Universidade de Évora estuda rios atmosféricos para prever cheias em Portugal

Universidade de Evora - Instagram

Universidade de Evora - Instagram

Sete rios atmosféricos atingiram a Península Ibérica em menos de um mês entre janeiro e fevereiro de 2026, o que levou pesquisadores da Universidade de Évora a lançar 14 radiossondas para medir o fenômeno em tempo real. A sequência de tempestades saturou o solo, encheu reservatórios e provocou inundações e deslizamentos de terra em Portugal.

Os resultados da campanha de observação foram divulgados pela instituição na segunda-feira, 12 de outubro de 2026. “Tivemos uma sequência excecional de rios atmosféricos nesse período, com consequências muito significativas no território, mas que constituiu também uma oportunidade única para observar os processos atmosféricos associados ao transporte de humidade”, afirmou Miguel Potes, diretor do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia para o Sistema Terra e Energia (CREATE) da Universidade de Évora.

Como a Universidade de Évora mede os rios atmosféricos?

Para acompanhar a circulação de umidade em altitude durante a passagem das tempestades, pesquisadores e estudantes de doutorado do CREATE realizaram os lançamentos a partir do Observatório de Ciências Atmosféricas da universidade, na cidade de Évora, no Alentejo. As medições ocorreram dentro da parceria científica europeia EUROP (European University RadiOsonde Partnership, rede de universidades para lançamento de radiossondas), integrada à campanha internacional NAWDIC, dedicada ao estudo de ventos e chuvas fortes

no Atlântico Norte e na região Euro-Mediterrânica. “As radiossondas são pequenos instrumentos transportados por um balão cheio com hélio que sobem através da atmosfera e medem, entre outras variáveis, temperatura, humidade, pressão e vento”, explicou Potes.

Os dados coletados durante a subida dos balões são transmitidos pelo sistema global de telecomunicações meteorológicas GTS (Global Telecommunication System) para alimentar modelos numéricos internacionais, incluindo o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF), utilizado pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Segundo a pesquisadora do CREATE Vanda Salgueiro, “são observações que dificilmente podem ser obtidas apenas a partir das estações meteorológicas à superfície e dos satélites meteorológicos”. Potes acrescentou o efeito prático do trabalho: “Estamos a produzir observações que são utilizadas não apenas para estudar estes fenómenos, mas também nos próprios sistemas de previsão meteorológica”.

Chuvas forte – FotoDax/ Shutterstock.com

Recordes de chuva no Alentejo e dados das medições em 2026

De acordo com o IPMA, fevereiro de 2026 foi o mês de fevereiro mais chuvoso dos últimos 47 anos em Portugal continental e o quinto com maior volume de água desde o início dos registros, em 1931. Durante o inverno de 2025-2026, a passagem da tempestade Kristin agravou os danos ao provocar rajadas de vento superiores a 150 km/h nos distritos de Leiria e Coimbra.

  • Altitude atingida pelas 14 radiossondas: entre 20 e 25 quilômetros.
  • Chuva acumulada em Portel em fevereiro de 2026: 252,8 milímetros.
  • Chuva acumulada na estação do Polo da Mitra (a 12 quilômetros de Évora) em fevereiro de 2026: 252,1 milímetros.
  • Chuva acumulada na cidade de Évora em fevereiro de 2026: 243,8 milímetros.

Relação dos rios atmosféricos com o aquecimento global e próximas campanhas

Os rios atmosféricos são corredores longos e estreitos que transportam grandes volumes de vapor de água das regiões subtropicais para latitudes mais altas, gerando chuva persistente quando encontram frentes meteorológicas, depressões ou cadeias de montanhas. Um estudo publicado em 28 de setembro de 2026 na revista científica Geophysical Research Letters — assinado por J. C. Fernández-Alvarez, G. Alvarez-Socorro e pelos pesquisadores da Universidade de Vigo Raquel Nieto e Luis Gimeno, professor catedrático de Física da Atmosfera — analisou os eventos ocorridos entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026 na Península Ibérica e concluiu que o transporte de umidade já exibiu características semelhantes às projetadas para a resposta inicial do cenário climático de altas emissões de gases de efeito estufa, denominado SSP5-8.5.

Relembre: Terremoto de 4,7 graus atinge Lisboa e região; IPMA monitora possíveis réplicas

Os modelos meteorológicos atuais conseguem prever a chegada desses corredores de vapor com vários dias de antecedência, mas ainda têm dificuldade para calcular com exatidão a quantidade de umidade transportada, a trajetória exata e os locais específicos onde a chuva será mais forte. Para ampliar a base de dados e antecipar alertas à proteção civil, a equipe do CREATE da Universidade de Évora prepara uma nova participação na campanha internacional NAWDIC, com novos lançamentos de radiossondas previstos para o inverno de 2026-2027.