Oxfam aponta que 1% mais rico reteve 82% da riqueza gerada no mundo

Dólar, notas de cem dólares - New Africa/ shutterstock.com

Dólar, notas de cem dólares - New Africa/ shutterstock.com

Um levantamento da organização não governamental Oxfam demonstrou que o 1% mais rico da população mundial absorveu 82% de toda a riqueza gerada no planeta em 2017. O resultado evidenciou a paralisação financeira da base da pirâmide socioeconômica, já que 3,7 bilhões de pessoas, equivalentes à metade mais pobre da humanidade, não obtiveram nenhum ganho patrimonial no período.

O documento intitulado ‘Recompensem o trabalho, não a riqueza’ foi apresentado em Davos, na Suíça, antes do início dos debates com chefes de Estado e empresários. A entidade registrou que o planeta passou a produzir um novo bilionário a cada dois dias entre março de 2016 e março de 2017, atingindo a marca recorde de 2.043 pessoas nessa faixa patrimonial, ao mesmo tempo em que a remuneração média da classe trabalhadora global permaneceu estagnada.

Leia também: Sete tecnologias emergentes transformam rotinas e residências em 2026

“O boom de bilionários não é sinal de uma economia próspera, mas um sintoma do fracasso do sistema econômico”, afirmou Winnie Byanyima, então diretora executiva da Oxfam Internacional, ao defender medidas urgentes de distribuição tributária e contenção de privilégios financeiros mantidos por governos ao redor do mundo.

Divisão desigual dos ganhos e o abismo na economia global

Foto: Bandeira EUA, dólar – J.J. Gouin/shutterstock.com

A formulação do diagnóstico econômico contou com dados da lista de bilionários da revista Forbes e estatísticas consolidadas no relatório global de riqueza do banco Credit Suisse, indicando a rotação de recursos que acelerou a disparidade financeira após crises sucessivas no mercado internacional. Ao cruzar o fluxo anual de capital com as condições laborais nos países emergentes e desenvolvidos, a organização constatou que o enriquecimento acelerado de setores de ponta ocorreu paralelamente ao congelamento salarial de bilhões de trabalhadores, desequilibrando as relações produtivas e o acesso a bens básicos em escala mundial.

Continue lendo: Elon Musk consolida liderança e Jeff Bezos retoma segundo lugar

As conclusões técnicas reunidas pelos analistas internacionais traçam os seguintes parâmetros da expansão bilionária:

Saiba mais: Ranking dos bilionários: veja quem são as 10 pessoas mais ricas do mundo em outubro

  • 82% da riqueza líquida gerada no mundo ao longo de 2017 permaneceu nas mãos do 1% mais rico;
  • 3,7 bilhões de pessoas da metade menos favorecida não tiveram acréscimo patrimonial;
  • 2.043 bilionários foram contabilizados em todo o planeta pelo estudo da organização;
  • 9 em cada 10 indivíduos bilionários no levantamento pertencem ao sexo masculino.

O recorte analítico da pesquisa expôs ainda uma profunda barreira de gênero na posse de bens, com ampla predominância de homens nos postos de comando de conglomerados e na titularidade de heranças de grande porte. Em termos práticos de consumo e sobrevivência, a massa de empregados em ocupações vulneráveis e mulheres em postos precários enfrentou dificuldades contínuas para acompanhar o aumento do custo de vida, enquanto rendimentos especulativos multiplicavam ativos sem contrapartida de geração de postos formais de trabalho.

Como a desigualdade medida pela Oxfam afeta o Brasil?

No cenário brasileiro, a concentração de patrimônio seguiu a mesma trajetória observada no índice internacional, ampliando o desnível entre os rendimentos corporativos e a remuneração mínima da população assalariada. Cinco bilionários brasileiros detinham fortuna correspondente aos recursos somados de metade dos habitantes mais pobres do país, revelando que a parcela dos 50% de menor renda na economia nacional encolheu de 2,7% para 2% no intervalo avaliado pelos economistas.

Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil, avaliou os números nacionais com preocupação direta sobre a falta de políticas distributivas consistentes. “Isso significa que há mais pessoas concentrando riqueza. A gente não encontrou ainda um caminho para enfrentar essa desigualdade”, declarou a diretora, alertando para a necessidade de rever benefícios fiscais e distorções tributárias que sobrecarregam o consumo em vez da propriedade.

Para mensurar o impacto direto no orçamento doméstico, os técnicos da instituição calcularam o abismo entre as camadas produtivas locais. Um brasileiro remunerado pelo piso nacional precisaria trabalhar durante 19 anos ininterruptos para alcançar o rendimento equivalente a um único mês do grupo que compõe o 0,1% mais rico do país, cálculo que expõe as barreiras de ascensão social enfrentadas por famílias que vivem da renda do próprio trabalho.

Datas e marcos do estudo da Oxfam em Davos

A série de levantamentos seguiu um cronograma de validação analítica para apresentar a disparidade econômica aos líderes globais que participavam dos encontros anuais em território suíço:

  • Março de 2016 a março de 2017: período de apuração contínua do surgimento de bilionários com base nos relatórios do Credit Suisse e da revista Forbes;
  • 22 de janeiro de 2018: divulgação pública e entrega das recomendações econômicas do relatório ‘Recompensem o trabalho, não a riqueza’;
  • 23 de janeiro de 2018: início oficial das discussões e reuniões governamentais no Fórum Econômico Mundial de Davos.

O levantamento brasileiro apurou também que a quantidade de indivíduos com patrimônio bilionário no país subiu de 31 para 43 no decorrer da checagem, atingindo uma soma patrimonial de R$ 549 bilhões. Esse avanço de 13% em um único ano coincidiu com a perda de participação dos trabalhadores de base na renda nacional, quadro acompanhado pelo coordenador de campanhas Rafael Georges na apresentação dos dados à sociedade.