Tubarão-branco atacou toninha viva no litoral do Rio Grande do Sul

Tubarão-branco - Al Carrera / shutterstock.com

Tubarão-branco - Al Carrera / shutterstock.com

O ataque predatório de um tubarão-branco contra uma toninha viva foi registrado pela primeira vez no Atlântico Sul após a análise forense de marcas de mordida em uma carcaça encalhada no Rio Grande do Sul. O caso inédito de interação biológica entre as duas espécies na costa brasileira foi documentado em estudo publicado no periódico internacional Wildlife Research em 5 de agosto de 2026.

A investigação foi conduzida pelo pesquisador principal Walter Nisa-Castro-Neto, biólogo da organização PRÓ-SQUALUS, ao lado do pesquisador Paulo Guilherme Carniel Wagner, da mesma instituição, e da pesquisadora Patricia Charvet, vinculada à Universidade Federal do Ceará. Os especialistas examinaram a carcaça de uma fêmea adulta de toninha encontrada na praia do município de Capão da Canoa, no litoral norte gaúcho.

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Marcas de mordida da carcaça examinada em Capão da Canoa

A carcaça da toninha adulta, medindo 1,72 metro de comprimento total, apresentava três conjuntos distintos de marcas provocados por dentes afiados. Para identificar com precisão a espécie responsável pelo ferimento e calcular o seu porte biológico, a equipe de cientistas avaliou detalhadamente as dimensões das marcas corporais, a morfologia da mordida, o alinhamento cicatricial e o formato dentário por meio de imagens computorizadas processadas no software TPSdig.

Foto: Tubarão Branco – Joe Belanger / shutterstock.com

Os sinais evidentes de hemorragia detectados no tecido da nadadeira dorsal comprovaram que a toninha sofreu o ferimento enquanto ainda estava viva, o que confirmou a caça ativa abaixo da linha da água e descartou a hipótese de necrofagia, quando o predador apenas consome um animal já morto boiando ou encalhado. Esse detalhe fisiológico foi determinante para atestar que o cetáceo se tornou alvo de uma perseguição alimentar em águas marinhas costeiras antes de sucumbir e ser levado em direção à faixa de areia pela corrente oceânica.

As análises morfométricas apontaram que a mordida principal possuía uma circunferência de mandíbula superior correspondente a 60,3 centímetros, padrão anatômico compatível de forma exclusiva com a dentição de um tubarão-branco. Os dados estimaram que o predador possuía entre 3,6 metros e 3,8 metros de comprimento corporal total e pesava de 400 quilos a 490 quilos no momento da investida.

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Dados biométricos do ataque de tubarão-branco

  • Comprimento total estimado do tubarão-branco: entre 3,6 metros e 3,8 metros
  • Peso corporal estimado do predador: entre 400 quilos e 490 quilos
  • Comprimento total da toninha adulta analisada: 1,72 metro
  • Circunferência de mordida da mandíbula superior no golfinho: 60,3 centímetros
  • Proporção do bico da toninha em relação ao corpo: 15% do comprimento total
  • Tempo decorrido entre a morte do animal e o encalhe na areia: de 3 a 5 dias

Vulnerabilidade da toninha nas águas do Atlântico Sul

A toninha, identificada cientificamente como Pontoporia blainvillei e popularmente apelidada de golfinho-fantasma devido à sua raridade, representa a espécie de cetáceo mais ameaçada de extinção em todo o Atlântico Sul Ocidental. Distribuído do litoral sul do Brasil até águas marinhas do Uruguai e da Argentina, o animal pertence à linhagem evolutiva dos golfinhos de rio, sendo o único representante vivo desse grupo adaptado exclusivamente a habitats marinhos costeiros, mantendo como parente mais próximo o boto-cor-de-rosa da Amazônia.

A fisionomia do animal se destaca pelo rostro alongado, no qual o bico representa cerca de 15% do comprimento total do corpo, a proporção mais extensa observada entre todas as espécies de golfinhos conhecidas pela ciência marinha. Por se tratar de um mamífero aquático esquivo e severamente vulnerável à degradação ambiental e à captura acidental em redes de pesca costeiras, qualquer informação extraída de exemplares encontrados mortos amplia a compreensão sobre a dinâmica ecológica e as rotas de sobrevivência dessa fauna.

Registro ecológico do tubarão-branco na costa brasileira

Avistamentos, capturas e evidências diretas de alimentação de tubarões-brancos, da espécie Carcharodon carcharias, são considerados ocorrências raras em toda a costa marítima do Brasil. O achado adiciona informações relevantes sobre os hábitos alimentares e as rotas de deslocamento do predador de topo de cadeia nas águas territoriais do país, indicando que a espécie frequenta o litoral sul e caça ativamente mamíferos marinhos nessa faixa do oceano.

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Os pesquisadores ressaltaram na publicação que tanto a população da toninha quanto os contingentes globais de tubarão-branco enfrentam declínio contínuo em seus ambientes naturais, o que torna registros dessa natureza ainda mais valiosos para o mapeamento da biodiversidade marinha regional.

A data exata do dia em que a carcaça da toninha foi recolhida pela primeira vez pelos pesquisadores na faixa de areia de Capão da Canoa não foi divulgada na documentação da pesquisa, que manteve o foco na verificação forense das marcas predatórias.