Dasosaurus tocantinensis amplia conexões pré-históricas no Brasil

Silhueta de dinossauro

Silhueta de dinossauro - MISTER DIN/shutterstock.com

O Dasosaurus tocantinensis, uma nova espécie de dinossauro saurópode pescoçudo com cerca de 20 metros de comprimento, foi formalmente descrito por pesquisadores brasileiros. O animal viveu há aproximadamente 120 milhões de anos, durante o início do período Cretáceo, e representa o maior dinossauro conhecido no Maranhão e um dos maiores já encontrados no Brasil.

A descrição formal foi consolidada em artigo publicado no periódico internacional Journal of Systematic Palaeontology em 12 de fevereiro de 2026, sob a liderança do paleontólogo Elver Luiz Mayer, professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). A descoberta ocorreu a partir de fósseis resgatados durante intervenções de engenharia no sudoeste maranhense, associados a rochas sedimentares da Formação Itapecuru.

“É o maior dinossauro conhecido para o Maranhão, que tem outras espécies, mas não saurópodes como esse, e sim outras menores, como o diplodoco Amazonsaurus maranhensis, que tinha cerca de 10 metros de comprimento”, afirmou Elver Luiz Mayer.

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Dimensões, datação e registro do Dasosaurus tocantinensis

Foto: dinossauros – Erman Gunes/Shutterstock.com

Os fósseis do espécime catalogado sob o código CPHNAM VT 1600 compreendem um conjunto representativo do esqueleto pós-craniano do animal. Entre as peças recuperadas estão um fêmur de 1,5 metro de comprimento, ossos da cintura pélvica, fragmentos de membros locomotores posteriores, ossos dos pés, costelas e vértebras caudais com estruturas ósseas anatômicas diagnósticas que diferenciam o animal de qualquer outro saurópode já catalogado no planeta.

  • Comprimento estimado: cerca de 20 metros da cabeça à ponta da cauda
  • Tamanho do fêmur preservado: 1,5 metro de comprimento
  • Idade geológica estimada: cerca de 120 milhões de anos (estágio Aptiano do Cretáceo Inferior)
  • Local de localização dos fósseis: município de Davinópolis, no estado do Maranhão
  • Instituição depositária definitiva do acervo: Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão (CPHNAMA), em São Luís

Como o Dasosaurus tocantinensis se espalhou entre os continentes?

O Dasosaurus tocantinensis pertence ao clado dos Somphospondyli, situado dentro do grupo taxonômico dos titanossauriformes. As análises filogenéticas detalhadas pelos pesquisadores revelaram que o parente evolutivo mais próximo do gigante brasileiro é o Garumbatitan morellensis, dinossauro descrito em 2023 a partir de materiais fósseis extraídos na região de Morella, na Espanha. A proximidade morfológica entre as duas espécies inclui a presença idêntica de três cristas ósseas proeminentes em cada uma das faces laterais das vértebras da cauda, além de semelhanças acentuadas na arquitetura geral do fêmur.

Essa relação de parentesco anatômico direto reforça os modelos biogeográficos sobre as rotas de dispersão de vertebrados terrestres ao longo do Mesozoico. As reconstruções indicam que as linhagens basais desses saurópodes provavelmente se originaram no território que hoje corresponde à Europa e migraram em direção à porção nordeste da América do Sul entre 140 milhões e 120 milhões de anos atrás, utilizando corredores de terra firme transitáveis pelo norte da África, quando a configuração dos continentes ainda permitia a passagem contínua desses animais de grande porte.

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“Este é o primeiro titanossauriforme não titanossauro do Brasil. Tanto que, a princípio, achávamos que fosse uma outra espécie do mesmo gênero, mas como são intervalos temporais e locais geográficos diferentes, classificamos esse animal em um novo gênero”, declarou Bruno Navarro, paleontólogo e pesquisador do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP) e coautor da publicação científica.

Escavações em Davinópolis revelaram ossos a 10 metros de profundidade

O resgate do material paleontológico teve início em 13 de abril de 2021, durante os trabalhos de terraplanagem para a construção de um terminal ferroviário da empresa Brado Logística no município de Davinópolis. O arqueólogo Daniel Ribeiro da Silva, que atuava no monitoramento patrimonial e ambiental do empreendimento, avistou as primeiras estruturas mineralizadas incrustadas no talude de um corte rochoso. As peças ósseas fossilizadas estavam soterradas em uma profundidade que variava entre 8 e 10 metros abaixo da superfície original do terreno.

No momento da constatação inicial, operários e técnicos da obra chegaram a levantar a hipótese de que os fragmentos gigantescos pertencessem a representantes da megafauna extinta do período Pleistoceno, como as preguiças-gigantes pré-históricas. No entanto, análises estratigráficas preliminares realizadas em campo descartaram prontamente essa possibilidade ao identificarem que a camada rochosa pertencia aos estratos consolidados da Formação Itapecuru, remetendo diretamente à Era Mesozoica e confirmando a natureza fóssil de dinossauro.

A descoberta do sítio paleontológico foi comunicada publicamente em 7 de outubro de 2021, permitindo que expedições científicas isolassem os blocos com matriz sedimentar para remoção técnica e transporte laboratorial.

Pesquisa reuniu 11 instituições públicas brasileiras

A investigação científica necessária para extrair, preparar e descrever os ossos demandou cerca de três anos de análises laboratoriais e congregou pesquisadores de 11 instituições de pesquisa públicas brasileiras. Além da Univasf e do MZ-USP, participaram especialistas do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Universidade Federal de Santa Maria, sob colaboração do paleontólogo Leonardo Kerber, e da Universidade Federal do Maranhão, com atuação do professor e paleontólogo Manuel Alfredo Medeiros.

O nome atribuído ao animal carrega significados associados à geografia e à ecologia pretérita do local de coleta. O termo Dasosaurus é formado pela junção da palavra de raiz grega dasos, que significa floresta, com a terminação latina saurus, comumente aplicada a répteis. O epíteto tocantinensis homenageia o rio Tocantins e a região tocantina maranhense, marcando a influência de ecossistemas florestais na área durante o Cretáceo.

Os pesquisadores ainda não confirmam a posição exata do Dasosaurus tocantinensis no ranking restrito dos três maiores dinossauros do país em publicações definitivas, embora atestem com segurança que ele supera qualquer outro animal pré-histórico encontrado até hoje em território maranhense e figura entre os gigantes de maior porte do registro fóssil brasileiro. As investigações coordenadas pelo CPHNAMA seguem concentradas em análises sedimentares e tafonômicas complementares para detalhar as causas da morte do indivíduo e as condições de soterramento que possibilitaram a fossilização do esqueleto.