As gatas tricolores possuem pelagem com manchas pretas, alaranjadas e brancas devido a uma mutação específica no gene Arhgap36, localizado no cromossomo X. Pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e da Universidade de Kyushu, no Japão, identificaram a falha molecular que determina a cor laranja nos felinos e explica por que apenas 1 em cada 3.000 animais com esse padrão nasce macho.
A descoberta encerra uma busca científica que durou mais de 60 anos para localizar a identidade molecular exata da pelagem alaranjada e do padrão tricolor, também chamado de calicó ou escama de tartaruga. “Esta descoberta é o resultado de décadas de curiosidade científica. Agora temos a explicação molecular para um fenômeno observado há séculos”, afirmou Hiroyuki Sasaki, geneticista e professor da Universidade de Kyushu, autor sênior do estudo japonês.
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Como o cromossomo X e o gene Arhgap36 atuam nas gatas tricolores?
A presença simultânea dos tons preto e alaranjado depende de variantes de um mesmo gene situado no cromossomo X. Como as fêmeas possuem a configuração cromossômica XX, elas podem herdar de seus pais uma cópia associada ao pelo alaranjado em um cromossomo X e outra versão ligada à coloração escura no segundo cromossomo X, expressando as duas cores no corpo. Os machos, que têm configuração XY e carregam apenas um cromossomo X, herdam somente uma das variantes, tornando-se inteiramente alaranjados ou escuros.
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Duas equipes independentes — a norte-americana liderada pelo geneticista e professor emérito de genética e pediatria Greg Barsh e pelo cientista sênior Christopher Kaelin, em Stanford, e a japonesa conduzida por Hiroyuki Sasaki e pelo pesquisador Hidehiro Toh, do Instituto Médico de Biorregulação da Universidade de Kyushu — detalharam como essa herança opera nas células. Nos felinos com pelos alaranjados, a ausência de um trecho de DNA altera a regulação do gene Arhgap36 nos melanócitos, que são as células da pele responsáveis pelo crescimento e pela pigmentação do pelo. Essa alteração reduz a atividade dos genes que fabricam a eumelanina (pigmento escuro) e estimula a produção de feomelanina (pigmento alaranjado ou avermelhado).
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Os números levantados pelas duas universidades nos estudos publicados na revista científica Current Biology demonstram a dimensão exata dessa variação genética:
- 5 quilobases (kb) é o tamanho exato do segmento de DNA deletado em uma região não codificadora ligada ao gene Arhgap36 no cromossomo X;
- 13 vezes maior é o nível de expressão de RNA do gene Arhgap36 nas células da pele de gatos laranjas em comparação com felinos sem pelagem alaranjada;
- 188 gatos compuseram o banco de dados analisado pela equipe de Stanford, sendo 145 laranjas, 6 tricolores ou escama de tartaruga e 37 não laranjas, confirmando a deleção em todos os indivíduos com pelos alaranjados;
- Menos de 1% (proporção estimada em 1 para cada 3.000) dos gatos tricolores nascem machos.
Inativação celular e o mosaico de manchas nas gatas tricolores
O formato irregular das manchas nas fêmeas ocorre durante o início do desenvolvimento embrionário, quando cada célula desativa de maneira aleatória um dos seus dois cromossomos X. À medida que essas células se multiplicam para formar a pele, todas as suas descendentes mantêm exatamente o mesmo cromossomo X ativo, criando grupos celulares distintos que produzem ora pigmento preto, ora pigmento alaranjado, formando um mosaico biológico único em cada animal. Já as áreas de pelo branco nas gatas tricolores não têm relação com o cromossomo X: elas são determinadas por outros fatores genéticos que provocam a ausência de melanócitos em regiões específicas da pele e dos folículos pilosos.
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“O que torna essas manchas fascinantes é o mecanismo de inativação aleatória do cromossomo X. No início do desenvolvimento, um dos cromossomos X em cada célula é desativado aleatoriamente”, declarou Christopher Kaelin, cientista da Universidade Stanford.
Gatos machos tricolores e a comparação com outros mamíferos
Quando um gato macho nasce com pelagem tricolor, o fenômeno decorre de alterações cromossômicas raras, como a trissomia XXY — condição análoga à Síndrome de Klinefelter em humanos, na qual o indivíduo do sexo masculino herda dois cromossomos X e um Y. O padrão em machos também pode resultar de mosaicismo ou quimerismo, processos em que diferentes conjuntos genéticos coexistem no mesmo organismo. Embora essas anomalias cromossômicas estejam frequentemente associadas à infertilidade nos machos tricolores, os pesquisadores destacam que a alteração na regulação do gene Arhgap36 atua restritamente nos melanócitos e não causa prejuízos à saúde física ou ao bem-estar mental dos gatos.
A vinculação da cor laranja ao sexo do animal é uma exclusividade dos gatos domésticos entre os mamíferos. Em espécies como tigres, cães da raça golden retriever, orangotangos e seres humanos ruivos, a coloração amarela ou alaranjada não depende do cromossomo X. “Em várias espécies que possuem pigmento amarelo ou laranja, as mutações causais ocorrem quase exclusivamente em um de dois genes, e nenhum desses genes está ligado ao sexo”, explicou Kaelin.
Os dois artigos científicos de referência foram disponibilizados online em 15 de maio de 2025 e publicados oficialmente na edição impressa de 23 de junho de 2025 (volume 35) da revista Current Biology, voltando a repercutir no noticiário científico internacional e brasileiro entre 9 de outubro de 2026 e esta terça-feira (13). Antes da descoberta em felinos, o gene Arhgap36 era estudado apenas pela biologia do desenvolvimento e pela oncologia em tecidos neuroendócrinos, sem registro de atuação em células de pigmentação de camundongos, humanos ou outros mamíferos. No atendimento clínico, a avaliação veterinária segue como o procedimento indicado para verificar a saúde e a capacidade reprodutiva de machos que apresentem a pelagem de três cores.
