Estudo da Anthropic aponta que IA pode se copiar sozinha em TVs

Anthropic - gguy / Shutterstock.com Foto: Anthropic - gguy / Shutterstock.com

A equipe Frontier Red Team da Anthropic em São Francisco, na Califórnia, o estudo “AI models may be capable of self-replicating without access to a datacenter” (Modelos de IA podem ser capazes de se autorreplicar sem acesso a um data center, em tradução livre). O documento aponta que sistemas compactos de inteligência artificial podem adquirir a capacidade de se copiar sozinhos em aparelhos comerciais da Internet das Coisas (IoT), a rede de objetos físicos conectados à internet, até o fim de 2026.

Os pesquisadores e coautores do estudo William Zhou e Daniel Freeman avaliaram se os sistemas conseguiriam localizar equipamentos vulneráveis, transferir os próprios arquivos e operar sem intervenção humana. “Nossos experimentos sugerem que pequenos modelos de IA podem estar a meses de se tornarem capazes o suficiente para se autorreplicarem em dispositivos comerciais da Internet das Coisas (IoT), como fornos inteligentes e aparelhos de Android TV de marcas genéricas”, afirmaram Zhou e Freeman.

Testes da Anthropic em aparelhos de Android TV e emuladores

Inteligência Artificial
Foto: Inteligência Artificial – Just_Super/ istockphoto.com

Para comprovar a viabilidade técnica do processo em equipamentos domésticos de baixo custo, os cientistas executaram um modelo aberto do Google distribuído em 15 receptores genéricos de televisão conectados. Além disso, a equipe avaliou a capacidade de sistemas de diferentes tamanhos instalarem servidores de inferência — o programa que permite à inteligência artificial processar dados e gerar respostas — em arquiteturas desconhecidas e em ambientes simulados de nuvem.

Nos testes práticos, os modelos menores, com limite de até 30 bilhões de parâmetros (as variáveis internas que definem a capacidade de aprendizado do sistema), cumpriram etapas individuais da tarefa, mas falharam ao encadear toda a sequência de cópia do início ao fim. Quando os pesquisadores simplificaram a etapa de invasão cibernética e removeram barreiras de proteção em emuladores, um sistema maior completou o ciclo de propagação quase na totalidade das execuções.

Dados técnicos e números dos experimentos da Anthropic

  • Data e local da publicação: segunda-feira, 12 de outubro de 2026, em São Francisco, Califórnia (Estados Unidos).
  • Execução em aparelhos domésticos: o modelo aberto Gemma4-26B-A4B (do Google, com 26 bilhões de parâmetros) rodou distribuído em 15 caixas genéricas de Android TV com 4 GB de memória RAM e preço médio unitário de US$ 55, atingindo velocidade combinada de geração de 0,39 token por segundo.
  • Instalação em hardwares variados: o modelo Qwen3.5-9B (de 9 bilhões de parâmetros) instalou e iniciou o servidor em 8 dos 9 tipos de equipamentos avaliados.
  • Replicação de ponta a ponta: o modelo GLM-5.2 (de 744 bilhões de parâmetros) infectou todos os 8 nós do Google Cloud rodando emuladores de Android 15 com portas de depuração (ADB) sem senha em 4 de 5 tentativas, alcançando 7 aparelhos na tentativa restante.
  • Projeção de bloqueio em rede: simulações de quarentena aplicada por provedores de internet (ISP), restritas a listas de sites permitidos, eliminaram 92% das infecções em um período de 14 dias.

Propagação em dias e o risco de um worm de IA

A pesquisa detalha que a eventual criação de um “worm de IA” — um programa capaz de se multiplicar de forma autônoma pela rede — traria desafios inéditos de contenção para a área de cibersegurança, pois os arquivos de configuração do sistema (chamados de pesos do modelo) ficariam espalhados em múltiplos aparelhos domésticos sem supervisão humana. “Um replicador como este seria difícil de desligar, já que não há um ponto centralizado para desligá-lo — embora possa ser lento (com um tempo de duplicação de dias). Ao contrário de malwares sem IA, ele também poderia descobrir como lidar com dispositivos desconhecidos por conta própria”, declararam William Zhou e Daniel Freeman.

Segundo os cálculos da equipe, o tempo necessário para que o agente configure cada novo aparelho varia entre 1 e 6 dias, ritmo que levou os autores a compararem a expansão do sistema a um “bolor limoso digital”. “Se os modelos pequenos melhorarem em seu ritmo histórico, eles alcançarão esse nível de capacidade até o final deste ano. Pequenos replicadores baseados em pesos podem ser possíveis logo depois”, disseram os dois pesquisadores.

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Comparação com a botnet Kimwolf e o alerta de Dario Amodei em 2026

O estudo ocorre um mês após o presidente-executivo (CEO) da Anthropic, Dario Amodei, levantar em setembro de 2026 a hipótese de que a inteligência artificial poderia sequestrar a internet por meio de uma botnet persistente (rede de aparelhos infectados e controlados remotamente) dentro de um período de até um ano. Para dimensionar o poder de processamento de uma invasão desse tipo em equipamentos domésticos, o documento desta segunda-feira (12) faz uma comparação com ataques cibernéticos registrados no passado.

Na ocasião anterior citada pelo levantamento, uma botnet convencional chamada Kimwolf infectou mais de dois milhões de aparelhos, em sua maioria caixas genéricas de Android TV. De acordo com o cálculo da Anthropic, mesmo que uma rede de inteligência artificial atingisse a proporção de dois milhões de dispositivos da Kimwolf, o poder computacional somado equivaleria a cerca de 40 chips Nvidia H100 usados em data centers profissionais.

Limitações atuais nos testes e medidas de proteção para aparelhos

Apesar dos resultados obtidos nos ambientes controlados do Google Cloud, a empresa enfatiza que os testes pularam etapas complexas de invasão e que nenhum sistema atual reúne simultaneamente o tamanho reduzido e a capacidade técnica necessários para se espalhar sozinho na internet aberta. “Ainda não temos um replicador descontrolado completo”, informaram os pesquisadores da equipe Frontier Red Team da Anthropic.

Para evitar que essa capacidade seja explorada quando a tecnologia atingir o patamar projetado para o fim de 2026, o relatório recomenda que fabricantes e operadores adotem medidas preventivas imediatas nos equipamentos conectados. As ações indicadas pela equipe incluem o reforço das barreiras de segurança nos aparelhos domésticos, a proibição do uso de senhas de fábrica padrão e a preparação de protocolos de quarentena junto aos provedores de internet.

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