Microdoses de LSD melhoram atenção sustentada de mulheres, aponta estudo europeu

LSD - fukume/Shutterstock.com

LSD - fukume/Shutterstock.com

Microdoses de LSD aumentam a atenção sustentada e reduzem falhas visuais de foco em mulheres, segundo um ensaio clínico piloto conduzido por pesquisadores da Universidade de Maastricht. A constatação foi apresentada nesta segunda-feira (12), durante o congresso anual do European College of Neuropsychopharmacology (ECNP), realizado em Munique, na Alemanha.

O ensaio constatou que participantes do sexo feminino registraram uma resposta 8% mais ágil em tarefas visuais contínuas após receberem frações mínimas da substância, enquanto os homens submetidos à mesma intervenção não apresentaram melhorias perceptíveis em comparação com o grupo de controle.

A pesquisadora líder do estudo na Universidade de Maastricht, Iva Totomanova, pontuou os limites da descoberta durante o anúncio dos dados científicos no evento europeu em 12 de outubro de 2026. “É importante notar que, embora nosso trabalho sugira que microdoses de LSD melhorem a atenção sustentada em mulheres, ele não demonstra que baixas doses de LSD melhorem a cognição de forma geral, nem que as mulheres sejam geralmente mais responsivas ao LSD do que os homens”, declarou.

Redução de lapsos e ganho de agilidade motora com microdoses de LSD

Foto: Cérebro – Wirestock Creators/shutterstock.com

Na avaliação focada no tempo de reação, as mulheres que receberam o composto ativo reduziram o intervalo médio de resposta de 335 milissegundos, verificado no grupo placebo, para 308 milissegundos. Além da aceleração motora diante do estímulo visual projetado em tela, o número médio de lapsos de atenção caiu mais da metade, recuando de 4,7 falhas entre as usuárias de substância inativa para 2,3 lapsos entre as que ingeriram a droga.

A melhora na capacidade de sustentar o foco foi percebida logo após a ingestão da primeira dose do protocolo experimental, manteve sua consistência após as administrações repetidas e continuou presente na etapa posterior de acompanhamento dos voluntários. Esse padrão de resposta contínuo chamou a atenção dos pesquisadores porque outras áreas cognitivas submetidas ao mesmo crivo analítico, como a memória de trabalho e a velocidade no processamento geral de informações, não apresentaram nenhuma melhora conclusiva em nenhum dos grupos avaliados, indicando que o impacto mensurado ficou restrito à atenção contínua.

Leia também: Aplicativo de neurociência consegue diminuir placas causadoras do Alzheimer

Como funcionou a testagem clínica com voluntários em Munique?

O ensaio clínico em Munique adotou um modelo piloto randomizado e duplo-cego, no qual nem os voluntários nem a equipe médica sabiam previamente quem estava recebendo o composto farmacológico ativo ou o placebo. No total, 48 adultos saudáveis participaram da pesquisa, divididos de maneira idêntica entre 24 mulheres e 24 homens, com uma idade média geral calculada em 36,9 anos ao longo das duas semanas de acompanhamento.

  • 48 adultos saudáveis acompanhados durante o estudo piloto
  • 24 voluntárias do sexo feminino e 24 voluntários do sexo masculino
  • 36,9 anos como média de idade registrada entre os voluntários
  • 15 microgramas de LSD administrados em quatro momentos ao longo de duas semanas
  • 60 microgramas como patamar típico a partir do qual surgem efeitos psicodélicos clássicos
  • 308 milissegundos de tempo médio de reação entre mulheres com dose ativa
  • 335 milissegundos de tempo médio de resposta no grupo feminino sob placebo
  • 2,3 falhas de atenção em média nas mulheres medicadas com a substância
  • 4,7 ocorrências médias de desatenção observadas no grupo com placebo

A quantidade de 15 microgramas utilizada nos testes representa uma fração muito inferior à necessária para disparar alterações perceptivas profundas ou alucinações, que costumam surgir a partir de 60 microgramas da dietilamida do ácido lisérgico. Essa dosagem reduzida busca modular funções cerebrais sem provocar desconexão da realidade ou sintomas que interfiram na rotina das pessoas.

Acompanhe: Vitamina D em dose alta liga-se a melhor cognição em idosos

Universidade de Maastricht avalia divergências entre homens e mulheres

A ausência de efeitos mensuráveis no contingente masculino surpreendeu os autores do trabalho acadêmico europeu. Enquanto o grupo feminino demonstrou avanços estatisticamente relevantes na velocidade motora e na contenção de falhas atencionais, os homens que ingeriram exatamente a mesma proporção de substância permaneceram com números equivalentes aos seus próprios parâmetros de base obtidos durante a ingestão do placebo, sem qualquer sinal de evolução funcional nos testes visuais aplicados pelos computadores do centro de pesquisa.

O pesquisador e coautor do estudo na Universidade do Sul da Dinamarca, Mikkel Højlund, destacou a relevância de isolar essas variáveis em ensaios rigorosos antes de validar crenças populares. “A microdosagem de psicodélicos tem recebido muita atenção na mídia, portanto testar isso em um contexto de pesquisa adequado é importante para avançar nosso conhecimento sobre o assunto”, afirmou Højlund, em tradução livre.

Estudos anteriores no campo da psicofarmacologia costumavam examinar os dados de homens e mulheres de forma agregada, reunindo todos os voluntários em um único indicador médio. Esse modelo tradicional de consolidação estatística pode ter mascarado, em experimentos do passado, diferenças biológicas cruciais na metabolização e na reatividade celular a substâncias estimulantes e psicodélicas.

Confira também: Estudos de cinco décadas com LSD revelam efeitos na neuroplasticidade e aprendizado

Histórico da microdosagem de psicodélicos e fatores hormonais sob análise

A prática popular da microdosagem envolve o uso frequente de quantidades subclínicas de substâncias como LSD ou psilocibina com o propósito de potencializar o foco mental, elevar o humor ou destravar a produtividade cotidiana. Apesar da disseminação da prática em ambientes de trabalho corporativos e círculos criativos nos últimos anos, a literatura científica internacional ainda acumulava resultados conflitantes e metodologias frágeis, que muitas vezes não conseguiam separar a ação química real de um forte efeito placebo.

Os autores alertam que a investigação possui natureza preliminar em razão do tamanho reduzido da amostra e ressaltam que ainda não se sabe se variações hormonais femininas, etapas específicas do ciclo menstrual ou o uso de anticoncepcionais orais influenciaram diretamente a resposta positiva observada no público feminino. O próximo passo do grupo científico consiste em ampliar os ensaios clínicos para investigar essas rotas biológicas em voluntárias de diferentes faixas etárias.