Ferramentas indígenas achadas em Ohio ganham estudo e acervo em museu de história natural

Pedras e ferramentas antigas - Food Impressions - shutterstock.com

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O conjunto de bifaces de pedra do Joshua Cache foi manufaturado com sílex transportado por até 45 quilômetros antes de ser enterrado sem sinais de uso em Sugarcreek, no estado norte-americano de Ohio. A confirmação integra uma pesquisa científica sobre os 11 artefatos pré-históricos associados provisoriamente à cultura Adena, cujas populações ocuparam o vale do rio Ohio entre 1.900 e 2.500 anos atrás.

O material lítico foi descoberto em um terreno do antigo campo de golfe Sugar Creek, que passava por terraplanagem para a construção de um condomínio residencial. “O Joshua Cache foi uma rara descoberta de uma importante coleção de artefatos indígenas datados de cerca de 2.000 anos atrás”, afirmou o curador emérito de arqueologia do Cleveland Museum of Natural History e coautor da pesquisa, Dr. Brian G. Redmond, em tradução livre.

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Joshua Cache: identificação do sílex e ausência de desgaste

Foto: Idade da Pedra – FWN Media Studio / shutterstock.com

Pesquisadores da Kent State University submeteram as ferramentas a ensaios de fluorescência de raios X portátil para determinar a composição geoquímica da rocha. Os testes laboratoriais apontaram que todas as 11 peças foram esculpidas em sílex do tipo Upper Mercer. As jazidas conhecidas dessa formação geológica situam-se entre 43 e 45 quilômetros ao sul do ponto exato onde o depósito permaneceu sepultado durante séculos.

O exame das bordas cortantes das lâminas revelou que nenhuma delas apresentava ranhuras, fraturas de impacto ou marcas típicas de tarefas práticas como corte de carne, abate, caça ou raspagem de madeira. A análise de microdesgaste identificou apenas um polimento sutil nas partes mais salientes das faces, provocado pelo atrito contínuo entre as próprias pedras guardadas em contato direto, o que comprova que as ferramentas foram preservadas em um invólucro ou fardo único logo após a produção.

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A configuração do conjunto levou os pesquisadores a classificar o sítio arqueológico como um depósito deliberado de ferramentas, conhecido tecnicamente como cache. Na arqueologia norte-americana pré-colombiana, essas concentrações representavam reservas estratégicas de matéria-prima de alta qualidade para viagens futuras, bens destinados ao comércio entre aldeias ou oferendas rituais subterrâneas sem a intenção de resgate imediato por parte dos artesãos.

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Morfologia dos bifaces de pedra comparada a 322 artefatos

A caracterização cronológica do achado dependeu de técnicas de análise morfométrica geométrica, método digital que avalia proporções, ângulos e simetrias de ferramentas talhadas. Os pesquisadores compararam os exemplares recolhidos no campo de golfe a uma base de dados contendo 322 bifaces documentados em sítios arqueológicos da América do Norte. O padrão tecnológico coincidiu com os conjuntos líticos atribuídos ao período Woodland Inicial, época em que os povos Adena erguiam monumentos funerários e túmulos de terra na região.

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Para contextualizar as medidas físicas, distâncias espaciais e parâmetros técnicos apurados durante o trabalho científico, os dados numéricos centrais reunidos no projeto foram discriminados pelos especialistas:

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  • Área de dispersão sob o solo: menos de 1 metro quadrado
  • Distância percorrida pelo sílex Upper Mercer: de 43 a 45 quilômetros
  • Idade estimada pela tradição Adena: de 1.900 a 2.500 anos
  • Base de bifaces de comparação morfométrica: 322 artefatos pré-históricos
  • Total de ferramentas que compõem o conjunto: 11 peças inteiras

Além das medições morfológicas, testes de radiocarbono em fragmentos de carvão vegetal coletados sob o nível das ferramentas indicaram datas situadas entre os séculos 12 e 13 da era cristã, período correspondente à cultura Mississippiana. A equipe concluiu, contudo, que o material orgânico era fruto de intrusão moderna decorrente do trânsito de máquinas pesadas e da penetração de raízes no terreno alterado pelas obras, optando por classificar a idade do lote com base no estilo dos artefatos de pedra.

Como as ferramentas do Joshua Cache foram encontradas em Ohio?

A descoberta começou quando Joshua Fetter caminhava nas margens de um lago artificial do Sugar Creek Golf Course e avistou uma pedra trabalhada que aflorava da terra recém-removida. Ao investigar a área imediata, o jovem desenterrou nove bifaces reunidos em um perímetro inferior a um metro quadrado. Ciente da relevância do achado, a família suspendeu qualquer intervenção mecânica e comunicou o departamento de antropologia da universidade mais próxima.

No dia seguinte à notificação, arqueólogos chefiados pelo Dr. Metin I. Eren e pela Drª Michelle Bebber foram ao local realizar uma escavação técnica de resgate. Os especialistas escavaram cuidadosamente a base do buraco e localizaram outros dois bifaces enterrados cerca de cinco centímetros abaixo do nível onde estavam os primeiros nove objetos. O procedimento garantiu a integridade do conjunto e assegurou o registro estratigráfico dos últimos vestígios antes que as fundações imobiliárias destruíssem a área.

“De igual importância à raridade do achado e à documentação dos artefatos é o fato de que este sítio foi descoberto por um jovem, que entendeu sua importância e o levou ao conhecimento de arqueólogos profissionais para estudo”, declarou o Dr. Brian G. Redmond, em tradução livre, ressaltando o papel da preservação patrimonial feita por civis.

Doação ao museu e publicação do artigo científico

Pela colaboração ativa na identificação inicial e na preservação das coordenadas exatas das ferramentas, Joshua Fetter recebeu reconhecimento acadêmico formal e assina o trabalho como um dos coautores oficiais do estudo publicado no Journal of Archaeological Science: Reports. Toda a coleção de 11 bifaces foi doada pela família Fetter ao acervo do Cleveland Museum of Natural History, instituição responsável pela guarda permanente e disponibilização do acervo para novas pesquisas.

A sequência de etapas desde a descoberta inicial na superfície do solo até a conclusão da análise científica compreendeu marcos específicos registrados pelo museu e pelos pesquisadores:

  • 9 de janeiro de 2021: Joshua Fetter descobre nove bifaces na terra revolvida pelas obras
  • 10 de janeiro de 2021: arqueólogos escavam outros dois bifaces a cinco centímetros de profundidade
  • 19 de maio de 2026: Cleveland Museum of Natural History anuncia a doação e a catalogação do lote
  • 1 de junho de 2026: estudo sobre o Joshua Cache sai no volume 72 do Journal of Archaeological Science: Reports

Embora a cadeia de transporte do mineral e a ausência de uso prático estejam comprovadas, a motivação precisa para o sepultamento das lâminas naquele ponto específico ainda não pode ser afirmada cientificamente. Como a terraplanagem retirou as camadas geológicas superiores antes da chegada dos arqueólogos, não restaram estruturas residenciais, fossas funerárias ou outros vestígios associados intactos para certificar se as lâminas serviam como esconderijo de emergência, reserva comercial ou oferenda sagrada.

Os pesquisadores ressaltam que apenas o avanço das técnicas analíticas poderá resolver essas lacunas. No encerramento do artigo no Journal of Archaeological Science: Reports, os autores afirmaram, em tradução livre: “Apesar dessas questões, a importância de publicar e curar o Joshua Cache e outros achados semelhantes não pode ser exagerada — futuros avanços científicos ou descobertas de campo podem fornecer pistas, clareza ou até mesmo resolução”.