Escritora Lee Hong aponta impacto do BTS na leitura no Brasil

BTS /X/@BTSoficial

BTS /X/@BTSoficial

A escritora e agente literária sul-coreana Lee Hong avaliou nesta quarta-feira (14) como o grupo de K-pop BTS estimula o hábito de leitura e o consumo de obras de seu país entre os fãs brasileiros. A observação ocorreu após a primeira passagem da autora pelo Brasil, em setembro de 2026, para o lançamento do romance de suspense psicológico A Dama de Gangnam.

Durante a visita a São Paulo, a romancista conheceu leitores que utilizam as preferências musicais como guia literário. “Pude sentir de maneira muito direta o carinho dos brasileiros pelo K-pop. Durante um dos eventos, tive a oportunidade de conhecer a organizadora de um clube de leitura, e achei muito interessante e inusitado descobrir que o grupo escolhia suas leituras a partir dos livros que o BTS lia”, disse Lee Hong.

Transição da Hallyu e o impacto do BTS na leitura

O fenômeno observado no Brasil também se repete na Europa. Radicada na capital francesa desde 2023, a autora relatou que, durante um evento literário na França, conversou com pessoas que buscavam livros sul-coreanos especificamente para compreender melhor o grupo BTS. Para ela, esse movimento reflete uma mudança na Hallyu, termo que define a onda de difusão global da cultura da Coreia do Sul, antes focada em música e dramaturgia televisiva e agora direcionada ao aprofundamento cultural.

Saiba mais: BTS ganha lote extra de ingressos para três shows em São Paulo

“No início da expansão internacional da Hallyu, o interesse estava muito ligado a ‘conhecer a cultura coreana’. Mais recentemente, porém, temos visto crescer o desejo de ‘conhecer profundamente a cultura coreana’. Acredito que a literatura coreana será um conteúdo capaz de proporcionar esse ponto de transição”, afirmou a escritora.

Veja também: Cinemas exibem trailer de apresentações do BTS em São Paulo

A infância da própria autora teve uma experiência semelhante de aproximação cultural por meio dos livros, mas no sentido inverso. O primeiro contato de Lee Hong com o Brasil ocorreu na infância, ao ler a edição traduzida para o coreano do clássico brasileiro O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, imaginando o país a partir da rotina do personagem Zezé.

Confira também: Stray Kids comenta sobre o Grammy e popularidade nos EUA após atitude do BTS

Acidente na Estrada 50 e a origem de A Dama de Gangnam

A inspiração para escrever A Dama de Gangnam surgiu de uma ruptura pessoal vivida pela autora na Coreia do Sul, quando ela dormia de três a quatro horas diárias para conciliar a carreira literária, aparições na mídia, a maternidade e a rotina na elite local — seu ex-marido pertencia a uma família ligada ao conglomerado de mídia Hankook Ilbo Group. Exausta, Lee Hong cochilou ao volante e sofreu um acidente de trânsito na via expressa Estrada 50, episódio que a fez questionar as pressões por status, educação privada excessiva e casamentos tratados como negociação na sociedade sul-coreana.

Acompanhe: Retorno surpresa de faixa clássica do BTS gera comoção global na web

“Depois desse acidente, comecei a olhar para minha vida de outra maneira. Percebi que meu desejo por sucesso social não era necessariamente um desejo que havia nascido de mim mesma, mas algo que eu havia aprendido e internalizado desde a infância”, declarou a autora, acrescentando que espera que a obra leve as leitoras a refletirem sobre a origem de suas próprias ambições.

Publicado no Brasil pela VR Editora com tradução direta do coreano por Bruna Giglio, cofundadora do portal Sarangbang, o romance acompanha Oh Miná, uma apresentadora de televisão e autora de best-seller de 40 anos que mora no distrito de Gangnam, em Seul, e passa a ser perseguida por um stalker (perseguidor obsessivo). Todos os personagens e acontecimentos da trama são fictícios.

Crescimento de 300% da literatura sul-coreana e trajetória de Lee Hong

A chegada da obra ao país ocorre em um momento de expansão desse mercado editorial: nos últimos cinco anos, a presença de livros sul-coreanos no Brasil cresceu 300%, segundo levantamento do Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB). O interesse global também foi impulsionado em outubro de 2024, quando a escritora Han Kang, autora do romance A Vegetariana (2007), venceu o Prêmio Nobel de Literatura, tornando-se a primeira autora da Coreia do Sul a receber a honraria e atraindo novos públicos para filmes e séries do país.

Nascida e criada em Gangnam, Lee Hong dirige em Paris a agência literária Soseol, responsável por promover internacionalmente escritoras sul-coreanas como Pyun Hye-young, Yun Ko-eun, Chung So-hyun e Choi Eun-mi. Na função de agente, ela relatou receber contatos de produtoras audiovisuais da América do Sul interessadas nos direitos de adaptação de romances coreanos que já saíram na Europa ou em língua inglesa, mas seguem inéditos na região. A trajetória da autora e os dados de sua estreia brasileira reúnem os seguintes marcos:

  • 2007: estreia na literatura com o romance Girlfriends, vencedor do prêmio Today’s Writer Award, finalista do Korea Times Literary Award e adaptado para o cinema em 2009;
  • 2010: publicação original de Gangnam Lady (A Dama de Gangnam), terceiro livro da autora, estruturado em 4 partes em ordem cronológica inversa, eleito melhor romance do ano pela crítica sul-coreana e Livro Excelente pelo Conselho de Artes da Coreia;
  • 1º semestre de 2025: lançamento das traduções da obra na França e no Chile;
  • 4 a 13 de setembro de 2026: primeira visita de Lee Hong ao Brasil para participar da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no Distrito Anhembi;
  • 15 de setembro de 2026, das 10h às 12h: realização da palestra gratuita “Personagens femininas na ficção coreana que resistem às normas sociais”, com capacidade presencial de 80 vagas, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).
Carolina Costa: Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração