Stellantis traz marcas chinesas para a Europa e evita tarifas de importação

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Stellantis - Jonathan Weiss / Shutterstock.com

O diretor-executivo (CEO) da Stellantis, Antonio Filosa, anunciou na segunda-feira (12), durante o Salão do Automóvel de Paris 2026, na França, que o grupo automotivo vai compartilhar o excesso de capacidade produtiva de suas fábricas europeias com as montadoras chinesas parceiras Leapmotor e Dongfeng. A medida abrange unidades industriais na França e na Espanha e tem como objetivo elevar a taxa de ocupação fabril de 60% para 80% até 2030, evitando o fechamento de plantas na região.

“Reconhecemos que temos excesso de capacidade. Não queremos fechar fábricas”, afirmou Antonio Filosa em entrevista coletiva na abertura do evento parisiense. O executivo explicou que a margem de crescimento da empresa é limitada em um mercado europeu que opera abaixo dos volumes históricos. “Em vez de fechar fábricas, queremos partilhar esse excesso de capacidade com bons parceiros”, declarou o dirigente.

Como funcionará a divisão das fábricas da Stellantis na França e na Espanha?

Foto: Stellantis – Jonathan Weiss/shutterstock.com

A estratégia detalhada por Filosa concentra-se inicialmente em três complexos industriais: Rennes, na França, além de Zaragoza e Villaverde, em Madrid, ambos na Espanha. A produção de automóveis de marcas chinesas dentro do território europeu permite contornar as tarifas compensatórias impostas pela União Europeia sobre veículos elétricos importados da China, ao mesmo tempo em que atende aos futuros requisitos comunitários de conteúdo local, conhecidos como ‘Made in Europe’, preservando os empregos e a rede de fornecedores instalada ao redor dessas unidades.

Na unidade de Rennes, onde a Stellantis já fabrica o utilitário esportivo Citroën C5 Aircross, o grupo planeja localizar a montagem de veículos de nova energia (NEVs, sigla em inglês para carros elétricos e híbridos plug-in) da Dongfeng. Segundo Filosa, os modelos foram selecionados em conjunto pelas duas empresas para somar volume de produção e manter os fornecedores locais ativos, mas sem gerar concorrência direta com os automóveis que as marcas da própria Stellantis já vendem na Europa.

Em território espanhol, o plano para a fábrica de Zaragoza prevê a montagem do utilitário esportivo (SUV) elétrico Leapmotor B10. O projeto na unidade inclui ainda a instalação de uma nova linha de montagem destinada a um inédito SUV elétrico de segmento C (porte médio) da marca alemã Opel, integrante do grupo, que utilizará componentes do ecossistema tecnológico da parceria chinesa.

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Já para a planta de Villaverde, em Madrid, as negociações envolvem a alocação de novos modelos da Leapmotor a partir de 2028. O projeto em discussão prevê a potencial transferência da propriedade dos ativos da fábrica madrilenha para a subsidiária espanhola da Leapmotor International, mantendo o complexo em operação com novos volumes de trabalho para a cadeia de peças.

Números e metas do plano industrial da Stellantis na Europa

  • Taxa de utilização fabril na Europa: meta de subir do patamar próximo de 60% (registrado em maio de 2026) para 80% até 2030.
  • Corte de capacidade ociosa: redução nominal de 800 mil unidades na Europa até 2030 via reconversão e parceria, sem fechar fábricas.
  • Investimento global: 60 bilhões de euros (US$ 70 bilhões) previstos no plano estratégico quinquenal FaSTLAne 2030.
  • Divisão societária: 51% de participação para a Stellantis e 49% para a respectiva parceira chinesa, tanto na joint venture Leapmotor International quanto na futura sociedade europeia com a Dongfeng.
  • Vendas recentes na Europa: 588 mil veículos entregues pela Stellantis no terceiro trimestre de 2026 (alta anual de 10%), incluindo cerca de 44 mil unidades da Leapmotor.
  • Avanço chinês no continente: marcas chinesas atingiram 12% de participação nas vendas do mercado europeu em agosto de 2026, segundo dados da consultoria Dataforce.

Troca de tecnologia entre Stellantis, Leapmotor e Dongfeng

Além da ocupação das linhas de montagem, o acordo industrial estabelece uma troca de competências técnicas e comerciais entre os grupos. Enquanto a companhia liderada no conselho de administração pelo presidente (chairman) John Elkann e operada na região Enlarged Europe (Europa Ampliada) pelo diretor de operações (COO) Emanuele Cappellano oferece sua estrutura de distribuição, serviços de pós-venda e posicionamento de marcas no mercado europeu, as parceiras asiáticas entram com o desenvolvimento de sistemas elétricos e eletrônicos.

“Eles têm conhecimento sobre tecnologia, por exemplo, que pode ser partilhado connosco”, disse Filosa sobre a cooperação com a Dongfeng e com a empresa comandada pelo fundador e CEO da Leapmotor, Jiangming Zhu. O executivo da Stellantis acrescentou que a união das equipes permite identificar a origem da competitividade chinesa: “Não concordo totalmente com a visão de que nos faltam capacidades essenciais, mas certamente há áreas em que podemos nos complementar. Ao trabalharmos juntos e reunirmos nossas equipes de engenharia para entender como fazer as coisas melhor, podemos identificar de onde vem essa competitividade e aprender com ela.”

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Histórico dos acordos da Stellantis e o plano FaSTLAne 2030

A aproximação societária que sustenta o anúncio feito em Paris teve início em outubro de 2023, quando a Stellantis comprou cerca de 21% de participação na Leapmotor e constituiu a joint venture (sociedade conjunta) Leapmotor International, assumindo os direitos exclusivos para fabricar e comercializar os carros da marca fora da Grande China. Em 8 de maio de 2026, as duas companhias anunciaram a intenção de expandir essa aliança para produzir veículos elétricos nas plantas espanholas de Zaragoza e Villaverde. Doze dias depois, em 20 de maio de 2026, o grupo europeu assinou um memorando de entendimento não vinculante com a Dongfeng — ampliando uma parceria de 34 anos — para criar uma sociedade conjunta na Europa voltada à distribuição da marca premium Voyah e à produção em Rennes.

Essas diretrizes foram incorporadas ao plano estratégico FaSTLAne 2030, apresentado pela Stellantis em 21 de maio de 2026 durante o Investor Day (Dia do Investidor), em Auburn Hills, nos Estados Unidos. O programa, que prevê reconverter fábricas como a de Poissy, na França, e compartilhar outras com parceiros, foi desenhado para cortar mais de 800 mil unidades de capacidade ociosa no continente europeu até o fim da década.

Apesar do detalhamento público da estratégia, o acordo definitivo para transferir a fábrica de Villaverde para a Leapmotor International e o memorando vinculante para a sociedade europeia com a Dongfeng em Rennes ainda estão em fase de negociação e não foram concluídos. O Salão do Automóvel de Paris 2026, onde as negociações e os novos modelos do grupo estão em exposição, permanece aberto na capital francesa até domingo (18).

Maria: Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.