Pesquisadores da Universidade de Pequim mapearam a subsidência urbana — termo técnico para o afundamento gradual do solo — em 465 cidades com mais de 1 milhão de habitantes, distribuídas por 107 países, em estudo publicado na segunda-feira, 12 de outubro de 2026, na revista científica Nature Cities. O levantamento identificou áreas na Cidade do México onde o terreno cede na taxa máxima localizada de aproximadamente 217 milímetros por ano (21,7 centímetros).
Intitulado “Uma visão global da subsidência do solo urbano e suas trajetórias em mudança”, em tradução livre, o trabalho foi conduzido pelo primeiro autor Lijun Wang, pelo coautor Zurui Ao e pelos autores correspondentes Shengli Tao e Xie Hu, vinculados à Universidade de Pequim e à Universidade Normal do Sul da China. No artigo, os cientistas destacaram a urgência de reação diante dos dados obtidos. “Dada a ameaça potencialmente grande que a subsidência do solo representa para os sistemas socioambientais urbanos, é imperativo implementar estratégias eficazes de mitigação e adaptação para minimizar seus impactos prejudiciais. Alcançar esse objetivo requer uma compreensão abrangente dos padrões espaciais e das tendências evolutivas da subsidência urbana global”, afirmaram Shengli Tao, Xie Hu e coautores.
Cidade do México e Medan lideram índices de subsidência
Os resultados mostram contrastes severos entre os continentes avaliados. “Notavelmente, entre as dez cidades que enfrentam a subsidência mais severa, a maioria permanece concentrada na Ásia e na América do Norte, incluindo Bandung e Medan na Indonésia, Mashhad no Irã, e Torreón, Cidade do México e Toluca no México”, declararam Shengli Tao, Xie Hu e os demais autores no texto científico.
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Embora a Cidade do México registre o recorde de velocidade localizada de rebaixamento, de 217 milímetros anuais em pontos específicos, a taxa mediana considerando toda a extensão da capital mexicana é de 8 milímetros por ano. No mesmo país, Torreón apresentou rebaixamento mediano de cerca de 17 milímetros anuais, figurando ao lado de Toluca e da capital entre as dez metrópoles mais críticas do planeta.
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Quando o critério é a taxa mediana municipal completa, os índices mais elevados concentram-se no continente asiático. Medan, na Indonésia, lidera essa métrica com aproximadamente 33 milímetros de afundamento por ano. Na sequência aparecem Bandung, também na Indonésia, com mediana de 22 milímetros anuais, e Isfahan, no Irã, com 11 milímetros por ano. Outra metrópole iraniana, Mashhad, integra o grupo das dez cidades mais afetadas globalmente.
Em direção oposta, grandes centros urbanos como Boston, Nova York, Londres, Pequim, Tóquio, Seul, Sydney, Montevidéu e Nápoles demonstraram movimentação vertical do terreno considerada estável. Nessas localidades, a variação anual ficou entre 0,1 e 1,9 milímetro por ano. Esse intervalo abrange tanto estimativas de leve afundamento quanto de elevação do solo, e os próprios cientistas recomendam cautela na leitura desses números específicos, uma vez que valores tão reduzidos situam-se muito próximos à margem de incerteza das medições espaciais.
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Dados técnicos e taxas do mapeamento na Nature Cities
- Artigo científico: “Uma visão global da subsidência do solo urbano e suas trajetórias em mudança”, publicado na revista Nature Cities em 12 de outubro de 2026.
- Instituições responsáveis: Universidade de Pequim (Peking University) e Universidade Normal do Sul da China (South China Normal University).
- Abrangência e período: 465 cidades com população acima de 1 milhão de habitantes em 107 países, monitoradas durante nove anos (de 2014 a 2023).
- Tecnologia de medição: Radar de Abertura Sintética Interferométrico (InSAR) dos satélites Sentinel-1, da Agência Espacial Europeia (ESA), com resolução espacial aproximada de 40 metros.
- Principais taxas anuais registradas: Cidade do México com máxima localizada de 217 mm/ano e mediana municipal de 8 mm/ano; Medan com mediana de 33 mm/ano; Bandung com mediana de 22 mm/ano; Torreón com mediana de 17 mm/ano; Isfahan com mediana de 11 mm/ano; e cidades estáveis variando de 0,1 a 1,9 mm/ano.
O que causa a subsidência do solo e como o satélite mede o fenômeno?
A subsidência do solo resulta da combinação entre processos geológicos naturais e a intervenção direta das populações urbanas sobre a superfície e o subsolo. Entre os fatores naturais estão a compactação gradual de sedimentos e as movimentações tectônicas, enquanto a ação humana acelera o rebaixamento principalmente por meio da extração excessiva de água subterrânea para abastecimento e pelo próprio peso acumulado das construções e edifícios nas metrópoles. Com o passar dos anos, esse deslocamento vertical tem potencial para danificar fundações de prédios, romper tubulações de redes de esgoto e sistemas de drenagem pluvial, além de ampliar diretamente o risco e a frequência de inundações durante períodos de chuva intensa nas áreas mais baixas.
Para mensurar o problema em escala planetária sem depender apenas de medições locais isoladas, a equipe chinesa processou imagens de radar coletadas entre 2014 e 2023 pelos satélites Sentinel-1, operados pela Agência Espacial Europeia. A técnica de Radar de Abertura Sintética Interferométrico (InSAR), que compara imagens de radar da mesma área feitas em datas diferentes para medir deformações milimétricas na superfície, permitiu gerar mapas de subsidência local relativa com resolução espacial de aproximadamente 40 metros.
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O levantamento também identificou que o avanço do problema pode ser freado por políticas de gestão hídrica. Algumas regiões localizadas no Leste e no Sudeste Asiático registraram desaceleração no ritmo de afundamento do terreno após a adoção de regulamentações rígidas sobre o bombeamento de água subterrânea, combinadas a projetos de recarga artificial de aquíferos.
Antecedentes na China, limitações do estudo e acesso público
Antes desta publicação na Nature Cities, os levantamentos científicos sobre o afundamento de cidades costumavam aplicar metodologias ou recortes temporais distintos e analisavam um grupo pequeno de municípios por vez, o que impedia comparações globais padronizadas. Os próprios pesquisadores Shengli Tao, Xie Hu e Zurui Ao haviam conduzido um estudo anterior voltado exclusivamente às grandes cidades da China, com dados de 2015 a 2022, no qual constataram que 45% das áreas urbanas chinesas examinadas afundavam a taxas superiores a 3 milímetros por ano e 16% cediam mais de 10 milímetros anuais. Na nova avaliação mundial de nove anos, os autores ressaltam limitações técnicas importantes: o cálculo concentrou-se na subsidência local relativa dentro dos limites administrativos de cada município, doze cidades precisaram ser excluídas da amostra inicial por insuficiência de imagens do satélite Sentinel-1 e as estimativas apresentam grau maior de incerteza em regiões do globo que contam com baixa cobertura de estações terrestres de referência por satélite (GNSS).
Para permitir que prefeituras, engenheiros civis e formuladores de políticas públicas utilizem os dados no planejamento urbano, a equipe disponibilizou publicamente os mapas completos de subsidência, o código computacional batizado de SBAS-InSAR e uma plataforma com mapa global interativo.
