Pesquisadores do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian e da Universidade de Oregon detectaram, pela primeira vez, sinais de rádio emitidos comprovadamente por um exoplaneta, o gigante gasoso Beta Pictoris b. A captação inédita das emissões de rádio aurorais foi feita com o radiotelescópio MeerKAT, instalado em Carnarvon, na província do Cabo Setentrional, na África do Sul, e permite medir diretamente a intensidade do campo magnético de um mundo fora do Sistema Solar.
O estudo foi conduzido pelo autor principal Kevin N. Ortiz Ceballos e pelo coautor Edo Berger, ambos pesquisadores do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian (CfA), em parceria com a coautora Yvette Cendes, astrofísica do Departamento de Física e Astronomia da Universidade de Oregon. Os resultados foram submetidos em 15 de setembro de 2026 à plataforma científica arXiv, onde figuram como pré-impressão (preprint, versão preliminar de um artigo científico que ainda aguarda o processo formal de revisão por pares e a confirmação independente por outros observatórios).
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Segundo os autores, a pesquisa superou uma barreira antiga na observação espacial ao separar de forma inequívoca a emissão do planeta da radiação de seu astro central. “Embora rajadas de rádio aurorais sejam observadas em planetas do Sistema Solar e em algumas anãs ultrafrias, nenhuma detecção de rádio havia sido anteriormente localizada de forma inequívoca em um planeta extrassolar em vez de sua estrela hospedeira”, afirmaram Ceballos, Berger e Cendes no artigo, em tradução livre.
Astrometria com quasares isolou o sinal de Beta Pictoris b no MeerKAT
Para comprovar que as ondas vinham especificamente de Beta Pictoris b, a equipe de astrônomos precisou isolar o sinal dentro de um ambiente estelar complexo na constelação de Pictor. Além da estrela hospedeira Beta Pictoris e de um disco circunstelar formado por gás e poeira, o sistema abriga três planetas conhecidos: Beta Pictoris b, Beta Pictoris c e Beta Pictoris d, sendo que este último teve sua descoberta anunciada em julho de 2026. Os cientistas aplicaram uma técnica chamada astrometria de precisão, alinhando as imagens de rádio obtidas nas sessões de observação com as posições exatas de quasares distantes de fundo (núcleos galácticos ativos extremamente luminosos usados como pontos fixos de referência no espaço). Ao sobrepor os registros do radiotelescópio a esse mapa celeste de alta precisão, os pesquisadores conseguiram descartar a estrela e os outros dois mundos vizinhos como fontes da emissão.
Os sinais registrados consistem em uma emissão persistente acompanhada por rajadas rápidas, recorrentes e com forte polarização circular (propriedade na qual a onda eletromagnética gira em torno de seu eixo de propagação). Os dados técnicos da observação e as características físicas medidas no sistema Beta Pictoris reúnem os seguintes parâmetros:
- Instrumento e local de captação: radiotelescópio MeerKAT, composto por 64 antenas em Carnarvon, na África do Sul;
- Período de coleta de dados: quatro sessões de observação realizadas entre fevereiro de 2025 e maio de 2026;
- Faixa de frequência captada: de 0,85 a 3,5 GHz, operando nas bandas L e S do espectro de rádio;
- Distância em relação à Terra: entre 63 e 64 anos-luz, conforme variações de arredondamento nos catálogos astronômicos;
- Massa estimada de Beta Pictoris b: entre 9 e 13 vezes a massa de Júpiter (frequentemente citada na faixa de 10 a 12 massas jovianas);
- Período de rotação planetária: de 8 a 9 horas para completar um giro em torno de seu próprio eixo;
- Período e distância orbital: de 22 a 23,8 anos para dar uma volta completa ao redor da estrela hospedeira, a uma distância de cerca de 10 unidades astronômicas (UA, medida equivalente à distância média entre a Terra e o Sol).
