O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 54 anos, réu por feminicídio pela morte da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, criticou a roupa da vítima e atacou familiares, testemunhas e policiais durante interrogatório na 5ª Vara do Júri, no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo. Após o depoimento de mais de oito horas, a promotora Ingrid Bertolino Braido, do Ministério Público de São Paulo (MPSP), solicitou o envio dos vídeos à Corregedoria da PM, e a Justiça negou o pedido de liberdade do oficial na terça-feira (13).
Ao sustentar a versão de que a esposa cometeu suicídio, o oficial relatou uma discussão em que Gisele teria usado um vestido curto para chamar a atenção de entregadores na portaria do prédio onde moravam, no bairro do Brás, região central da capital paulista. “Ela estava com o vestido marrom (…) na frente do prédio. Ela está com o vestido marrom tubinho, se ela respirasse, o vestido rasgava. Bem decotado, diga-se de passagem, bem curto. Uns dois palmos acima do joelho”, disse Geraldo Leite Rosa Neto no interrogatório.
Relato de Geraldo Leite Rosa Neto sobre os 10 a 12 motoboys
Durante a audiência, o tenente-coronel afirmou que Gisele era agressiva, quebrava objetos e tinha problemas psiquiátricos. Segundo o réu, após pedir a separação na noite da discussão, a soldado jogou cabides sobre o guarda-roupa e desceu com a filha do casal, de 7 anos, para buscar um lanche onde estavam de 10 a 12 motoboys. “Ela falou, ah, vou descer lá pegar um lanche lá embaixo. Mas ela fez de propósito, a meu ver. Ela pegou aquele microvestido que ela tinha na época que ela era magrinha e vestiu com o corpão. Então o vestido ficou bem curto, bem justo e bem decotado”, declarou o oficial.
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O advogado da família da vítima e assistente de acusação, José Miguel da Silva Júnior, rebateu as declarações do réu, classificando as falas como machistas e misóginas. “Um outro ponto que também ele faltou com a verdade, com o cotidiano dele, é quando ele disse que a Gisele colocou um vestido curto e desceu para se exibir para os motoboys. Quando não é verdade, a Gisele desceu com um vestido nada curto, estava com a sua filha e não foi se exibir para os motoboys e foi sim conversar com seus pais, que ela havia chamado para levá-la embora. Então, ele realmente tenta a todo instante macular a memória da Gisele”, afirmou o advogado.
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Pedido do MPSP à Corregedoria e acusações de Geraldo Neto
Além das críticas à esposa, Geraldo Leite Rosa Neto fez acusações sem apresentar provas contra os pais e o ex-marido de Gisele, amigas da vítima, uma testemunha protegida que relatou episódios de assédio atribuídos a ele, investigadores, peritos e oficiais superiores da Polícia Militar, aos quais atribuiu o crime de prevaricação (quando o servidor público deixa de cumprir o dever de ofício por interesse pessoal). Diante das declarações na audiência, a promotora Ingrid Bertolino Braido pediu à Justiça que todas as pessoas mencionadas, incluindo a mãe da soldado como representante da vítima, sejam formalmente comunicadas das ofensas para que avaliem ações penais privadas por calúnia, injúria ou difamação e pedidos de indenização por danos morais, além de requerer que a Corregedoria da PM apure a conduta do oficial nas esferas administrativa, civil e criminal.
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Manutenção da prisão preventiva na 5ª Vara do Júri
No fim da tarde de terça-feira (13), a juíza Michelle Porto de Medeiros Cunha Carreiro, da 5ª Vara do Júri da Capital, manteve a prisão preventiva de Geraldo Leite Rosa Neto, detido no Presídio Militar Romão Gomes. Na decisão, a magistrada apontou risco concreto de interferência na instrução processual, pois o próprio réu admitiu no interrogatório ter tentado contato telefônico com o batalhão da policial militar Sheila Aparecida Magrini, amiga de Gisele e testemunha no processo.
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No depoimento, o tenente-coronel também mudou a versão sobre o momento em que localizou o corpo da esposa no apartamento do Brás: antes afirmava que conseguia enxergá-la de dentro do banheiro onde tomava banho, mas declarou em juízo que só a viu após sair do cômodo. Laudos do Instituto de Criminalística, incluindo um documento complementar assinado pela perita criminal Amanda Rodrigues Marinone, descartaram a hipótese de suicídio por impossibilidade física de a vítima ter efetuado o tiro na cabeça, além de apontarem marcas de agressão no rosto de Gisele e vestígios de sangue no banheiro, em uma toalha e na bermuda do oficial, enquanto a Polícia Civil identificou que o celular da soldado teve mensagens apagadas minutos após o disparo.
Datas do processo sobre a morte de Gisele Alves Santana
- 13 de fevereiro de 2026, às 21h: discussão relatada pelo réu em que Gisele pediu a separação e desceu à portaria do prédio, cinco dias antes do crime.
- 18 de fevereiro de 2026: Gisele Alves Santana é morta com um tiro na cabeça no apartamento do casal, no Brás.
- 18 de março de 2026: Geraldo Leite Rosa Neto tem a prisão preventiva cumprida e é levado ao Presídio Militar Romão Gomes.
- 2 de outubro de 2026: novo laudo do Instituto de Criminalística é anexado aos autos reiterando ser impossível o suicídio.
- 5 de outubro de 2026, das 13h42 às 22h06: interrogatório judicial do réu no Fórum Criminal da Barra Funda.
A Justiça de São Paulo ainda não se manifestou sobre o pedido do Ministério Público para notificar os ofendidos e remeter os vídeos à Corregedoria da PM. Enquanto o advogado de defesa de Geraldo Neto, Eugênio Malavasi, informou acreditar que o caso não será levado a júri popular, o processo segue agora para a fase de alegações finais da Promotoria, da assistência de acusação e da defesa, etapa após a qual a juíza decidirá se pronuncia o réu para julgamento pelo Tribunal do Júri.
