Biossensor da Diasci detecta câncer de pâncreas, pulmão e cérebro em gota de sangue

Conceito de verificação de câncer, médico

Conceito de verificação de câncer, médico - Deemerwha studio/shutterstock.com

Um biossensor portátil desenvolvido por pesquisadores da startup brasileira Diasci é capaz de identificar sinais biológicos de câncer de pâncreas, cérebro e pulmão a partir de uma única gota de sangue. O equipamento funciona de forma semelhante aos medidores portáteis de glicemia usados por diabéticos, combinando técnicas de nanotecnologia e biópsia líquida para fornecer uma resposta rápida sobre a presença de alterações celulares.

A tecnologia foi apresentada na terça-feira (6 de outubro de 2026) pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que financia o projeto por meio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), em conjunto com o Sebrae Startups. O dispositivo foi desenhado para atuar na triagem inicial de pacientes na atenção primária da saúde, sem o objetivo de substituir procedimentos invasivos convencionais, como a biópsia de tecido retirado cirurgicamente.

Biossensor da Diasci funciona como medidor eletroquímico de glicose

O funcionamento do equipamento baseia-se na aplicação da gota de sangue sobre uma fita com eletrodos descartáveis preparados em laboratório. Ao entrar em contato com os biomarcadores específicos secretados pelas células tumorais, a superfície do eletrodo desencadeia uma reação química imediata. Essa alteração gera uma corrente elétrica mensurável, lida instantaneamente pelo aparelho portátil para indicar se há padrão compatível com a presença das neoplasias investigadas.

Foto: sangue – spawns/Istock.com

A metodologia foca em tumores de comportamento silencioso e agressivo, cujos sintomas clínicos costumam se manifestar apenas quando a doença já atingiu estágios avançados no organismo. Moléculas ligadas ao desenvolvimento dessas lesões podem circular na corrente sanguínea de 5 a 10 anos antes de qualquer tumor primário se tornar visível em exames tradicionais de imagem, como tomografias computadorizadas e ressonâncias magnéticas. A identificação antecipada dessas substâncias possibilita a investigação médica imediata e eleva as chances de sucesso das intervenções oncológicas.

Além da função inicial voltada ao diagnóstico precoce, os cientistas observaram que a medição eletroquímica seriada pode auxiliar no acompanhamento da resposta terapêutica em pacientes já diagnosticados. Segundo a pesquisadora líder do projeto, Daniela Silvestrini Fernandes, que atua como cofundadora e diretora executiva da Diasci, a ferramenta permite monitorar a eficiência de terapias de precisão.

“No início, falávamos apenas em diagnóstico, mas hoje avaliamos também o monitoramento de pacientes em tratamento com medicamentos-alvo. Exames recorrentes podem indicar se a medicação realmente está sendo efetiva”, afirmou Daniela Fernandes.

Leia também: Câncer de mama e quimioterapia exigem cuidados odontológicos antes do início dos ciclos

Custo de US$ 50 no biossensor contrasta com valores do PET-CT

O teste portátil foi orçado com valor final estimado entre US$ 40 e US$ 50 por análise, valor que engloba a fita de eletrodo descartável, os reagentes químicos necessários para a leitura e a emissão do laudo técnico. A proposta dos pesquisadores é oferecer uma opção de triagem economicamente acessível para postos de saúde e ambulatórios municipais, descentralizando a busca ativa por lesões malignas.

Hoje, o rastreamento detalhado de tumores no país depende em larga escala de exames complexos de imagem, a exemplo da tomografia por emissão de pósitrons associada à tomografia computadorizada (PET-CT). Na rede privada de saúde brasileira, o preço médio aproximado de um procedimento PET-CT gira em torno de R$ 3,5 mil. Já na tabela do Sistema Único de Saúde (SUS), o valor de repasse fixado para a realização desse mesmo exame é de R$ 2.107,22, o que restringe a oferta a centros hospitalares de referência nas capitais e grandes cidades.

