Executivos de grandes empresas e economistas avaliaram que a inteligência artificial e a instabilidade macroeconômica formam o principal dilema de gestão corporativa nos próximos anos, durante o Exponential Summit 2026, em Ibiúna (SP). O encontro reuniu líderes de companhias como Bradesco, Alelo, C&A e Grupo Ultra para discutir como automatizar processos e manter a rentabilidade sem comprometer a formação de novos profissionais.
Para o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, o ambiente externo exige atenção redobrada das diretorias. “Pelo menos desde a Segunda Guerra Mundial, não tivemos um conjunto tão grande de incertezas como o que estamos vivendo na economia global”, afirmou o executivo durante o evento.
Bradesco alerta para impacto da inteligência artificial na base de talentos
Apesar do cenário internacional instável, Fernando Honorato avaliou que o acompanhamento macroeconômico e financeiro representa a parte mais controlável da gestão atual, mesmo diante das particularidades brasileiras. “O Brasil ainda tem juros altos e desafios monumentais de competição e de regulação. A segurança jurídica vai continuar testando os líderes”, declarou. O economista também destacou a necessidade de monitorar a geopolítica: “O líder que não estiver plugado no que está rolando lá fora, do ponto de vista estratégico e geopolítico, vai ver a sua empresa sofrer muitas consequências”.
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Na avaliação do economista-chefe do Bradesco, o maior obstáculo para a alta direção das companhias nos próximos anos será a transição tecnológica e a adoção de ferramentas de inteligência artificial no dia a dia das operações, especialmente pelo risco de esvaziar a base de treinamento das equipes. “O Claude faz hoje o trabalho de três semanas de dois PhDs em economia. Mas se abrir mão desses jovens, como vou formar a futura geração de economistas-chefes do banco?”, questionou Honorato, referindo-se ao modelo de linguagem artificial usado para análises complexas.
Projeções do Fórum Econômico Mundial para o mercado até 2030
A preocupação debatida pelos executivos em Ibiúna reflete os dados do Relatório sobre o Futuro dos Empregos 2025 (Future of Jobs Report 2025), publicado pelo Fórum Econômico Mundial em janeiro de 2025. O estudo ouviu mais de 1.000 empresas, que juntas representam mais de 14 milhões de trabalhadores em 55 economias, para mapear o efeito da automação no mercado de trabalho global.
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- Empregos deslocados: 92 milhões de postos de trabalho devem ser extintos ou substituídos pela automação e transição tecnológica até 2030.
- Novas vagas: 170 milhões de novas funções devem ser criadas no mesmo período até 2030.
- Saldo líquido: ganho positivo de 78 milhões de empregos no balanço global projetado pela organização.
- Mudança de qualificação: 39% das habilidades essenciais dos trabalhadores precisarão mudar ou ser transformadas até 2030.
- Visão das empresas: 86% dos empregadores estimam que a inteligência artificial e o processamento de informações transformarão seus negócios até 2030.
- Barreira técnica: 63% das companhias apontam a lacuna de habilidades (conhecida como skill gap, a falta de profissionais qualificados para as novas demandas) como o principal entrave para a transformação empresarial.
Grupo Ultra, Alelo e C&A defendem adaptação e rigor em projetos
Diante da velocidade de atualização das ferramentas digitais, a ex-diretora global de tecnologia da Vale e atual conselheira de administração do Grupo Ultra e do Pacto Contra a Fome, Vania Neves, afirmou que a primeira barreira comportamental dos gestores é aceitar a própria obsolescência. “Precisamos ter autoconhecimento para saber que é necessário mudar. O que nos trouxe até aqui não vai nos levar adiante”, disse a conselheira. Para reduzir a ansiedade corporativa, ela defendeu o foco na experimentação prática: “A melhor forma de acalmar o medo do amanhã é fincar os pés no hoje. É menos futurismo e mais presença. Para cuidar do futuro, eu preciso entender o presente e escolher bem meus movimentos, onde vou aprender e experimentar, para chegar a esse amanhã.”
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O diretor-presidente (CEO, cargo executivo mais alto de uma empresa) da Alelo, Márcio Alencar, argumentou que a automação deve servir para liberar a agenda dos gestores para atividades exclusivamente humanas, como o diálogo e a retenção de equipes em um ambiente social dividido. “A tecnologia vai liberar tempo para você fazer aquilo que ela não faz: conversar, dialogar, entender o que faz sentido”, afirmou Alencar. Segundo ele, cabe aos diretores oferecer perspectiva de carreira às equipes: “A missão mais complexa é prover esperança para as pessoas. Vivemos em um mundo de muita desesperança. O líder precisa apresentar um futuro de oportunidade e desenvolvimento, especialmente para os mais jovens.”
Alencar acrescentou que a condução das empresas exige combater ruídos de comunicação internos e externos. “Nessa dinâmica de polarização, o principal problema é que as pessoas não ouvem mais. Elas colocam as suas certezas à frente da escuta do outro. A grande tarefa da liderança é ouvir e também apresentar possibilidades”, declarou o executivo da Alelo.
Na parte operacional e financeira, o vice-presidente de Operações e Serviços Financeiros da C&A, Fernando Brossi, destacou que a combinação de instabilidade econômica e mudança tecnológica obriga as empresas a aplicarem filtros mais rígidos antes de liberar investimentos, mantendo a atenção voltada às demandas reais dos consumidores. “A incerteza em um cenário difícil tem o lado do risco e o da oportunidade. Ela deveria aumentar a régua de exigência. Hoje, não basta um projeto ser apenas bom; ele precisa ser muito bom para ir em frente”, avaliou Brossi, ressaltando também o papel da diretoria na manutenção do foco interno: “Precisamos cuidar do time, no sentido de dar segurança de continuidade. Ter convicção estratégica, um caminho e um norte claros ajuda muito a passar por essas fases.”
Balanço de cinco anos e dados do Exponential Summit 2026
Na abertura do encontro em Ibiúna, a comunidade corporativa B2B Match divulgou o balanço histórico de suas atividades desde a criação do grupo. “Esta é uma edição emblemática, pois completamos cinco anos e o formato e propósito do Exponential Summit se provaram e mostraram a que vieram”, disse o fundador e CEO da B2B Match, Bruno Padredi.
- Evento: 5ª edição do Exponential Summit 2026, com o tema central “Liderando a Transformação”.
- Período de realização: de terça-feira (6) a quinta-feira, 8 de outubro de 2026.
- Local: Clara Ibiúna Resort, no município de Ibiúna (SP).
- Público desta edição: mais de 150 CEOs e executivos C-Level (grupo que reúne os diretores de mais alto escalão das companhias).
- Acumulado em cinco anos da B2B Match: mais de 3,8 mil participações de executivos em mais de 70 encontros no Brasil, abrangendo 38 setores econômicos.
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Além dos debates sobre macroeconomia e recursos humanos, a programação de três dias do evento incluiu painéis com Christian Gebara (Vivo), Luis Justo (Rock in Rio), Sérgio Zimerman (Grupo Petz Cobasi), Andréa Frazão (Eurofarma) e Jonas Marques (Pague Menos), que discutiram maturidade da inteligência artificial, gestão agêntica, futuro do varejo, longevidade e o impacto comercial dos medicamentos da classe GLP-1.
