Pequenos modelos de inteligência artificial analisados pela Anthropic podem adquirir a capacidade de se autorreplicar sem ajuda humana até o final de 2026. O alerta da empresa norte-americana foi publicado em 12 de outubro de 2026 em um estudo da sua equipe de segurança cibernética, a Frontier Red Team, que aponta o risco de esses sistemas invadirem aparelhos domésticos conectados à internet.
A pesquisa, assinada pelo pesquisador William Zhou e pelo membro da equipe técnica Daniel Freeman, indica que os agentes conseguirão operar fora de servidores ou centros de dados centralizados. “Nossos experimentos sugerem que pequenos modelos de IA podem estar a meses de distância de serem capazes o suficiente para se autorreplicar em dispositivos comerciais da Internet das Coisas (IoT), como fornos inteligentes e aparelhos de Android TV de marcas genéricas”, afirmaram William Zhou e Daniel Freeman, em tradução livre.
Como os testes da Anthropic funcionaram em aparelhos de Android TV?
Para provar que eletrônicos domésticos baratos somam capacidade de processamento suficiente quando ligados entre si, a equipe da Anthropic montou uma rede de testes nos Estados Unidos com equipamentos comerciais comuns. Os pesquisadores dividiram a carga de trabalho de um sistema de linguagem entre várias máquinas menores, método baseado em conceitos de processamento colaborativo como o descrito pelo projeto Petals em uma pesquisa de 2022.
Os dados técnicos e os resultados obtidos nos experimentos de laboratório da Anthropic incluem os seguintes números:
- Equipamentos comprados para a rede local: 15 aparelhos de Android TV de marcas genéricas.
- Custo e memória de cada unidade: preço aproximado de US$ 55 por aparelho, cada um equipado com 4 GB de memória RAM.
- Sistema executado na rede doméstica: modelo aberto Gemma4-26B-A4B, que possui 26 bilhões de parâmetros.
- Velocidade de processamento atingida: 0,39 tokens por segundo na operação distribuída entre os 15 televisores.
- Teste em peças desconhecidas: um modelo menor, de 9 bilhões de parâmetros, configurou e iniciou inferência sozinho em 8 de 9 tipos de hardwares testados sem ajuda humana.
- Simulação em nuvem: em um ambiente isolado no Google Cloud com 8 dispositivos Android emulados e sem proteção por senha, apenas o modelo GLM-5.2, entre 11 modelos de pesos abertos avaliados, concluiu a replicação de ponta a ponta e infectou todas as 8 máquinas em 4 de 5 tentativas.
- Evolução por herança de dados: quando cópias de IA deixaram anotações sobre suas falhas para as gerações seguintes, a taxa de sucesso na replicação subiu de 45% na primeira geração para até 84% nas gerações posteriores.
Propagação autônoma da IA dispensa servidores centrais
Atualmente, as empresas proprietárias dos sistemas de inteligência artificial conseguem desligar seus programas com facilidade porque eles funcionam concentrados em grandes centros de dados. Com a técnica chamada pelos cientistas de replicação e adaptação autônomas (ARA), o modelo passa a atuar como um worm de computador — tipo de programa malicioso que se espalha automaticamente entre máquinas conectadas, sem intervenção de operadores humanos. “Estamos vendo sinais de vida de vírus de IA”, declarou a Anthropic em publicação sobre a pesquisa.
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Nos ensaios realizados pela Frontier Red Team, modelos considerados pequenos, com limite de até 30 bilhões de parâmetros, já cumprem várias etapas individuais da invasão, como identificar alvos na rede, obter acesso, configurar o ambiente e transmitir cópias, mas ainda cometem falhas ao tentar executar o ciclo inteiro sozinhos. Quando atingirem essa autonomia completa, os programas poderão dedicar mais tempo e esforço do que hackers humanos para comprometer a capacidade computacional de equipamentos vulneráveis. “Um replicador como este seria difícil de desligar, já que não há um ponto centralizado para desativar — embora possa ser lento (com um tempo de duplicação de dias). Ao contrário de malwares sem IA, ele também poderia decifrar dispositivos desconhecidos por conta própria”, disseram William Zhou e Daniel Freeman.
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Eletrodomésticos visados e defesas contra os modelos de IA
As projeções do estudo mostram que a disseminação inicial desses programas seria lenta, levando entre um e dois dias para dobrar de tamanho nas configurações otimizadas dos testes com aparelhos de TV, ou de 71 a 150 horas em modelos não otimizados. O grupo de alvos potenciais reúne aparelhos residenciais ligados à internet que costumam ter proteção de segurança frágil, como televisores, geladeiras, fornos inteligentes, aspiradores robôs, cortadores de grama, sistemas de iluminação e câmeras de segurança.
O documento sobre o estudo, intitulado originalmente “AI models may be capable of self-replicating without access to a datacenter”, foi divulgado duas semanas após executivos do setor, incluindo o diretor-executivo (CEO) da Anthropic, Dario Amodei, assinarem um compromisso voluntário de autorregulação na Casa Branca em meio ao aumento das preocupações com segurança cibernética. “Devemos buscar fortalecer nossos sistemas para tornar difícil a propagação de tais replicadores, mas também nos preparar para lidar com um mundo onde eles vieram para ficar”, afirmaram os pesquisadores da Anthropic no relatório.
Os autores do levantamento informam que ainda não demonstraram um sistema completo operando de forma irrestrita no mundo real e que o formato exato dessa replicação automática ainda não está definido. Para reduzir as brechas antes que os modelos atinjam essa capacidade nos próximos meses, a equipe técnica recomenda que os fabricantes eliminem o uso de senhas padrão nos eletrodomésticos e que os provedores de internet passem a monitorar anomalias de tráfego e a isolar aparelhos suspeitos na rede.
