Inteligência artificial provoca cortes de livros e contratos

Livro escritor - AnnaStills - shutterstock.com

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O escritor haitiano-canadense Thélyson Orélien negou, na terça-feira, 13 de outubro de 2026, que seu romance “C’était ça ou mourir” (“Era isso ou morrer”) tenha utilizado inteligência artificial na redação. A defesa enviada por declaração escrita acontece após acusações de uso de tecnologia generativa retirarem a obra do Prêmio Goncourt, na França, e provocarem o cancelamento de contratos milionários no mercado editorial internacional ao longo de 2026.

No texto intitulado “Ce roman que j’ai écrit” (“Este romance que escrevi”, em tradução livre), Orélien rebateu as suspeitas sobre a obra, que narra a fuga do professor de história e geografia Jonas Dorléon de Porto Príncipe, no Haiti, por 12 países até o Canadá. “É uma calúnia e uma heresia. Recorri aqui e ali a ferramentas para pesquisas, mas nenhuma frase deste livro foi criada por uma máquina”, declarou o autor, em tradução livre, admitindo porém ter plagiado pelo menos cinco textos e um conto publicados no Canadá entre 2012 e 2014.

Cronologia do caso Thélyson Orélien e a exclusão do Prêmio Goncourt

Foto: Pilha de livros na frente de um quadro-negro – gopixa/ istockphoto.com

A crise em torno do livro de Orélien começou logo após o lançamento europeu e envolveu a ferramenta de detecção Pangram, acionada por um projeto coletivo na rede social X que tem entre seus criadores o colunista e ensaísta francês Samuel Fitoussi, que alegou temer o fim da leitura e da escrita. Enquanto testes iniciais apontaram trechos inteiros gerados por máquina, outros programas de verificação consultados na França classificaram o texto como obra humana, sem consenso técnico definitivo sobre a autoria dos parágrafos.

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  • Março de 2026: publicação do romance no Canadá pela Éditions du Boréal.
  • Agosto de 2026: lançamento na França pela editora Grasset.
  • 21 de setembro de 2026: conquista do Prix du Roman Fnac e início das acusações pela conta “Balance ton Claude” no X.
  • 25 de setembro de 2026: exclusão da lista do Prêmio Goncourt pela Académie Goncourt para preservar a integridade da premiação e suspensão da turnê promocional pela editora Boréal.

Como as editoras verificam a autoria diante do uso de inteligência artificial?

Nos Estados Unidos e na Europa, as suspeitas de uso de grandes modelos de linguagem (LLM, sistemas computacionais treinados para gerar texto) atingiram outros lançamentos de 2026. O escritor nigeriano e doutorando em Inglês na Southern Methodist University (SMU) Jerry Adedayo Falade teve o manuscrito policial “Call Me, I’ll Hide the Body” retirado de circulação por seus agentes, incluindo Marc Gerald, da agência Europa Content, em 29 de julho de 2026. Falade, que apresentou mensagens de texto de 2021 para comprovar a criação anterior ao ChatGPT, admitiu usar inteligência artificial de código aberto apenas para pesquisa. No mesmo período, a escritora norte-americana H. M. Wolfe negou as conclusões de um estudo liderado pelo professor de ciência da computação Tuhin Chakrabarty, da Universidade Stony Brook, sobre seu romance distópico “Daggermouth”.

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  • US$ 2 milhões: valor aproximado do contrato de dois livros com o selo Minotaur Books, do grupo Macmillan, perdido por Jerry Adedayo Falade após ofertas de 14 editoras para publicação em 2028.
  • 14.419 e-books: total de títulos da Amazon analisados no detector Pangram pelo estudo da Universidade Stony Brook em julho de 2026, dos quais 20% apresentaram mais de 25% de texto gerado por máquina.
  • 60%: proporção do texto de “Daggermouth” apontada pelo estudo como gerada total ou parcialmente por inteligência artificial, apesar do contrato na casa dos sete dígitos mantido pela editora Simon & Schuster.
  • 78,3%: probabilidade de uso de IA apontada pelo Pangram que levou a Hachette Book Group a cancelar nos Estados Unidos e recolher no Reino Unido o livro “Shy Girl”, de Mia Ballard, no início de 2026.
  • 35.000 a 45.000 cópias: volume de vendas de “C’était ça ou mourir” na França nas primeiras semanas após agosto de 2026, além da venda de direitos para mais de 20 países.

Para o pesquisador do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP) Fernando Osório, programas como o Pangram fornecem apenas indícios e não provas definitivas para embasar desclassificações em concursos. Enquanto a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2018, a polonesa Olga Tokarczuk, declarou em maio usar a tecnologia como enciclopédia para pesquisas, editoras brasileiras relataram sob reserva o cancelamento de um contrato de comédia romântica de uma ex-ghostwriter nigeriana e a descoberta de uso de IA pelo assistente de um autor nacional de não ficção, ambos sem identidades reveladas. O agente literário brasileiro João Paulo Riff explica que os contratos passaram a incluir cláusulas que proíbem o treinamento de máquinas e o uso da tecnologia em traduções e capas. “A IA não vai acabar com a escrita humana, assim como e-books e audiolivros não acabaram com livros físicos”, afirmou Riff.

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No Brasil, a diretora de aquisição da editora Sextante, Nana Vaz de Castro, confirmou a manutenção do lançamento de “Daggermouth”. “As ferramentas usadas para detecção de IA nos parecem ainda muito falhas. Não confiamos mais nelas do que na palavra dos autores”, disse a diretora. A edição brasileira de “C’était ça ou mourir” tem publicação prevista pela editora Intrínseca para fevereiro de 2027, e “Daggermouth” chegará ao país pelo selo Arqueiro, da Sextante, também ao longo de 2027.

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Jeronimo Santos: Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing
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