Uma expedição formada por 17 pesquisadores ligados à busca por Amelia Earhart, aviadora norte-americana desaparecida no Oceano Pacífico em julho de 1937, desembarcou ao amanhecer desta terça-feira (13) no atol desabitado de Nikumaroro, na República de Kiribati. O grupo da Universidade Purdue, da Purdue Research Foundation (PRF, fundação de pesquisa da instituição) e do Instituto do Legado Arqueológico (ALI) vai investigar durante cinco dias o chamado Objeto Taraia, uma anomalia submersa que pode corresponder aos destroços do bimotor Lockheed Electra 10-E, sumido há 89 anos.
A embarcação Marin Mainiku alcançou a costa oeste do atol na segunda-feira, 12 de outubro de 2026, por volta das 20h no horário local, mas o desembarque aguardou a luz do dia seguinte. Liderados por Richard Pettigrew, diretor-executivo do ALI, os cientistas montaram operações na praia e na lagoa próxima à Península de Taraia e à Passagem de Tatiman. “É incrivelmente gratificante estar tão perto de concluir nossa inspeção do Objeto Taraia e potencialmente resolver, finalmente, o grande mistério do desaparecimento de Amelia Earhart e Fred Noonan há mais de 89 anos”, afirmou Pettigrew, em tradução livre.
Inspeção do Objeto Taraia e planos para o avião de Amelia Earhart
Para verificar se a estrutura submersa nas águas rasas da lagoa é a fuselagem da aeronave histórica ou apenas formação natural, os pesquisadores aplicam um protocolo dividido em etapas tecnológicas de varredura antes de qualquer escavação física no local, que não recebia visitas na Península de Taraia há mais de 15 anos. O plano operacional do instituto determina que a confirmação dependerá de encontrar alumínio aeronáutico com o formato específico e os padrões de rebites do modelo Electra. O trabalho envolve diferentes equipamentos:
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- Fotografias aéreas com drones e registros em vídeo da área rasa da lagoa de Nikumaroro;
- Varredura de sensoriamento remoto com aparelhos de sonar e magnetômetros (instrumentos que medem variações no campo magnético para detectar metal);
- Acionamento de uma draga hidráulica para remover a camada de sedimentos sobre o alvo, caso os testes iniciais confirmem material metálico compatível;
- Identificação visual e estrutural da peça exposta para comprovar se pertence ao bimotor de 1937.
A anomalia foi notada inicialmente em 2020 em imagens de satélite do aplicativo Apple Maps pelo entusiasta Michael Ashmore. Análises posteriores do ALI confirmaram que o formato, com dimensões compatíveis às da fuselagem e da cauda do avião, ficou exposto a partir de 27 de abril de 2015, após o ciclone tropical Pam remover sedimentos da lagoa, além de ser discernível em fotografias aéreas de 1938. Para Pettigrew, localizar a aeronave “seria a descoberta de uma vida” e funcionaria como a “prova irrefutável” do caso.
Ainda não há confirmação física se o Objeto Taraia é a fuselagem do Lockheed Electra 10-E, um tronco de árvore ou outro destroço. Caso a estrutura seja autenticada, o plano da Universidade Purdue é recuperar a aeronave e levá-la aos Estados Unidos, cumprindo o desejo da aviadora de devolver o chamado laboratório voador à instituição. “Devemos isso ao legado de Amelia na Purdue para seguir as evidências”, declarou Steve Schultz, vice-presidente sênior e consultor jurídico geral da Universidade Purdue, que lidera a equipe universitária ao lado dos ex-alunos e representantes Sirisha Bandla, especialista em tecnologia, e Marc Hagle.
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Ligação histórica de Amelia Earhart com a Universidade Purdue e o voo de 1937
A participação da universidade norte-americana na expedição a Kiribati decorre de um vínculo direto iniciado em 1935, quando Amelia Earhart passou a trabalhar na instituição como consultora técnica em aeronáutica e orientadora de carreiras para mulheres, três anos após ter se tornado, em 20 de maio de 1932, a primeira mulher a atravessar sozinha o Oceano Atlântico de avião. Em 1936, a Purdue Research Foundation instituiu o fundo de pesquisa aeronáutica que forneceu US$ 47 mil (valor total do financiamento na época) para auxiliar a aviadora na compra do bimotor Lockheed Electra 10-E utilizado na tentativa de circum-navegação pela linha do Equador.
A viagem de volta ao mundo começou em 20 de maio de 1937, quando Earhart e seu navegador, Fred Noonan, decolaram de Oakland, na Califórnia. Em 2 de julho de 1937, a dupla partiu de Lae, na Papua-Nova Guiné, rumo à Ilha Howland para reabastecimento. O navio da Guarda Costeira dos Estados Unidos USCGC Itasca aguardava nas proximidades e captou transmissões de rádio nas quais a piloto informava ter pouco combustível e seguir uma linha de navegação norte-sul que passava por Nikumaroro, situada a cerca de 640 quilômetros (aproximadamente 400 milhas) ao sudeste de Howland.
Divergências científicas sobre o desaparecimento de Amelia Earhart
A hipótese de um pouso forçado nos recifes de Nikumaroro foi levantada em 1988 pelo Grupo Internacional para Recuperação de Aeronaves Históricas (TIGHAR), organização que realizou 12 expedições ao atol desde 1989 — a última visita autorizada à ilha ocorreu em 2019, há sete anos. Em buscas anteriores, foram recolhidos fragmentos de alumínio, acrílico de para-brisa, um zíper da década de 1930, partes de um canivete e o salto de um sapato feminino, além de registros sobre ossos humanos achados em 1940 e extraviados na guerra. Mesmo defendendo que a aviadora chegou ao atol, o diretor-executivo do TIGHAR, Ric Gillespie, contesta a atual missão e lembra que a área foi vasculhada sem sucesso com detectores de metais em 2001 e 2007.
“O objeto visível nas antigas imagens de satélite, que Pettigrew acredita ser parte dos destroços do avião, não se parece com destroços de uma aeronave. Parece um pândano morto, arrancado pela raiz durante uma tempestade e levado pelas águas até Taraia”, disse Gillespie.
Outra linha de investigação descarta a chegada ao atol de Kiribati. Dorothy Cochrane, especialista e curadora aposentada do Museu Nacional do Ar e do Espaço do Smithsonian, sustenta que a aeronave não teria combustível suficiente para percorrer os 640 quilômetros adicionais até Nikumaroro. “Acredito que Earhart e Noonan estavam nas proximidades da ilha Howland, com base nos fatos conhecidos sobre o voo, mas simplesmente não conseguiram encontrá-la antes que o combustível acabasse”, afirmou Cochrane. Em 2024, a empresa Deep Sea Vision divulgou imagens de sonar de um formato semelhante a um avião a cerca de 4.800 metros (16.000 pés) de profundidade perto de Howland, mas em novembro de 2024 confirmou-se que era uma formação rochosa natural.
A atual equipe de 17 cientistas partiu de Tarawa em 7 de outubro de 2026 e navegou 830 milhas náuticas durante cinco dias pelo Pacífico Sul, apoiada por uma tripulação de 17 marinheiros da Kiribati National Shipping Line. Durante os cinco dias de trabalhos em Nikumaroro antes do retorno a Tarawa, os pesquisadores dormirão todas as noites a bordo do navio Marin Mainiku devido às condições de maré, aos efeitos do fenômeno climático El Niño e à presença noturna de caranguejos-dos-coqueiros gigantes, crustáceos carnívoros terrestres que habitam a ilha.