Auroras polares e campo magnético de 1.250 gauss em Beta Pictoris b
Os cientistas descartaram qualquer hipótese de que os pulsos fossem uma tecnoassinatura, termo usado na astronomia para descrever sinais artificiais emitidos por tecnologias de possíveis civilizações extraterrestres. As análises demonstraram que a emissão é resultado da radiação maser de cíclotron de elétrons (ECMI, na sigla em inglês), um fenômeno físico natural ligado à formação de auroras polares quando partículas carregadas de alta energia interagem com a magnetosfera do planeta.
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De acordo com os pesquisadores, essa atividade auroral intensa é alimentada pela rápida rotação do gigante gasoso em torno de seu próprio eixo. A partir da frequência máxima observada nas rajadas, de 3,5 GHz, o grupo realizou a primeira medição direta da intensidade do campo magnético de um exoplaneta, determinando um limite mínimo de 1,25 quilogauss (1.250 gauss) na região onde os sinais se originaram. Para efeito de comparação, esse valor representa cerca de 2.500 vezes a intensidade do campo magnético na superfície da Terra, que é de aproximadamente 0,5 gauss, e supera com folga o índice registrado em Júpiter, de cerca de 4,3 gauss.
A professora de astrofísica da Universidade de Oxford, Suzanne Aigrain, que não participou do estudo, avaliou o resultado da equipe norte-americana. “Os astrônomos procuram sinais de rádio de exoplanetas há algum tempo. Houve detecções provisórias e indiretas antes, mas esta é a primeira detecção direta verdadeiramente convincente, e espera-se que abra caminho para muitas outras”, disse Aigrain, em tradução livre.
A especialista da instituição britânica também explicou por que outro mecanismo físico comum foi descartado nas análises de Beta Pictoris b, dada a distância de 10 unidades astronômicas entre o planeta e sua estrela. “Existem dois processos naturais que podem produzir emissão de rádio em exoplanetas. Um deles é a reconexão magnética, quando o planeta orbita muito perto da estrela e seu campo magnético interage diretamente com o da estrela”, declarou a professora.
Histórico de Beta Pictoris b e próximos alvos a até 147 anos-luz
Descoberto em novembro de 2008 por meio de imagem direta obtida pelo instrumento Very Large Telescope (VLT), do Observatório Europeu do Sul (ESO), Beta Pictoris b orbita uma estrela jovem com idade estimada em apenas 23 milhões de anos. Embora o busca por emissões de rádio em mundos fora do Sistema Solar ocorra desde a década de 1990, fenômenos aurorais desse tipo só eram confirmados na Terra e nos quatro gigantes do Sistema Solar — Júpiter, Saturno, Urano e Netuno —, sendo Júpiter a fonte mais intensa entre eles.
Compreender o funcionamento dessas magnetosferas distantes é uma etapa necessária para a astrofísica porque o campo magnético protege a atmosfera de um planeta contra a erosão contínua causada pelos ventos estelares. Embora Beta Pictoris b seja um gigante gasoso sem condições físicas de abrigar vida, o domínio da técnica de medição magnética servirá de base para avaliar, no futuro, o potencial de habitabilidade de mundos rochosos semelhantes à Terra. A partir do método validado na África do Sul, os autores já mapearam os próximos passos da investigação espacial e identificaram outros sete exoplanetas gigantes diretamente imageados, distribuídos em cinco sistemas estelares situados a até 45 parsecs (cerca de 147 anos-luz) de distância da Terra.
A aplicação da mesma técnica de localização astrométrica nesses sete alvos dependerá da entrada em operação da próxima geração de observatórios de rádio. “De forma mais ampla, mais sete exoplanetas gigantes diretamente imageados em cinco outros sistemas dentro de 45 parsecs estão em separações onde a técnica de localização astrométrica usada aqui se aplica, e uma melhoria de aproximadamente 5 a 7 vezes na sensibilidade dos instrumentos, esperada dos observatórios de rádio de próxima geração, os colocará ao alcance de detecção”, afirmaram Ceballos, Berger e Cendes no documento submetido ao arXiv.
