JAC Motors enfrenta novo pedido de recuperação judicial em São Paulo

JAC Motors

JAC Motors - Pavel Shlykov / Shutterstock.com

A representante da JAC Motors no Brasil, o Grupo SHC, protocolou na Justiça de São Paulo um novo pedido de recuperação judicial para renegociar passivos acumulados de R$ 239,5 milhões. A medida atinge diretamente 44 empresas administradas pelo empresário Sérgio Habib e ocorre 17 meses após o encerramento do primeiro processo de recuperação do conglomerado, concluído em maio de 2025.

O recurso ao Judiciário, formalizado na terça-feira (6), foi apresentado após tentativas frustradas de repactuação financeira privada com credores para preservar os compromissos fora do âmbito judicial. Em meio às tratativas, instituições financeiras apontaram entraves para localizar e apreender automóveis concedidos pelo grupo como garantia contratual em operações de crédito.

Queda de vendas e retração na rede da JAC Motors

A crise financeira do grupo foi acompanhada por uma desaceleração profunda no volume de emplacamentos no mercado nacional. No acumulado de 2025, os registros de veículos de passeio e comerciais leves da marca despencaram 51,1%, somando 988 unidades ao longo de 12 meses, frente aos 2.022 veículos emplacados em 2024. O recuo expressivo ocorreu na contramão da média do setor automotivo brasileiro, que registrou expansão de 2,58% no mesmo período.

Acompanhe: Crise econômica impulsiona pedidos de recuperação judicial de Habib’s, Casas Bahia e Grupo Toky

Diante do desaquecimento das vendas e dos custos das instalações, a distribuidora reduziu sua estrutura comercial física a três concessionárias ativas no país. A operação foi reorganizada para concentrar os canais de atendimento nas plataformas digitais e em chamadas telefônicas, enquanto a assistência técnica e as revisões periódicas passaram a ser transferidas integralmente para uma base de oficinas mecânicas credenciadas em diferentes cidades brasileiras.

Indicadores operacionais e financeiros da crise da JAC Motors

  • R$ 239,5 milhões em débitos totais arrolados no pedido atual de recuperação
  • 44 empresas sob controle de Sérgio Habib incluídas no processo
  • R$ 100 milhões em créditos detidos por uma única instituição bancária
  • 988 veículos de passeio e utilitários leves emplacados no país durante 2025
  • 51,1% de redução nos emplacamentos na comparação entre 2024 e 2025
  • 17 meses de intervalo entre a saída da recuperação anterior e a nova ação
  • 119 unidades do modelo elétrico E-JS1 comercializadas no primeiro semestre de 2026
  • 35% de alíquota em vigor para o Imposto de Importação sobre modelos eletrificados

Histórico do Grupo SHC e reestruturação anterior

Esta é a segunda vez que a controladora da marca chinesa busca a proteção da Justiça para evitar a falência de suas operações. O primeiro pedido de recuperação judicial foi protocolado pelo Grupo SHC em 1 de novembro de 2018, com um endividamento consolidado de R$ 517,7 milhões. Naquela fase, as justificativas centrais foram as restrições tributárias impostas pelo regime do Inovar-Auto sobre modelos importados, as fortes variações da moeda estrangeira e a rescisão de um contrato histórico de 28 anos de representação da Citroën no Brasil.

Leia também: Dívida de R$ 265,2 milhões leva Grupo Habib’s a pedir recuperação judicial

O plano inicial de pagamento foi homologado em 30 de setembro de 2019, mas a sentença judicial que determinou o cumprimento das obrigações e encerrou a tramitação foi emitida apenas em 31 de maio de 2025. O desembarque inicial da montadora no mercado brasileiro havia ocorrido em 18 de março de 2011, com uma campanha promocional que marcou a abertura de 50 lojas simultâneas e a promessa de construção de um polo fabril próprio de R$ 1 bilhão em Camaçari, na Bahia, projeto fabril que nunca se concretizou.

Continue lendo: Vasco terá antecipação de pagamentos da recuperação judicial garantida por Lamacchia

Mercado de eletrificados e pressões competitivas na JAC Motors

A partir de 2019, a fabricante tentou reformular o catálogo de produtos no Brasil com ênfase na oferta de utilitários e veículos totalmente movidos a eletricidade, introduzindo modelos como o subcompacto urbano E-JS1. Contudo, a estratégia perdeu espaço com o desembarque em grande escala de concorrentes orientais no segmento de eletrificados e as mudanças na política tributária nacional para veículos verdes importados.

De acordo com Nicolas Habib, CFO e Chief Operating Officer da JAC Motors Brasil, o retorno gradual da cobrança da taxa alfandegária até o teto de 35% inviabilizou os planos comerciais para novos compactos que haviam sido homologados para o país. As dificuldades ficaram visíveis no primeiro semestre de 2026, período em que o principal modelo a bateria da marca computou 119 unidades emplacadas em todo o território nacional.

Andamento judicial do processo da JAC Motors

A petição inicial apresentada em 6 de outubro de 2026 aguarda análise judicial. O magistrado responsável pela vara cível competente de São Paulo ainda não proferiu a decisão liminar sobre o deferimento do processamento da recuperação judicial requerida pelo conglomerado automotivo.

Além da pendência da avaliação dos documentos apresentados pelo corpo jurídico da empresa, não há confirmação sobre a manutenção do calendário de lançamentos de veículos no país, que previa a apresentação do utilitário esportivo JS8 Pro de sete lugares em novembro de 2026.