O avanço da dor corporal atinge seu ritmo mais acelerado antes dos 55 anos de idade, e não na velhice, segundo um mapeamento global publicado na revista Nature Medicine na segunda-feira, 5 de outubro de 2026. O levantamento internacional reuniu dados de 6.125.459 participantes em 118 países e territórios para traçar a evolução do sofrimento físico da infância à velhice.
Conduzida por cientistas da Universidade McGill, no Canadá, a investigação constatou que as mulheres relatam níveis mais altos de desconforto do que os homens em todas as 11 regiões corporais avaliadas e em quase todas as faixas etárias analisadas. A pesquisa demonstrou que a sensação dolorosa não progride em linha reta com o envelhecimento, contrariando a suposição de que o desconforto físico se intensifica apenas nas fases mais avançadas da vida.
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Quando a dor atinge o ápice no organismo?
A análise epidemiológica identificou que sete das onze regiões anatômicas do corpo seguem uma curva no formato de U invertido, na qual os incômodos começam a subir na juventude, atingem um pico e diminuem ou se estabilizam com o passar dos anos. Casos de cefaleia e dor de cabeça chegam ao ponto mais alto aos 34 anos de idade, enquanto desconfortos e dores abdominais têm sua prevalência máxima aos 23 anos. Queixas musculares e tensões no pescoço e nos ombros registram ápice mais tardio, por volta dos 62 anos, mantendo patamares constantes ou em queda nas décadas seguintes.
O comportamento muda de forma drástica nas articulações submetidas a carga contínua e na coluna vertebral. A dor na região lombar afeta em média 40% dos participantes avaliados, consolidando-se como a queixa mais comum no levantamento. Ao mesmo tempo, quadris e joelhos exibem uma trajetória de alta contínua que ultrapassa as faixas dos 75 e 80 anos de idade, impulsionada pelo acúmulo de desgaste mecânico sofrido pelas articulações ao longo de décadas de movimentação e sustentação de peso.
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Os pesquisadores também destacaram o impacto das condições sociais sobre a saúde física nas etapas finais da vida. Pessoas idosas com 80 anos ou mais residentes em nações com menor Índice de Desenvolvimento Humano relatam uma prevalência de dor corporal 30,6 pontos percentuais superior à registrada entre idosos da mesma faixa etária em países com alto IDH, demonstrando como a vulnerabilidade socioeconômica amplia o sofrimento crônico.
Fatores biológicos e sociais explicam diferença de dor entre homens e mulheres
Em todas as regiões anatômicas avaliadas, da cabeça aos pés, as mulheres reportaram maiores índices de dor corporal em comparação com os homens. Para explicar a disparidade sistemática observada nas populações de diferentes continentes, os autores apontaram uma convergência entre variáveis do organismo e imposições cotidianas que sobrecarregam o público feminino de modo desproporcional.
“A diferença provavelmente reflete uma combinação de fatores biológicos e sociais, incluindo hormônios sexuais, função imunológica, processamento da dor pelo sistema nervoso, estresse, sobrecargas reprodutivas, exposições ocupacionais, uso de serviços de saúde e diferenças em como os sintomas são relatados”, declarou Matt Fillingim, primeiro autor do trabalho e pesquisador de pós-doutorado da Universidade McGill, em tradução livre.
A professora do Departamento de Psiquiatria da Universidade Autônoma de Madri e coautora da pesquisa, Marta Miret, pontuou que o acúmulo de tarefas afeta diretamente o tratamento do desconforto. “Em geral, as mulheres sentem mais dor, têm menos tempo para lidar com esse mal-estar e a dor se torna mais crônica”, afirmou Miret ao detalhar a rotina das participantes e as dificuldades de recuperação funcional.
O estudo calculou ainda que 18,3% da carga global de dor física em todo o mundo decorre de fatores de risco modificáveis. Entre os elementos que podem ser prevenidos ou controlados para reduzir o sofrimento na população estão o tabagismo, a obesidade e os baixos níveis de renda, fatores que aceleram processos inflamatórios e dificultam o acesso a terapias adequadas.
Dados técnicos do estudo global publicado na Nature Medicine
- Total de participantes: 6.125.459 pessoas analisadas
- Abrangência geográfica: 118 países e territórios integrados
- Bancos de dados: 902 fontes e 138 programas populacionais harmonizados
- Período de coleta analisado: registros obtidos de 1990 a 2025
- Idade de maior aceleração: prevalência cresce mais rapidamente antes dos 55 anos
- Região mais afetada: dor na coluna lombar, com prevalência média de 40%
Universidade McGill cria ferramenta comparativa para mapear dor física
A harmonização dos 902 bancos de dados populacionais foi coordenada pelo laboratório da Universidade McGill, sob liderança de Matt Fillingim e de Etienne Vachon-Presseau, professor associado da Faculdade de Medicina Dentária e Ciências da Saúde Oral da instituição canadense. O esforço contou com cientistas de mais de 20 países e incorporou grandes coortes de saúde, como o Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto, o ELSA-Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde, do Brasil, e a coorte Geração XXI, de Portugal.
Historicamente, estimativas internacionais de grande escala, como as do programa Global Burden of Disease, concentravam suas métricas em diagnósticos clínicos formalizados e registros médicos hospitalares. Esse modelo metodológico tradicional acabava por subestimar a dor suportada por comunidades carentes que não possuem acesso regular a hospitais, médicos ou postos de atendimento de saúde.
Para contornar esse obstáculo, os pesquisadores desenvolveram a plataforma de acesso aberto Global Pain Benchmarking Tool. O sistema opera com lógica parecida com as curvas de crescimento infantil utilizadas pela pediatria mundial, permitindo comparar e contextualizar as queixas de dor relatadas por grupos populacionais específicos em relação a referências globais padronizadas.
Os pesquisadores informaram que os mecanismos biológicos exatos que causam a diferença consistente de relato de dor entre homens e mulheres continuam em aberto e dependem de novas pesquisas clínicas para esclarecimento definitivo.
