrias chamou a atenção da equipe de 22 autores. A preservação da produção de energia celular auxilia no reparo constante do DNA, na manutenção dos telômeros e na contenção de danos acumulados, impedindo a falência biológica precoce do animal.

Genética de Jonathan traz 287 variantes de proteção

O sequenciamento minucioso também apontou 287 variantes genéticas únicas em vias biológicas cruciais da espécie Aldabrachelys gigantea. Essas mutações exclusivas atuam no reparo de danos cromossômicos, na atenuação de inflamações sistêmicas, na regulação da insulina e no bloqueio ao desenvolvimento de tumores malignos.

A geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, analisou os resultados e pontuou a relevância do método aplicado. “A diferença entre você ver só o DNA e ver o epigenoma é que na metilação você vê a expressão, como os genes se expressam, se estão ativos ou silenciados”, afirmou Mayana Zatz.

O coautor Justin Gerlach, pesquisador do Peterhouse na Universidade de Cambridge, também ressaltou o papel do espécime para o entendimento do tempo biológico. “Há poucas criaturas que poderiam nos dizer mais sobre o envelhecimento do que as tartarugas gigantes das ilhas Galápagos e Seychelles. Trabalhar com uma tartaruga gigante realmente velha é um grande privilégio: você tem a sensação de que a tartaruga é sua colaboradora, não seu objeto de estudo”, afirmou Justin Gerlach, em tradução livre.

Procedimentos e histórico de Jonathan em Santa Helena

Para conseguir o material genético sem colocar a integridade de Jonathan em risco, a equipe médica descartou a extração invasiva de sangue. O veterinário Joe Hollins, profissional aposentado da Divisão de Agricultura e Recursos Naturais de Santa Helena, simulou uma sessão de alimentação pela manhã para raspar suavemente a mucosa bucal do animal, evitando a presença de resíduos de plantas.

Para obter leituras complementares de fita longa de DNA que a raspagem não cobria, os pesquisadores recorreram a Tank, uma tartaruga sob cuidados humanos de 36 anos, utilizada como matriz comparativa de alta resolução. O projeto científico recebeu aporte de US$ 50 mil do Stephen Voland Research Fund para custear as análises de bancada.

  • 1832: ano estimado do nascimento de Jonathan nas ilhas Seychelles.
  • 1882: ano em que a tartaruga desembarcou na ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul.
  • 2017: ano em que Stephen Clark requisitou a coleta biológica na ilha para dar início aos testes.
  • 7 de outubro de 2026: data de publicação formal do artigo na revista Science Advances.

Histórico de Jonathan na Plantation House e expectativa de vida

A espécie Aldabrachelys gigantea apresenta expectativa média de vida situada entre 80 e 100 anos em ambiente natural. Jonathan superou essa marca típica em quase um século, pesando cerca de 204 kg e vivendo nos gramados da Plantation House, residência oficial do governador de Santa Helena. Embora tenha perdido a visão devido a cataratas e não apresente mais olfato, o réptil mantém audição plenamente funcional e rotina estável no local.

Ainda não está comprovado causalmente se a baixa desordem nas regiões promotoras mitocondriais é o mecanismo que gera a longevidade incomum da tartaruga ou se atua apenas como uma consequência secundária do seu organismo estável. O próprio Stephen Clark ponderou o estágio da análise: “Não sabemos se isso é o que o mantém jovem ou se é apenas uma consequência”.

A Fundação Kallel planeja utilizar o mapeamento das 272 regiões promotoras para conduzir testes com fármacos já aprovados, a exemplo da rapamicina. O objetivo da entidade sem fins lucrativos é identificar compostos capazes de desacelerar o desgaste epigenético mitocondrial e tentar estender os anos de vida saudável em seres humanos.

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