A estimativa de incidência divulgada pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) aponta 704 mil novos casos anuais da doença no Brasil. Diante desse volume, o modelo descentralizado busca reduzir as filas de espera e evitar o deslocamento prolongado de usuários até hospitais terciários.

Parceria do biossensor com o Icesp e edital da Anvisa

A validação do dispositivo ocorre por meio de uma cooperação científica formalizada com o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). Os ensaios analíticos e clínicos utilizam amostras biológicas de voluntários e pacientes sob coordenação de Roger Chammas, professor titular de Oncologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e coordenador do Centro de Investigação Translacional em Oncologia da instituição hospitalar.

“O Icesp nos abriu as portas quando tínhamos apenas uma ideia e um sonho, e é fundamental nessa construção conjunta”, declarou a pesquisadora Daniela Fernandes ao destacar o papel da instituição na verificação da sensibilidade das medições.

Acompanhe: Câncer de mama garante dispensa de carência em auxílios do INSS

O desenvolvimento da ferramenta também foi selecionado para participar de um edital-piloto promovido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O programa governamental é voltado a apoiar a regulação de dispositivos médicos inovadores criados no país, com foco em acelerar a adequação técnica necessária para certificação sanitária e produção em escala industrial.

Dados técnicos e parâmetros do biossensor da Diasci

  • Custos comparativos: US$ 40 a US$ 50 no teste portátil contra R$ 2.107,22 na tabela SUS do PET-CT e R$ 3,5 mil na rede particular
  • Janela temporal de rastreamento: moléculas tumorais detectáveis no sangue de 5 a 10 anos antes de ficarem visíveis em exames de imagem
  • Localização da pesquisa: Supera Parque de Inovação e Tecnologia em Ribeirão Preto e unidades do Icesp na cidade de São Paulo
  • Equipe responsável: Daniela Silvestrini Fernandes (CEO), Cristiano Ceron Jayme (CTO) e Roger Chammas (FM-USP/Icesp)
  • Prazo alfandegário: 60 dias úteis para liberação de componentes biológicos importados, impulsionando a nacionalização dos eletrodos

Como a Diasci estruturou o projeto no interior paulista

A Diasci iniciou as atividades em 2022, estruturada a partir da colaboração entre Daniela Silvestrini Fernandes e o pesquisador Cristiano Ceron Jayme durante o período em que ambos realizavam pós-doutorado na Universidade de São Paulo. A sede da empresa opera incubada no Supera Parque de Inovação e Tecnologia, complexo situado no município de Ribeirão Preto, no interior paulista.

Um dos gargalos identificados durante os trabalhos experimentais envolve a dependência de insumos internacionais. O prazo médio de 60 dias úteis exigido nos trâmites alfandegários para a entrada de insumos biológicos importados motivou a equipe a formular uma estratégia paralela para nacionalizar a fabricação dos eletrodos, com objetivo de reduzir custos fabris e evitar paralisações de cronograma.

Confira também: Câncer colorretal atinge jovens sem histórico familiar em 80% dos casos

As modalidades vigentes de biópsia líquida autorizadas no Brasil e no exterior dependem de maquinário pesado para sequenciamento genético e apresentam custos elevados por amostra. A aplicação de sensores eletroquímicos compactos visa contornar essa exigência de infraestrutura especializada, possibilitando a coleta e o resultado preliminar em Unidades Básicas de Saúde (UBSs).

Quando o teste estará disponível?

A tecnologia permanece na fase de estudos pré-clínicos e validação analítica com amostras laboratoriais. A expectativa apresentada pelos fundadores da startup indica que a conclusão de todas as etapas de validação clínica em ambiente hospitalar ocorra até 30 de junho de 2027.

Ainda não se sabe qual será o cronograma definitivo para a oferta comercial do biossensor na rede pública do SUS após o término dessa etapa experimental. A incorporação do exame à rotina de atendimento aos pacientes depende de validações prospectivas em larga escala nos hospitais, do registro definitivo do produto na Anvisa e de avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).