O Lago Salda, situado na província de Burdur, no sudoeste da Turquia, concentra depósitos minerais e estruturas rochosas idênticos aos identificados na Cratera Jezero, em Marte. A formação geológica serve como o laboratório natural mais próximo na Terra para guiar os cientistas da Nasa na análise de dados e na busca por possíveis vestígios biológicos preservados no solo marciano.
A correspondência com o terreno marciano decorre da presença predominante de hidromagnesita, um mineral carbonato rico em magnésio que recobre as margens e a faixa costeira do manancial turco. O composto é quimicamente igual ao material detectado por sondas espaciais orbitais ao redor da bacia marciana, que abrigou água líquida e sistemas de deltas fluviais há cerca de 3,5 bilhões de anos.
Leia também: Rover Perseverance revela que unidade Margin em Marte nasceu do magma
Mineralogia do Lago Salda reproduz bacia marciana
As características físicas e químicas do Lago Salda chamaram a atenção de agências espaciais devido ao ambiente aquático alcalino. Sob essas condições, o magnésio precipita na forma de hidromagnesita, resultando em sedimentos claros que cobrem a linha costeira e criam um contraste com a água em tons azulados, cenário que rendeu ao local o apelido de Maldivas da Turquia. No território marciano, a Cratera Jezero possui 45 quilômetros de diâmetro e exibe as mesmas assinaturas espectrais de carbonatos concentradas em suas margens antigas.
Além da composição dos sedimentos, o lago turco abriga microbialitos, formações rochosas bioconstruídas por comunidades de microrganismos, como cianobactérias. Essas estruturas prendem partículas minerais à medida que crescem e conseguem conservar bioassinaturas ao longo de períodos geológicos extensos. A presença desses fósseis vivos transforma a região em um modelo direto para os estudos sobre como microfósseis poderiam ter se mantido intactos na crosta marciana caso a vida tenha existido no passado daquele planeta.
Pesquisadores da Nasa estudam margens do Lago Salda
O trabalho conjunto para investigar a área começou antes da chegada de veículos espaciais ao solo marciano. Pesquisadores da Nasa e da Universidade Técnica de Istambul realizaram expedições de campo às margens do manancial na Turquia em agosto de 2019. A equipe foi liderada pela cientista planetária Briony Horgan, professora da Universidade Purdue e integrante da missão Mars 2020 Perseverance. A missão técnica serviu para coletar sedimentos, mapear a precipitação mineral e definir estratégias de amostragem que seriam aplicadas em Marte.
Na ocasião dos trabalhos preparatórios, o então administrador associado do Diretório de Missões Científicas da Nasa, Thomas Zurbuchen, destacou o valor comparativo da região turca para as investigações espaciais. Em declaração concedida durante os estudos, em tradução livre do inglês, o gestor afirmou que o reservatório serviria como uma referência valiosa para investigações e aprendizado científico: “Quando encontrarmos algo com o Perseverance, poderemos voltar a olhar para o Lago Salda para analisar os dois processos, observando semelhanças, mas com igual importância as diferenças que realmente existem entre o Perseverance e o Lago Salda”.
Cronologia e dados de referência das pesquisas no Lago Salda
Veja também: Robô Perseverance da NASA acha rocha ígnea com registro de água em Marte
- 1 de agosto de 2019: cientistas da missão Mars 2020 e da Universidade Técnica de Istambul realizam expedição de campo e amostragem de sedimentos no Lago Salda
- 18 de fevereiro de 2021: pouso do veículo explorador Perseverance na Cratera Jezero, em Marte
- Agosto de 2024: inclusão oficial do manancial na lista dos 100 Sítios de Patrimônio Geológico Mais Importantes do Mundo pela União Internacional de Ciências Geológicas
- 9 de outubro de 2026: publicação de levantamento técnico ressaltando a correlação mineralógica entre a bacia turca e Marte
- 196 metros: profundidade máxima registrada no Lago Salda, configurando uma das maiores medidas em lagos turcos
- 45 quilômetros: extensão do diâmetro estimado da Cratera Jezero no relevo de Marte
- 3,5 bilhões de anos: idade estimada do período em que a bacia de Jezero conteve água líquida em atividade contínua
Reconhecimento internacional do sítio geológico do Lago Salda
A importância do manancial turco ultrapassa as fronteiras da astrobiologia e alcança o patrimônio científico internacional. A preservação contínua dos processos de deposição de hidromagnesita e a integridade de suas colônias microbianas motivaram a União Internacional de Ciências Geológicas, órgão ligado à Unesco, a incorporar o local em agosto de 2024 à lista seleta dos 100 sítios de patrimônio geológico mais relevantes do planeta. O reconhecimento reforça o controle sobre as margens da bacia para evitar alterações no equilíbrio químico de suas águas.
Com profundidade máxima de 196 metros, o lago figura entre os mais profundos de toda a Turquia e mantém o ciclo de precipitação carbonática ativo. O monitoramento contínuo das variações físico-químicas em suas águas permite que especialistas compreendam como lagos fechados evoluem ao longo de milênios, gerando parâmetros para comparar as rochas terrestres com as camadas sedimentares que o rover Perseverance perfura e cataloga no hemisfério norte marciano.
Etapas seguintes na comparação entre Salda e a Cratera Jezero
Apesar da idêntica composição mineralógica confirmada entre as duas regiões, ainda não há confirmação de que os depósitos carbonáticos encontrados na Cratera Jezero tenham origem biogênica comparável aos microbialitos gerados por bactérias no Lago Salda. A verificação definitiva sobre se os carbonatos marcianos foram moldados por processos biológicos ou apenas por reações químicas inorgânicas depende do envio das amostras coletadas pelo robô à Terra para análises laboratoriais aprofundadas.
O planejamento científico prevê o prosseguimento do cruzamento de informações obtidas pelos instrumentos analíticos do veículo Perseverance diretamente com os modelos deposicionais registrados em Burdur. As próximas fases das investigações concentram-se em mapear as variações de textura nas bordas da cratera marciana para checar se padrões de crescimento semelhantes aos das colônias microbianas turcas ocorrem nos núcleos de rocha lacrados pelo explorador espacial.
